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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Um recém-descoberto Joaquim

Não me senti nem um pouco à vontade de escrever sobre outro assunto senão o óbvio: a recepção, entre os gringos, daquele que muitos de nós consideramos o maior dos autores brasileiros. A opinião mais comum que encontrei também não é muito surpreendente: muitos críticos estrangeiros consideram Joaquim Maria Machado de Assis um gênio injustamente negligenciado da literatura mundial, ainda pouco explorado entre os leitores de línguas exóticas ao Português.

O centenário da morte do autor tem causado um tímido frisson no meio literário internacional, através de eventos na Europa e nas Américas e de artigos na imprensa. Uma matéria recente do jornal The New York Times (entitulada “Depois de um século, uma reputação literária finalmente floresce”) mostra como Machado passou, nos últimos anos, de uma figura periférica no mundo anglófono para um favorito e lançador de tendências na literatura, graças à influência de aclamados críticos e escritores, entre eles Susan Sontag, que o considera “o maior escritor que a América Latina já produziu”, ultrapassando inclusive Borges, e Harold Bloom, que o colocou como “o supremo artista literário negro” já visto até hoje, além de “um tipo de milagre”, dada sua origem social num meio de restrita tradição na criação literária. Bloom brinca dizendo que quando relê Tristram Shandy, “poderia jurar que [Laurence] Sterne havia lido Machado”.

Como sempre acontece na crítica literária que chega ao grande público, as comparações não param. Allen Ginsberg, na década de 60, o descreveu como “um outro Kafka” (confesso que minha curiosidade foi atiçada). Há poucas semanas, Philip Roth traçou paralelos entre Machado e Beckett, pois ambos são “irônicos quanto ao sofrimento”: “Em seus livros, nos momentos mais cômicos, ele destaca o sofrimento fazendo-nos rir.”

Gregory Rabassa é um dos grandes tradutores da obra de Machado de Assis para a língua inglesa e garante que traduzi-lo “foi muito divertido”. “Seu Português é fluente, fluido e clássico, provavelmente uma das melhores prosas em Português jamais realizadas. Mas ao mesmo tempo ele tinha uma sensibilidade que estava à frente de seu tempo, talvez mesmo à frente do nosso tempo; cético e nada idealista, de maneira alguma.” Um site de crítica literária alemão elogia Machado através de uma frase de Schopenhauer: “A tarefa do romancista não é narrar grandes acontecimentos, mas sim fazer dos pequenos interessantes.”

Mas com tantas qualidades, por que esse reconhecimento internacional demorou tanto? As justificativas vão desde más traduções feitas anteriormente até o fato, segundo Sontag, de que os escritos do autor provém da “periferia” da cultura ocidental, numa língua “injustamente considerada menor”. Ela mesma coloca, a respeito de Memórias Póstumas de Brás Cubas: ”Amar esse livro significa tornar-se menos provinciano”.

Uma resenha do jornal alemão Frankfurter Allgemeine, após adjetivos excessivamente bajuladores sobre esse mesmo livro, o coloca como “suave poeticamente, mas ainda de uma dureza niilista e uma sincera acidez ironicamente distanciada”. O jornal diz que só não insinua uma influência de Machado em Nietzsche porque “apenas pouquíssimos intelectuais europeus por volta de 1880 chegaram a conhecer o profeta.”

Casa de las Américas promoveu no fim de agosto um congresso com a sugestão de ir além das triviais comemorações e homenagens, trazendo uma questão interessante: “É possível, a esta altura, propôr novas perguntas sobre a obra de Machado de Assis?” Não sei a resposta oficial do evento, porém arrisco-me a afirmar que se uma obra cujo tema humano transcende as fronteiras de seu próprio cenário possui um alcance mundial no conjunto de seus leitores e críticos, nada é mais evidente que sempre surgirem novas abordagens a respeito dela.

O receio que surge, conforme manifestou Antônio Gonçalves Filho num simpósio em São Paulo, é que os entusiastas estrangeiros, principalmente nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, “estão fazendo Machado parecer cada vez menos com Machado”, já que estranhamente “do nada, ele se tornou ‘universal’”.

Seja como for, o interesse, súbito ou não, da crítica internacional sobre Machado de Assis, além de massagear o ego dos brasileiros, pode trazer outras vantagens, como chamar a atenção para outros grandes autores de nosso país e da língua portuguesa. Pelo menos alguém mais se interessaria por nossa literatura, além de uns poucos letrados em nosso próprio país. Será, querido leitor, que seu vizinho ou seus pais sabem o que está sendo comemorado este mês dentro da literatura?

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Um persa perfeito

Na década de 70, o Brasil viu o poema “Rosa de Hiroxima”, de Vinícius de Morais, ser belamente transformado em música pelo grupo Secos e Molhados. Mais tarde, no fim dos anos 90, a banda Legião Urbana tomou versos inteiros de um soneto de Camões para compor “Monte Castelo”. Exemplos de poemas convertidos em canções não faltam mundo afora. Pois há no Irã desde 1999 uma banda underground de rock chamada O-Hum que gravou todas as suas faixas inspiradas nos poemas de um grande poeta persa do século XIV, Hafiz-e Shirazi, chamado simplesmente como Hafiz ou Hafez.

Para quem vive no lado ocidental do planeta, em que só ouvimos falar do Irã quando Bush tem mais uma de suas crises histéricas de inimigos invisíveis, o fato de haver lá uma banda alternativa de um estilo como o rock pode ser tão surpreendente quando o próprio leitmotiv de Hafez em sua obra: a embriaguez de vinho como estado supremo do sentimento de amor.

“Amada, o vinho é de boa vindima: bebe-o sem demora, goza da hora propícia. Mais tarde, dizes tu… Mas quem pode contar com outra Primavera?”

A leitura dos gazéis e do rubaiyat de Hafez nos remete ao Arcadismo, com suas cenas em lugares amenos, a fixação por uma mulher amada e a insistência numa espécie de carpe diem, de preferência bebendo vinho. As situações, entretanto, são tipicamente persas:

“Não me censures o haver trocado a mesquita pela taberna: o sermão era longo e o tempo fugia”

Alguns trechos lembram também, em contrapartida, aspectos do Romantismo, por seu lirismo exacerbado ao referir-se à amada:

“Amar-te – eis o destino escrito em minha fronte. O pó do limiar de tua porta é o meu paraíso; teu radioso semblante, a minha alegria; teu prazer, o meu repouso.”

Engana-se quem pensa de imediato que o poeta era contra o islamismo ou que por ele não se interessasse: Hafez não seu nome de nascença, mas sim é uma palavra em Persa que indica aquele que é perfeito, porque leu e compreendeu perfeitamente as palavras do Corão, a ponto de citá-las de cor. Um homem que conseguisse esse feitio obtinha o título “Hafez”. Esse poeta, entretanto, tendia mais para a interpretação mística da palavra divina e criticava a rigidez das regras do islamismo ortodoxo, no qual inclusive o vinho era proibido. Depois de começar trabalhando como padeiro, passou por situações de protegido e perseguido por diferentes governantes de sua região – passou por dois exílios, um quando foi expulso e outro por desejo próprio.

A maior parte da obra de Hafez foi escrita sob a forma de gazéis. Um gazel é uma tradicional estrutura poética persa composta por cinco ou mais estrofes, cada uma formada por um par de versos de igual medida, sendo que o segundo verso de cada estrofe rima com os dois versos da primeira estrofe (o esquema de rimas é, portanto: AA BA CA DA …). Hafez deixou ainda uma considerável herança literária em seu rubaiyat, ou seja, um conjunto de rubais. Cada rubai é composto por quatro versos de rimas no esquema AAAA ou AABA. O mais famoso rubaiyat é o de Omar Khayyam, outro famoso poeta persa, traduzido pela primeira vez para o Inglês por Edward Fitzgerald, em 1859, em The Rubaiyat of Omar Khayyam.

Quem primeiro introduziu Hafez no mundo ocidental foi Goethe, que se inspirou nos gazéis do poeta persa pra criar os seus próprios na obra West-östlicher Divan, de 1819. No Brasil, Aurélio Buarque de Holanda foi responsável por apresentar Hafez, através das traduções “Os Gazéis de Hafiz” e “Vinho, vida e amor – Os Rubaiyat de Hafiz e Saadi”, obtidas a partir das versões francesas feitas por Charles Devilliers. Essas traduções, contudo, não se apresentam no formato original de gazéis e rubais; sequer está metrificado ou com o esquema correto de rimas, portanto, muito distante do belo efeito que deve ser proporcionado na língua original.

Hafiz utilizava constantemente as figuras da Rosa, simbolizando sua amada, dona de beleza inigualável e invejada pelas outras flores, e do Rouxinol, refereciando a própria figura do poeta que canta seu sofrimento. Seu túmulo, em Shiraz, no Irã, está repleto de rosas e do canto de rouxinóis, sob a sombra fresca de um cipreste, eternizando o espírito do perfeito poeta persa.

Referências

HAFIZ. Os Gazéis; traduzido por Aurélio Buarque de Holanda, Livraria José Oympio Editora, Rio de Janeiro, 1944.

HAFIZ & SAADI. Vinho, vida e amor; traduzido por Aurélio Buarque de Holanda, Livraria José Oympio Editora, Rio de Janeiro, 1946.

http://de.wikipedia.org/wiki/Hafes

http://en.wikipedia.org/wiki/Hafez

http://www.hafizonlove.com/

Afroépicos

Das gregras Odisséia e Ilíada já ouvimos falar bastante, bem como da posterior e ainda antiqüíssima romana Eneida. As indianas Mahābhārata e Ramayana são menos famosas, entretanto vez ou outra são comentadas. As recentes velhas histórias que agora procuram se encaixar na estante empoeirada entre as ancestrais epopéias são as africanas Pui e Dausi, cantadas pelos griots, seus aedos de ébano.

Todas têm em comum o fato de se originarem de uma tradição oral. São histórias que passaram de geração a geração, incorporadas de carga cultural e função educativa e moldadas constantemente até serem transplantadas para a forma escrita. Se para Walter Benjamin o verdadeiro narrador acabou com a introdução da literatura escrita, talvez ele ficasse feliz em saber que diversas regiões do mundo ainda dispõem de tradicionais contadores de história. Até recentemente, a África era um desses lugares, devido a sua alta taxa de analfabetismo – fruto da ausência histórica de uma técnica ou um sistema local de escrita somada ao secular, quase milenar, julgo imposto ali pelas nações “civilizadas”. Dentre os poucos alfabetizados, a maioria o era em línguas européias, empurradas úvula abaixo. Pouquíssimos eram os letrados nos próprios idiomas africanos, notadamente os subsaarianos, dado que o Árabe do norte do continente tem sua origem no Oriente Médio.

Assim, a transmissão dessas epopéias continuou ainda por muito tempo sendo feita de forma oral, à moda da história antiga. Curiosamente (ou talvez obviamente), não foram africanos os pesquisadores que descobriram essas obras e iniciaram o processo de seu registro impresso para divulgá-lo ao mundo. Os precursores foram dois etnólogos africanistas alemães – Leo Frobenius (1873-1938), que traduziu as epopéias para o Alemão, e Hermann Baumann (1902-1972), que montou uma coleção com cerca de 2500 lendas e mitos africanos – e um britânico – Robert Sutherland Rattray (1881-1938), especializado na cultura da etnia Ashanti, que se encontra em Gana.

Foi um trabalho nada fácil, afinal de contas são muitas línguas e inúmeros dialetos falados em toda a área pesquisada por eles. Além disso, principalmente para Baumann, interesses políticos tumultuaram seus trabalhos, pois o partido nacional-socialista alemão pretendia fortemente utilizar seus estudos étnicos para utilizá-los numa possível política neocolonial – mas isso é assunto que vai além do que se pretende apresentar aqui.

No caso das epopéias, o principal trabalho foi feito por Frobenius (hoje nome de um instituto de pesquisas etnológicas em Frankfurt). Realizou diversas expedições pela África com o apoio de missionários, com os quais a duras penas se comunicava. Ele próprio não falava nenhuma língua africana. Deixava os habitantes dos vilarejos narrarem suas histórias a guias locais, que as traduziam para Inglês ou Francês. A partir dessas anotações, fez a tradução para o Alemão tanto de Pui, como de Dausi, que, junto de outros diversos contos e canções, servem de interesse primordial para os estudos etnográficos acerca da região.

Pui e Dausi foram originalmente transcritos na língua Soninke, difundida na região do Sahel, na parte ocidental da África. Pui é um conjunto de canções heróicas e divide-se em um total de doze partes, das quais apenas oito são ainda conhecidas. Não há uma dependência direta entre os enredos de cada parte, porém tratam geralmente de heróis, reis, príncipes e princesas, que defendem a terra através de guerras.

Dausi são poemas épicos cantados por bardos. A parte principal possui 150 versos, sem uma metrificação regular. Trata-se de um poema sobre um reino sonike chamado Wagadu, cuja capital Kumbi seria antigamente também a do legendário Reino de Gana. Quem canta os poemas é um filho do rei. O reino cai por terra; um outro filho do rei, com a ajuda de um tambor mágico, uma hiena e um abutre, constrói uma nova cidade, que será a capital Kumbi, numa região pertencente a uma serpente, que faz a terra rica através de sua chuva de ouro. Para isso, no entanto, ela exige que todo ano uma virgem seja sacrificada. Contudo, o amado de uma virgem a ser oferecida como próximo sacrifício revolta-se e mata a serpente. Por isso, Wagadu cai e a moça morre e tudo se perde. É interessante notar que existem aí elementos típicos dos poemas épicos (como uma serpente no papel de uma espécie de deus, que só ajuda a quem o teme, e o inconformismo de um indivíduo com o destino de sua amada, que o faz romper com seu “deus”), porém com uma pitada de tragédia, sem, todavia, aparecer por fim a redenção proveniente da catarse. Fica a reflexão: como tradições orais tão distantes geograficamente poderiam apresentar esses aspectos em comum? Haveria alguma influência da cultura européia nessas epopéias tão tardiamente descobertas? Ou trata-se simplesmente de um desenvolvimento natural da cultura humana, independente de raças?

Seja como for, por sua dedicação aos estudos africanísticos e por considerar as culturas da África e da Europa igualmente valorosas, Frobenius influenciou uma geração de intelectuais africanos. Segundo o poeta e ex-presidente senegalês Léopold Senghor, um dos fundadores do movimento Négritude (que defendia o rompimento com a Europa e a retomada da tradição cultural africana – le “retour aux sources!” ), Frobenius “devolveu à África sua dignidade e sua identidade”. Situação bem curiosa essa.

Referências

CONRAD, David C. & FISHER, Humphrey J. The Conquest That Never Was: Ghana and the Almoravids, 1076. II. The Local Oral Sources in History in Africa, Vol. 10, New Brunswick, 1983.

FROBENIUS, Leo. Atlantis VI: Spielmannsgeschichten der Sahel, Jena, 1921.

FROBENIUS, Leo & FOX, Douglas C. A gênese africana : contos, mitos e lendas da África, tradução de Dinah de Abreu Azevedo, Landy, São Paulo, 2005.

SEIDLER, Christoph. Wissenschaftsgeschichte nach der NS–Zeit: das Beispiel der Ethnologie, Magisterarbeit, Freiburg, 2003

http://de.wikipedia.org/wiki/Afrikanische_Literatur

Escrever hoje

Viver da literatura é o sonho de muita gente. Por muito tempo tem sido assim. O anseio de emocionar ou influenciar pessoas através da arte das palavras encontra candidatos em todo canto. Poucos conseguem fazer-se notar e, ainda assim, a custo de muito esforço pessoal. Não só manter um trabalho paralelo à de escritor para conseguir pagar as contas, mas também se encaixar num padrão literário predominante no mercado.

Esse é o tema destacado na edição de janeiro deste ano da revista alemã Literaturen, publicação mensal da Editora Friedrich Berlin sobre livros e temas relacionados “às literaturas”.

Segundo a reportagem, a situação da literatura alemã não é das piores. Depois de um período de relativa decadência, hoje ela se fortalece, ao receber, durante o ano de 2007, grande atenção da mídia e diversos eventos de discussão acerca dela. E há muito tempo não se vendia tantos livros como no ano passado. Naturalmente Mrs. Rowling encabeça as listas de mais vendidos, com seu fenômeno mundial Harry Porter; entretanto, diversos autores alemães e austríacos aparecem na seqüência. A cena editorial de hoje, após um período de vicissitudes, desânimo e crises existenciais, ganha novo impulso, haja vista a quantidade de pequenas editoras independentes recentemente fundadas.

Mesmo assim, há dúvidas quanto à fidelidade do reflexo desse panorama sobre a real situação da literatura de língua alemã. O público está sobrecarregado: em 2007, aproximadamente 95 mil novos títulos foram lançados. Isso é muito mais do que os alemães querem ler. Tamanha quantidade ninguém quer, precisa, nem pode assimilar. E a maioria deles se mostra verdadeiramente desnecessária. O resultado disso é que os livros tornam-se obsoletos muito cedo, pois acabam ficando muito pouco tempo à venda: um livro que não chama a atenção do público em até seis semanas está fadado à morte. E para não se afogar no excesso de publicações, os leitores fazem uma pré-seleção recorrendo ao método das listagens, ou seja, listas de mais vendidos, listas pseudocanônicas de melhores livros de algum período ou espécie, ou anúncios em jornais e revistas. Perdem as pequenas editoras e seus autores.

Dessa maneira, a linha-mestre das editoras é proibir obras experimentais. Os estatutos de prêmios afirmam equivocadamente eleger um “melhor romance do ano”, quando na verdade escolhem aquele que mais se encaixa às seguintes qualidades: ser capaz de entreter, amigável ao leitor, de fácil leitura, de simplicidade lingüística e complacência formal, sem grandes pretensões estilísticas, com trama conexa – de preferência proveniente do ambiente da classe média – e com montagem popular e clara (romances familiares, de gerações ou de relacionamentos). Enfim, com um risco estético mínimo, o que garante maiores vendas. Assim, os temas e textos dos autores contemporâneos tornam-se cada vez mais similares e substituíveis. Tendem ao mesmo estilo e a mesma forma, ou seja, predomina a monotonia na produção literária.

Além de outros fatores, como estratégia de marketing e criação de modas temáticas literárias – vide a recente Ostalgie alemã, ou seja, a nostalgia pela Alemanha Oriental, e a febre em torno de O Código da Vinci de Dan Brown e seus demasiados desdobramentos -, os autores precisam ainda passar por uma sabatina de exposição de sua imagem ao público, através de aparições não só em palestras, conferências e tardes de autógrafos, como também em programas de televisão, com a obrigação de mostrar competência para discorrer com opiniões surpreendentes sobre assuntos de diversas áreas, além de esporadicamente escrever ensaios e outros discursos na mídia.

Essa necessidade de atividades paralelas à escrita em si fica evidente nos depoimentos dados por alguns autores alemães que estão em evidência. “Ser escritor não é profissão para o ganha-pão. Os iniciantes não sabem disso, autores de bestsellers não querem aceitar isso e os coelhos velhos notam isso tarde demais”, comenta o escritor Bodo Kirchhoff. Ele também acha que alguém que “não se entrega completamente à leitura, pois basicamente queria fazer outra coisa bem diferente (assistir TV, sair, brincar), que vê em um romance apenas uma solução para o tédio ou para coisas como distúrbios sexuais ou fins de relacionamento, para quem não faz sentido a sonoridade de uma frase ou o drama dos detalhes, (…) deveria largar o livro e não comprar mais nenhum”, pois essa pessoa “está perdida como leitor e pertence ao número crescente daqueles que procuram apenas por livros sobre coisas de televisão e por autores simpáticos”.

Esse comentário de Kirchhoff evidencia a questão do papel da literatura em nosso mundo. Ela tem mesmo uma função social ou serve apenas de fetiche cultural a uns poucos intelectualmente avantajados? Parece-me um tanto paradoxal exigir que a profissão de escritor receba mais prestígio quando o próprio profissional distancia-se de grande parte do público leitor. Por outro lado, é difícil compreender como a uma grande parte dos leitores pode agradar tanto ler coisas que poderia encontrar mais facilmente em novelas ou nos enlatados hollywoodianos. Nada exatamente contra ler um livro fácil por diversão de vez em quando, mas o que se vê é o predomínio da informação digerida sobre o pensamento e o raciocínio próprios.

No fim das contas, o escritor hoje deve optar entre viver da literatura escrevendo o que se considera de pobreza literária ou manter-se com outro ganha-pão para continuar escrevendo por prazer para um público restrito. Conseguir tudo é mais complicado. Mas há até quem ganhe na loteria.

Referência:

LÖFFLER, S.; KIRCHHOFF, B. Schreiben jetzt. Literaturen, Berlin, ano 9, Janeiro/Fevereiro, p. 4-33, 2008.

Na Gringa

Tão importante quanto entender a situação do próprio país é saber o que se passa no exterior. Isso vale não só para o planejamento estratégico, como também para qualquer área de conhecimento. E a Literatura não se exclui.

Esta coluna se propõe a servir de antena para transmitir aos leitores brasileiros o que vem sendo recentemente discutido pela crítica literária estrangeira e veiculado nos meios de comunicação de outras nações. Como eles se vêem, o que enxergam uns nos outros, quais os problemas, anseios e destaques da atualidade e – por que não? – que tipo de interesse a Literatura Brasileira poderia despertar lá fora.

Não é uma questão de procurar jardins mais bonitos na vizinhança, mas sim comparar pontos de vista, verificar influências históricas ou contemporâneas, identificar assuntos em comum e quiçá suscitar o interesse em possíveis colaborações internacionais. Nada mais pertinente, já que estamos todos no mesmo bonde da globalização – seja essa viagem voluntária, acidental ou compulsória.

Vamos, entón, botar a olho no gringa!