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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Mais uma noite.

– Não precisa ir.

Estava cansada de dormir sozinha. Várias pessoas haviam passado por sua cama. Nenhuma ficou até o café da manhã. E ela gostava disso. Mas ela estava cansada. Procurou alguém para ficar. Ele não se importava com ela, mas mesmo assim ficou.

– Me ajuda a parar de sonhar?

Parecia decidida. Não queria mais aquelas bobagens na cabeça. Perda de tempo. E o tempo não perdoa, não volta. Corre atrás daqueles que não sabem aproveitar. Era o que dizia, enquanto lembrava de quando tinha dezenove anos. Os anos passaram, mas deixaram um corpo pesado para ser carregado por ela. Era cheio de cicatrizes. A do joelho era especial. Conquistou depois de uma trepada com alguém de quem mal se lembra. Não se conheceram. Nas costas, a borboleta. Mordida, beijada, arranhada. Surrada. Queria tirar. Achava brega. Já não combinava mais com ela. Talvez ainda combinasse com seus sonhos, aqueles sonhos bobos que não conseguia parar de ter. Sonho de menina, que não era mais.

– Você não quer tomar um banho? Não consigo dormir com esse cheiro de sexo. Vai um pouquinho mais pra lá. Não precisa me abraçar. Eu gosto de espaço.

Abriu a carteira. Tirou o dinheiro. Fechou a porta. Só então dormiu. Sozinha.

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A porta está aberta, pode entrar.

Sinto vontade, mas ainda não é a hora. Espero, resisto… desisto. Me entrego. É tarde. O tempo – aquele tempo, aquele instante preciso – passou. Me irrito. Apaga essa luz! Limparam as sombras. Silêncio. De repente, as idéias surgem. Todas aquelas que já passaram antes e se perderam por falta de atenção, da minha atenção. Voltem outra hora. Agora não. Não quero pensar. Elas insistem em ficar. Sabem que agora não tenho desculpas nem distrações. Não contentes em aparecer sem convite, elas se espalham, conversam, tiram tudo do lugar; e eu não consigo fazer parar. Outra vez, silêncio. Será que elas foram embora? Melhor não procurar. As sombras voltaram. Encontraram um lugar na parede. Agora olham pra mim. Desvio o olhar, finjo que não vejo. Confiantes, as idéias voltam. Eu quase consegui mandá-las embora. Agora não dá mais. Sento, tomo um café. Amanhã? Preciso ir ao banco, meu saldo já está negativo. Se eu conseguisse um emprego melhor, chegaria no fim do mês com dinheiro na conta. Odeio fazer contas. Mais dois dias para o fim da semana, menos um número na minha calça. Quantas vezes eu esqueço o que estava fazendo? Lembrei. Estava pensando no dia que eu parei, e não fui trabalhar. Parei na praça, e sentei. Pessoas andavam com pressa, um cachorro de perna quebrada estava perdido, uma criança, encolhida num canto, segurava um vidrinho de cola, esperando que fosse notada por alguém, o guarda tentava ordenar o trânsito caótico, mas não conseguia evitar aquelas buzinas anasaladas. Eu parei para olhar, depois, parei de olhar. Foi assim mesmo que aconteceu? As imagens já não estão mais tão nítidas. Não sei o que é realidade e o que é invenção. De novo aquelas vozes, ainda não foram embora. Estão mais calmas, acho que cansaram. Falam baixinho, bem devagar. Pensam bastante antes de continuar. Agora falam no mesmo tom. Silêncio. As sombras saíram da parede. As idéias se calaram. Foram todos embora, sem me acordar, e eu nem me despedi.

Insônia

Todos os dias, escondida, eu esperava sua chegada. Ela também esperava… que eu me distraísse, só por um segundo, e então chegava, sem um oi, sem beijo no rosto, sem nem acenar com a cabeça, e do mesmo jeito partia, me deixando escondida e frustrada. Claro que ela não se importava com aquilo! Toda vaidosa, mandava mensagens para me avisar, só a mim, de que estava por perto, e eu logo entendia o sinal, mas de tanta ansiedade, fechava os olhos.

Algumas vezes ela se descuidava, e eu podia ouvir uns passos abafados, e sentir aquele cheiro só dela, que me envolvia ainda mais, e me fazia esquecer aqueles encontros proibidos. Foi minha culpa. Sem querer – talvez por cansaço, ou por excesso de desejo – eu abri os olhos pela primeira vez, e vi aquela imagem que ainda tento esquecer. Os jogos acabaram. A moça cheirosa do saltinho fino não estava mais lá; trocou de turno. A suplente não usava salto, nem mandava mensagens, e não me provocava fascínio algum.

Eu perdi a vontade de me esconder. A suplente, indignada com o meu descaso, também parou de chegar. Eu não gostava dela, mas ficava feliz em saber que alguém estava lá. Mais ninguém chegou. Agora eu passo as noites sozinha, esperando a moça chegar. Ela levou meus desejos, meus prazeres, meu descanso. Ela tirou meu sono. Ela tem que voltar!