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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Homenagem às primeiras músicas dos cds

A força das primeiras músicas dos cds. Spark, Hidden Place, La Jeune Fille Aux Cheveux Blancs. O ímpeto com que dizem “contra todo o resto que há no mundo, contra tudo aquilo que tentou impedir meu nascimento, isso é o que eu tenho a dizer”. O modo como começam a primeira frase.

Entre todos os modos que se pode existir a música fala com você e te deixa entrar no universo que só existe naquele cd. Do primeiro acorde e da primeira frase você deduz todos os sabores que virão.

É uma música mal educada que vem chutando tudo ou então que suspira algo no seu ouvido ou que é tímida, mas não importa se é com agressividade ou suavidade, ela te faz olhar por cima do ombro e perceber que tinha um pedaço do seu olho que nunca tinha visto nada, um pedaço do seu olho que sempre viu tudo, mas que você nunca tinha reconhecido como seu filho.

Ela pode vir como uma oração. Como uma catedral ela é a transição que te tira do mundo de antes. Mas a oração pode ser entrar num buraco. Sentir medo ou desespero.

Você sente nela o traço do tempo. É dizer “é isso mesmo”, é assim que faziam. É um reconhecimento. O artista se faz guerreiro e entra em batalha, no arranhão que já existe no rosto e se deixa entrever pela armadura ele diz “esse sou eu”.

É um soluço. O prato principal disfarçado de primeiro prato. Um pedido de desculpas e um cuspe na cara. Como tudo mais no Ocidente ela é a resposta do artista à sua culpa e agressão. É fincar a faca no coração do mundo enquanto se chora a alegria de ter de fazê-lo. Sente-se vivo.

Ela tem me inspirado para escrever. Quantas vezes depois de ouvir uma primeira canção eu não pensei: “agora eu não tenho desculpa para não escrever, olha isso!” Ela não dá a mínima pra você porque só olha pra frente, se você olhar pra baixo verá que a mão está estendida para que você a pegue.

Quantas vezes eu não fui com tudo com ela. Mergulhei na água fria. Pulei nas nuvens. Deslizei em calculadoras e máquinas de escrever. Multidões que passavam e não me viam invisível entre elas. Quantas vezes não foi uma dorzinha simplesmente no coração que nós chamamos de prazer e que depois explode num grande ah que nós chamamos de admiração.

Quantas vezes não foram elas que me ensinaram a travar minhas próprias flechas. A olhar e esperar. O momento mágico, retumbante. Agora ou nunca. Em que você. Entra.

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Anfang Herbst

Ele estava gozando e o pau era tão grande que passava do umbigo e a porra caía no abdomen perfeito de menino (contraído pela dor do orgasmo) e a pele tão branca que eu gostava de cheirar para que quando eu me voltasse de novo para o sorriso ele estaria sorrindo para mim.

Eu estou com saudade dele. Saudade de tudo que poderia ter sido. Mas é uma série de razões e pináculos e estruturas fechadas e extasiantes que não são nem más nem misericordiosas. É só o simples não. Tão leve que não me dói. Me dói mais o pensar de como vou fazer para voltar pra ele.

Eu sou um vagabundo. Não gosto de acumular. Me felicito em jogar fora, em dizer adeus, em escutar as últimas músicas dos CDs. Sou o príncipe que está saindo pela porta. O valete brilhante e negro dos finais, da morte e da destruição. E assim da beleza.

Mas ele é tão doce. Ele é como o reflexo perfeito de mim que eu amo mas tão outro. E ele ainda não sabe dos meus segredos. Pela primeira vez em muito tempo eu tenho medo de revelar meus segredos e não o orgulho exibicionista de quem tem o trunfo na manga. Tenho o medo infantil pré-contar-pra-mamãe-que-eu-sou-gay que ele pare de gostar de mim quando souber quem eu sou.

Mas porque eu sinto que ele já me conhece já. Ele já sabe de todos os mistérios. Ele viu no meu rosto no momento que nos conhecemos. No meu olhar baixo, no meu sorriso depois do nosso primeiro beijo que durou uma eternidade inteira e que fez toda a balada parar de ódio porque “quem são esses dois meninos que pararam de dançar?”

Como eu sinto que já conheço ele, que ele é transparente, que há coisas nele que eu não sei que sei. O mistério, o mistério, o mistério. O mistério da minha carne. O mistério de mim. E agora o mistério de você. Que veio como rainha cavalgando e clamando o trono. E eu não posso dizer não.

“Entre, querido, tem alguém te esperando”.

O homem que não amava mais a Lua

As contínuas cheias e baixas da Lua podem fazer cansado o jovem coração. A Ela pertencem o vazio, a tristeza, as carcaças e o sonho. A mim pertenceu o jovem coração, que saiu hoje pela porta quando eu me despedi dela, “não posso mais me encher de prata por você.” Eu disse enquanto estava deitado na cama, em posição fetal.

Mas muitos foram os anos em que eu pertenci só a ela. Agora ele me diz que eu tenho os pés no chão. Ali foi onde eu experimentei o desespero e a solidão. O sentimento de uma cama e de metal na boca.

Num daqueles dias eu escrevi 35 poesias sobre morte e vazio, e não gostei de nenhuma delas, mas, num ato que surpreendia a mim mesmo, continuei escrevendo. Foi ali, naquele sofá, que ela me deixou. Encolhido no sofá verde, finalmente me sentindo seguro e livre do barulho que corria lá fora.

Foi ali também que eu decidi ir por outro caminho. Caminho esse que não conheço, porque ainda não terminei. É entre frestas, vãos e névoas desse caminho que eu continuo andando, olhando, com metal nas mãos.

Agora vem com tuas mãos prateadas. Mais uma vez escapei à tua morte. Para dessa vez descobrir que sou mortal. Para poder viver mais. Não sei mais nada do que deixo para trás. Sei o que me deixou. Ela com o seu cordão prateado me machucou com a sua lança. Eu cortei os cabelos para não crescerem mais. E me banhei em água vermelha.

Um dia de silêncio

Cada um tem sua história. A minha é a do silêncio. Justo eu que falo em muitas línguas e que anuncio a comunicação para a paz entre os povos, sou eu que sou o filho do silêncio.

Então aquele dia eu estava me contraindo com a idéia de que ninguém viria falar comigo. Foi aí que eu percebi que esse não era um dia de falar. Foram-se os dias de ter companhia, foram-se os dias de sair com amigos, foram-se os dias das discussões e brigas, foram-se os dias da fina e tão frágil poesia de duas pessoas que conversam e, sem nunca terem certeza, com o brilho nos olhos e o tremor das mãos, se encontram. Foram-se todos os dias. Hoje é o dia do silêncio.

Então eu me esgueirei pelo corredor fugindo da sombra e esbarrando na luz. Eu conhecia essa sensação de estar sozinho e não ter o que falar, e, principalmente, eu conhecia o eco que acontece na minha cabeça quando as palavras não podem sair. Chegar do outro lado e voltar. Eu conhecia essa dor, por isso me esgueirei no corredor. Fiz o movimento silencioso desviando do movimento brusco daquele que tem os olhos vendados. E pode sempre me pegar. Que pode me ceifar.

Eu fui andando na ponta dos dedos, me sentando, me acostumando com a bagunça, me consolando dizendo que era um dia para descansar, procurando outras coisas para fazer, e não fiz nada.

Quem é o artesão. Quem é o torturador que com o tempo vai perfurando esses poços profundos em mim. E ele disse que nunca mais voltaria quando eu declarei o cessar-fogo e decidi morar em outro lugar. Ele disse que nunca mais voltaria e eu acreditei. Mas eu sabia, sim eu sabia, que ele voltaria. Eu sabia que ele se esgueirava pelos cantos enquanto eu desfrutava os dias de Sol.

É só a garantia de um dia, só a garantia de um dia sobreviver, o resto eu não sei mais. Foram-se os dias. Hoje eu sobrevivi. Eu aguentei e levei ele, e como o invadido com o invasor eu o acalmei, até que ele pudesse conversar ao ponto de não mais ser perigoso.

Eu não estou mais forte. A vitória de hoje não garante que um dia não venha uma tristeza que possa me destruir. Mas não importa. Não há garantia de sobrevivência, não há garantia de destruição. Só vejo hoje. E qual é a garantia, afinal, se um mundo, esse é um mundo, em que eu não posso ver de onde venho e para onde vou. Só tenho um conhecimento. Ontem eu morri, hoje estou vivo.

V.W.

Adeline, Adeline

With her hollowed eyes

Writing in her one room

Will you write the world for me?

Will you write me a nail?

 

I know they’ll remember you

They’ll tell me who you were

Maybe the most important one

I’ll tell them you are important

You are one for me

 

You tell me the world

You tell me how you see

And I’m seeing it too with my eyes

One day I’ll see with my two

 

One day you’ll enter through that picture

To see me

And I’ll see you through that morning light

 

And then I’ll know what was good

Writing all those years

Writing alone in that one room of yours

 

No quarto dela, para onde ela sai para o mundo, foi onde eu a fui encontrar e parar na cabeça dela. Parar para que façam sentido todos esses sonhos meus. Parar para que a vida seja mais real. A vida pode ser mais real? Se só foi às vezes até agora… Algo alguma vez muda? Existe movimento?

Eu a vejo com seus pulsos firmes e um branco que salta aos olhos. Ela parece um rosto tirado de uma fotografia antiga, das primeiras fotografias, em que a mistura de imagem difusa e nítida na mesma imagem faz com que a perspectiva tome mais vida, que o pescoço dela pareça sair da foto, que a testa pareça mais afundada nela. Foi assim que eu a conheci e não de outro jeito.

E no entanto ela não fala comigo, não me vê, eu não a conheço, e no entanto ela fala comigo, fala através de mim, fala como o estranho que passa e diz a palavra que faltava no teu monólogo, mas sem olhar para você.

Não, eu sinto que ela não me conhece, que ela não é das minhas. Não é minha mãe, nem poderia ser minha filha, não é minha irmã. Não luta, nem está sentada, não faz ambos. E no entanto ela está ali. E o que era ela?

Fazem sentido todas aquelas personagens, miríades e reflexos. Talvez dela mesma. Não dela mesma, do mistério que circunda a cabeça dela. Circundava? Não, o mistério ainda está aí. Eu estou vendo ele.

Se ela puxar mais um sentido, for o mártir que faltava, então o mundo vai desmoronar, mundo cartas de baralho, ela diz uma palavra e tudo vai desmoronar, porque ela não fala nada e no entanto fala, e assim é como se estivesse em silêncio.

De que adianta um exercício? Tentar circundar e cercar o mistério, não oferecer oferendas pois se conhece o deus, se a última palavra sempre falta, a última idéia sempre estabelece um limite, ao tentar completar o sonho cai-se num vazio impressionante e na boba tentativa. Eu devia aprender com ela. Eu devia. Um quarto vazio e dinheiro. Um quarto onde se pode ser um. Ela está ali escrevendo. Ela está ali.

Eu estou te olhando de longe, como os passos na minha areia. Eu não te ouço mais, nem vejo sua voz. Mas como eu queria hoje… Como eu queria que hoje fosse ontem e nós pudéssemos evitar todos os erros como quem vai pulando de pedra em pedra e corre o risco enorme de morrer, mas pular de pedra em pedra é tão simples que nós quase esquecemos o reflexo da morte na água abaixo.

Nós decidimos nadar. Não decidimos. Quando vimos a água já batia em nossas coxas e nós demos as mãos e sorrimos e entramos peito adentro, cabeça abaixo, na água.

E quão fria era no começo que eu nem via que as suas veias eram azuis, que o som da sinfonia nos meus ouvidos era o meu coração pulsando na atmosfera submarina. Quão fria era que eu me esqueci da minha vida. Da fragilidade terrível, constante e insuperável de todas as nossas vidas. E eu fui criança demais para pensar que eu poderia morrer. Criança demais pensando que talvez eu tinha mais umas cinco vidas para gastar.

E agora você está aí, tão longe de mim, e triste. E talvez não seja por mim, talvez você não sinta mais saudade. Talvez esteja triste pela vida, porque a vida é assim. E vai sentindo um sentimento de tristeza que vai vindo lá de dentro como um burburinho silencioso, como um pequeno redemoinho de água, que não cresce mas não cessa. Que não se transforma nem é tempestade, que não se transforma nem é passageiro. É o que os deprimidos gostam de chamar de melancolia. Eu o chamo de nascente.

O mistério de Perséfone e Hades

O mistério de Perséfone e Hades é maior do que o mistério da vida. Ele permeia a escuridão e o amor e todas as coisas desconhecidas através das quais o coração humano não pode criar. Então nós somos deixados aqui de fora para observar e nos perguntar como é que uma mulher que odeia um homem tanto assim pode permanecer eras ao seu lado de maneira que nós pensamos que através dos tempos infinitos juntos ela na verdade o ama e o ama com todo o seu coração.