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Sobre alguns elementos para a construção da imagem feminina em A Malvada

 

Eve Harrington, por tanto insistir, conhece Margo Channing, estrela teatral, e, após a ter comovido com uma falsa história de sua vida, passa a trabalhar para ela fazendo-se então, nas palavras de Margo, de sua “irmã, advogada, mãe, amiga, psiquiatra e polícia”. É importante, neste momento, trazer o conceito da femme fatale – Eve é o que não parece ser, e nisto se sustenta o seu plano – aproximar-se e estudar Margo para tornar-se uma atriz de sucesso, uma estrela. Entretanto, sua excessiva demonstração de dedicação fez com que a Sra. Birdie, amiga e camareira de Margo, suspeitasse: havia percebido em Eve algo de estranho. Um enigma que seria revelado e desmascarado (ao público) por Addison DeWitt. Eve, portanto, é, na conceituação de Mary Ann Doane, um grande exemplo de uma “figura de certa intranqüilidade discursiva, um trauma epistemológico em potencial”[1]. É um personagem muito mais complexo do que sugere a tradução do título no português do Brasil, “A Malvada”. O que ela faz com Margo não se trata tanto de maldade, afinal, seu objetivo não é destrui-la, mas sim se aproveitar do que ela é e sabe para poder demonstrar seu potencial como atriz. Uma poderosa ambição, em que Eve não mede esforços para atingir seu objetivo.

 

*

 

O viver o que não é, uma ilusão, percorre a trama de A Malvada até o final do filme. É Eve querendo ser Margo, é Phoebe querendo ser Eve – várias vezes elas fingem a si e acreditam nessa ilusão, é a ilusão compondo a fantasia da mulher. Este aspecto não só ocorre em A Malvada; Em O que terá acontecido a Baby Jane?, de Robert Aldrich, temos uma atriz já velha que queria voltar à infância, voltar ao sucesso que era na infância e se perdeu. Jane então vestia-se como a menina que havia sido e fingia reviver o tempo áureo da infância. Pode-se então traçar um paralelo com Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder, em que uma atriz praticamente esquecida também queria voltar ao sucesso que era quando atuava em filmes mudos. Investiu num roteirista para escrever um filme pra ela, iludiu-se com a idéia de voltar à fama, o que não conseguiu. A ilusão não é só na área profissional, mas também no amor. Um grande exemplo é Noites de Cabíria, de Fellini, em que Cabíria queria deixar de ser prostituta e vivenciar um verdadeiro amor, mas o interesse dos homens nela era usá-la sexualmente e/ou roubar seu dinheiro. Outro exemplo marcante é Madame Bovary, seja a versão de Chabrol ou a de Minelli, em que Emma, influenciada por toda uma literatura romântica, queria se aventurar e viver um amor envolvente.

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O enigma é outro elemento utilizado na construção da imagem feminina em A Malvada. A atriz Anne Baxter soube compor essa característica na sua personagem, e trabalha sobretudo os olhares para transmitir a idéia de que existe algo oculto em Eve. Uma cena, como exemplo, é quando Bill, antes de partir para Hollywood, despede-se de Margo com um beijo. No canto da tela está Eve, despistando seu olhar, olhando pro chão – algum tempo depois ela tentaria seduzir este homem, sem sucesso. Outras pistas para desconstruir este enigma também são utilizadas, como o figurino. No começo do filme, Eve usa uma roupa que era de Margo; outra cena é quando Eve pega o figurino de Margo para guardá-lo, mas brinca com ele no palco.

 

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O corpo das mulheres é sempre explorado. Logo no começo de A Malvada temos um close-up das mãos de Eve Harrington – mão belas, mãos jovens, mãos que manipularam acontecimentos e fizeram com que ela se tornasse uma atriz premiada. Temos também o rosto de Margo, que através das precisas expressões faciais, soube traduzir uma série de emoções. Este recurso obviamente ocorre em outros filmes – devemos dar destaque a exploração do pescoço de Greta Garbo, em A Dama das Camélias, de George Cukor. Essa decomposição em partes é principalmente amostra de uma visão masculina sobre a mulher, aquela que a esmiuça buscando satisfazer a sua fantasia.

 

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Usar o close-up nas mãos de Eve traz à luz, por simbologia, a idéia de virtù, conceito desenvolvido por Maquiavel e perfeitamente aplicável no filme que é exposto aqui. Aquele que possui a virtù tem o poder de efetuar mudanças e controlar eventos, assim podendo alcançar seus objetivos mais ambiciosos. É quem faz acontecer. É aquele que não depende da Fortuna, ou seja, acaso, curso natural dos fatos. Têm-se então dois extremos: o da Virtù e o da Fortuna. Aquele que tem virtù sabe aproveitar muito bem a ocasião, e Eve não só a sabe, como também a cria. Sem essas oportunidades, Eve não alcançaria seu desejo. Como a soube aproveitar, rendeu-lhe conseqüentemente o grande Prêmio Sarah Siddons. E além de tudo, no meio teatral, prevaleceu uma imagem diferente da que era de se esperar – antes de receber o prêmio, sabe-se pelo discurso do apresentador do Prêmio o que as pessoas envolvidas com teatro pensam sobre Eve:

 

Este prêmio nunca foi concedido a alguém mais jovem. Nada mais apropriado que passe das minhas mãos às dela. Mãos tão jovens, tão jovem mulher. Jovem em anos, mas dona de um coração tão velho quanto o teatro. Alguns aqui têm o privilégio de conhecê-la. Vimos além da beleza e do senso artístico que fez seu nome ecoar em toda a nação. Conhecemos sua humildade, sua devoção, sua lealdade para com a arte, seu amor profundo e incondicional para conosco, para com o que somos e fazemos: o teatro. Ela tinha um único desejo, um anseio, um sonho: pertencer a nós. Hoje, seu sonho tornou-se realidade, e, de agora em diante, seu sonho será nosso sonho.

 

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Como contraponto Margo x Eve não se pode deixar de mencionar a diferença de idades entre as duas, cerca de vinte anos, e o quanto isto é explorado no filme, no pensamento de suas personagens, principalmente Margo. Margo muitas vezes temeu perder papéis e até seu companheiro, já que era consideravelmente mais velha que Eve. A importância da idade é sempre questão marcante na representação da imagem feminina, basta ver a influência que esta faz na trama, como se dá em Contos de Outono, de Rohmer e, no caso de atração masculina por mulher mais jovem, O Anjo Azul, de Josef von Sternberg, Beleza Americana, de Sam Mendes, e tantos outros. Inúmeras vezes Margo cede a Eve frente à diferença de idades e perde a compostura.

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Margo é considerada uma grande estrela do teatro. Como se por saber disso, acha-se no direito de atrasar a ensaios, de fazer o que bem quer, de mandar e desmandar, como se o centro do mundo fosse ela. Vale destacar a importância de Bette Davis, atriz que interpretou Margo, e que soube transparecer em seu personagem toda uma série de emoções, raiva, desprezo, ciúmes, amor, paixão, humor, muitas vezes ao mesmo tempo.  Essa conturbação em sua vida acabou por favorecer os planos de Eve. Margo, por um atraso sem justificativas relevantes, perdeu para Eve a leitura de uma peça; Eve, como sua substituta, roubou-lhe por um dia a apresentação da peça – voltando à virtù, Eve soube aproveitar essas oportunidades e demonstrou toda sua capacidade como atriz.

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O diretor Joseph L. Mankiewicz também utiliza recursos técnicos para reforçar os elementos da construção da imagem feminina no seu filme. Logo de início temos um close-up no prêmio Sarah Siddons. Com este close-up, o prêmio deixa de ser um prêmio qualquer, e passa a representar também o alvo do desejo das atrizes, portanto toda uma ambição.

Há também determinado momento em que a câmera pára e fica a fotografia de Eve a receber o prêmio. É curioso que próximo ao prêmio, na parede ao fundo, tem uma arma que está apontada na direção do peito da moça, como se o prêmio não fosse só a valorização de um mérito, mas renderia também problemas a ela. A cena final, em que Phoebe veste-se como Eve, segura o prêmio e vai se admirar em frente a um espelho, é muito interessante também. Cria-se a imagem de muitas Phoebes, ou seja, há a sugestão de que existem inúmeras garotas como ela, que fazem qualquer coisa para chegar à fama.

 

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Mankiewicz escreveu e dirigiu A Malvada e foi capaz de inserir em cada personagem feminino sua unicidade. Não se tem estereótipos; através dessa unicidade, explorou os conflitos que surgiram de diferentes personalidades, centralizado nas protagonistas Margo e Eve. Além disso, utilizou uma série de recursos técnicos, do figurino à fotografia, para fortalecer a imagem que pretendia passar. Na discussão entre Margo e Bill no início da festa de boas-vindas e aniversário deste último, Margo defende veementemente sua singularidade – não quer ninguém imitando-a, principalmente Eve, que a estuda como uma peça, como diz a própria Margo. A tensão e choques gerados na relação entre as personagens femininas são favorecidas pelas peculiaridades que enriquecem cada mulher de A Malvada.

 

 


[1]              Citação presente em MULVEY, Laura, “Cinema e Sexualidade” in XAVIER, Ismail, O Cinema no Século, Rio de Janeiro, RJ: Editora Imago, 1996, pp. 133-4

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II

 

 

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Eu estava na seção infantil da locadora PhD buscando o filme sobre os Irmãos Grimm, quando lá vi Oliver Twist, de Roman Polanski. A princípio achei estranho, pois pensava que era um drama; peguei o dvd e vi as informações: drama, inadequado para menores de 14 anos. É evidente que essas informações são discutíveis, mas o fato é curioso. Também estão presentes nos contos dos Grimm elementos como morte e violência, e o mesmo tom sombrio que permeia Oliver Twist, entretanto, o primeiro é considerado literatura infantil e o segundo inadequado para menores de 14 anos. Temos um bom ponto de partida para começar a refletir o que faz de uma obra artística infantil, ou proibida para crianças, ou ainda se tal rótulo é absolutamente dispensável.

 

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Durante os créditos iniciais vemos no fundo uma imagem em preto e branco. Quando os créditos chegam ao fim e os personagens começam a se movimentar, a imagem começa a se colorir lentamente – parece que a história está saindo do livro e se transformando em filme.

 

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No filme Oliver Twist, em alguns momentos a câmera pára e podemos apreciar a fotografia do filme. A disposição dos objetos e atores no cenário, o figurino e a iluminação enriquecem e contribuem para a criação de todo um clima. É importante observar o quanto as cores são trabalhadas – criam uma beleza tamanha que fica difícil tirar os olhos da tela.

 

 

 

 

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A pouca movimentação de câmera até nas cenas de maior ação é intrigante. Parece um narrador que observa a trajetória do protagonista com grande distanciamento. Ou grande atenção.

 

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Penso que é nesse cuidado com a imagem que os bons ilustradores de livros se preocupam. Uma ilustração pode tanto contribuir com o clima da história quanto atrapalhar a imaginação do leitor. Eis um livro publicado várias vezes: Alice no País das Maravilhas.  Abaixo, três Alice:

 

 Arthur Rackham              John Tenniel

Arthur Rackham                             John Tenniel

 

Disney

Disney

 

Seria interessante ouvir as crianças opinando sobre qual delas gostou mais.

 

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O nome do cachorro de Bill é Bullseye. Fragmentando esse nome, temos: Bull´s eye. E é ao olhar o seu cachorro que Bill escorrega e morre enforcado.

 

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No começo do filme acompanhamos os eventos externos que indicam como o menino conhece e começa a viver com uma gangue de crianças que roubam, treinadas pelo velho Fagin. Cheguei a pensar se a sociedade e tais eventos anulariam a individualidade do menino. Mas não; Podemos ver que Oliver pensa por si próprio, tem consciência dos seus desejos e não aceita passiva e alienadamente a influência da sociedade sobre ele. Uma boa cena para exemplificar é aquela em que ele, a contra-gosto, é levado por Bill a roubar o homem que havia lhe oferecido uma vida melhor, o Sr. Brownlow. Por tentar protegê-lo, ao invés de roubá-lo, leva um tiro no braço, disparado por Bill.

 

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A admiração transmitida pelo olhar quando chega a Londres, as brincadeiras lúdicas com os meninos da gangue, a inocência e a rebeldia, entre outras tantas características, demonstram que Oliver não é tratado como o esteriótipo de criança abobada ou de adulto demais – equívocos fáceis de cometer na construção de uma personagem como essa. Apurar nosso olhar sobre a personagem infantil pode ser um bom caminho para desenvolver a primeira questão levantada aqui.

 

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Assistir a esse filme atiçou uma vontade grande de ler o livro de mesmo título, escrito por Charles Dickens, em meados do século XIX. Esse livro, o filme, e os outros livros citados neste post são as sugestões de hoje para que continuemos criando um maior repertório.

 

 

Um abraço.

 

I

Menos um rombo na minha formação – assisti Cinema Paradiso (1988), de Giuseppe Tornatore.

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A cabeça de um leão, por onde passa a projeção do filme, é um detalhe que chama a atenção. Parte fundamental e metafórica, acompanha a trajetória do seu todo, o Cinema Paradiso. No início, imponente. No fim, jogado no chão, a ruína.

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Num primeiro momento, o menino Salvatore sonha em trabalhar na cabine do cinema. Supera os obstáculos e consegue; num segundo momento, o jovem Salvatore sonha em namorar Helena. Supera os obstáculos e consegue; num terceiro momento, o adulto Salvatore é conquistado por todo um passado, e assiste, comovido, a um presente do seu grande amigo Alberto: uma montagem com cenas de beijo retiradas de vários filmes.

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O humor, a tristeza e a doçura fizeram vir como comparação imediata os filmes de Chaplin (vale notar que ele é homenageado com duas cenas de filmes seus). No filme O Garoto (1921) é notável o vínculo forte criado entre Carlitos e o menino. Os personagens têm características bastante diferentes, mas o vínculo criado entre Alberto e Salvatore é tão forte quanto.

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A doce melancolia e a volta ao passado fizeram-me associar o filme a um poema de Drummond. Aliás, vários poemas de Drummond voltam à infância, mas me refiro a Confidência do Itabirano, no qual o poeta relembra com saudade profunda a cidade em que viveu quando pequeno. A última cena de Cinema Paradiso, em que Salvatore assiste ao filme montado por seu amigo, tem efeito semelhante ao expressado nos dois últimos versos deste poema: “Itabira é apenas uma fotografia na parede. / Mas como dói!”

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Uma homenagem ao cinema. Um presente aos amantes de cinema.

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Para se aprofundar nessas simples impressões, sugiro:

paradiso1.jpg

Cinema Paradiso (1988), de Giuseppe Tornatore,

the_kid.jpg

O Garoto (1921) de Charles Chaplin,

sentimento-do-mundo.jpg

e também o livro de Drummond, Sentimento do Mundo (1940).

Um abraço.