• Veja também as capas anteriores!

  • Políticas do Ambidestria

    O Ambidestria todo está sob licença Creative Commons. Em caso de citação, não se esqueça de mencionar o nome do autor do post e o link direto para o post em questão. Não são permitidas alterações do texto.

    Veja mais detalhes na página de Políticas
  • Arquivo

  • Arquivo Especiais

    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
  • Acesso para autores

As delícias da literatura e da cachaça – parte 2

Dia 03/07, 15:00 horas – Lorenzo Mammi, Carlos Lyra

Um estudioso de música e um dos compostores da Bossa Nova.

Carlos Lyra contou como surgiu a Bossa Nova com um tom de voz bem saudosista e explicou que graças a Bossa Nova, surgiu a MPB. Foi uma audácia da juventude, um surto cultural surgido no mesmo período que o concretismo na poesia. A partir da influência do jazz, a forma e o conteúdo das músicas se fundiram e deram um tempero novo a música feita desde então, melodia e som começam a se articular.

Lorenzo Mammi discorreu sobre a estrutura clássica do jazz, explicou teoricamente a base comum em todo tipo de som composto nesse estilo musical e disse que a audácia no jazz se dá com as variações que cada músico faz, mantendo essa mesma base comum. Ainda fez paralelos entre a músicas de jazz americano e músicas da nossa MPB, mostrando que as letras se remetem, bem como alguns ritmos.

Uma mesa bem descontraída, quase nos lembrando de  um botequim, que  nos leva agora a outra mesa, que levou o nome de Conversa de Botequim.

Dia 03/07, 17:00 horas – Humberto Werneck, Chico Sá

Quantas conversas de boteco não geraram teorias geniais?

Essa mesa foi a mais descontraída e bem humorada de todas, em minha opinião. Gerou risadas deliciosas. Também, seria impossível ver o Xico Sá conversando com todas as suas sacadas muito despojadas e com as histórias que Humberto Werneck estava contando sobre Jayme Ovalle,  que foi recentemente bibliografado no livro O Santo Sujo.

Quem é Jayme Ovalle? Ele foi um grande amigo de Manuel Bandeira, também chegado nas luxúrias das bebidas e na vida boêmia e, digamos que pelo que ouvi rapidamente, um tanto quanto excêntrico, além de, a partir de sua vida bem exótica ter fornecido material temático para muitos poemas de Bandeira. Teve um macaquinho chamado James, que gerou uma balbúrdia na Inglaterra, viu um olho de vidro no seu copo de whisky, entrou numa farmácia para comprar seu deus alcóolizante uma única vez (sempre compravam para ele, pois ele era muito fechado), e nunca mais o fez, por achar uma coisa muito violenta o ambiente, com brigas e até tiroteio. E no outro dia foi-se saber que, na verdade, no fatídico dica que Jayme Ovalle resolveu comprar sua bebida estava ocorrendo um assalto na farmácia!

Não escreveu muito e compôs poucas músicas, mas forneceu histórias muito engraçadas e conversas sobre a teoria que depois até nosso Antonio Candido defendeu com unhas e dentes, e que Bandeira abraçou adicionando exemplos a cada uma das classes da gnomonia, que divide de forma genial os brasileiro em cinco classes (Parás, homenzinhos vindos do norte, Dantas, os nobres e modestos, Kernianos, os impulsivos, Mozarlescos, que passam uma imagem sobre si que não necessariamente corresponde ao real, e Onésimos. os que são como uma nuvem negra).

A conversa foi muito densa de histórias e piadas, que com a minha memória não consigo aprofundar! Deve ser culpa da bebida, porque acho que sou que nem Xico Sá: Bebo pra car**** e escrevo socialmente!

Interessantíssima uma conversa de botequim que falava sobre as conversas de botequim dos nossos modernistas. Até o Mário de Andrade apareceu no meio do caminho! (desculpem, mas essa referência do meio do caminho foi mais forte do que eu agora!)

Dia 03/07, 19:00 – Inês Pedrosa, Zöe Heller, Cíntia Moscovich

Essa mesa fechou com chave de ouro o clima de descontração desse dia.

Três escritoras polêmicas reunidas, rebatendo as perguntas do escritor português José Luiz Peixoto, que tentou se usar de um tema há muito considerado como batido: a literatura feminina.

Grandiosas foram as respostas, silenciaram o escritor, que algumas vezes ficava sem reação diante das mulheres. Todas em unissono mostravam que o fato de incluir um livro em algum tipo de literatura (feminina, homossexual masculina e feminina, negra, etc) podia ser visto como dizer que era uma má literatura, literatura é literatura, sem a distinção do que se trata, definições assim não muito passado. Da mesma forma que quando um homem escreve algo sobre o universo dele e é visto como um tema de assunto geral, a mulher escrevendo também merece essa visão, sem ser considerada como uma feminista ou ativista em alguma causa. Todos temos nosso universo, que não se desprende do universo comum.

O sexo é uma forma da mulher, através do gozo unido absorver as lágrimas do homem.

As delícias da literatura e da cachaça

Primeiro dia pós-FLIP e pós-Paraty: encantamentos com as palestras e as vontades de comprar muitos dos livros ainda permanecem, fígado se recuperando da degustação frenética de cachaças artesanais e a descoberta de uma nova paixão – a Gabriela, que leva cravo, canela, melaço e claro, a cachaça- cinco dias inesquecíveis.

Só é estranho escrever em prosa, não?

Mas a chefinha Lafloufa me ligou e pediu que eu escrevesse especialmente para o Ambidestria. E como ela é a Lafloufa-mãe-ambidestra e minha melhor-amiga/companheira-de-casa-e-de-curso, acho que não é um dever e sim um prazer fazer isso. (puxa-saquismo mode off agora)

Dia 02/07, 19 horas – Roberto Schwarcz

Fui basicamente para prestigiar esse velhinho ilustre e machadiano, e a partir dele, percebi que as outras palestras seriam fascinantes também.

Sobre o que ele falou? Hum, Dom Casmurro,  fazendo uma análise após a leitura do primeiro capítulo que fala sobre o porquê do título do livro. Foi-se levantado o que sempre vemos em relação ao livro: as semelhanças e coincidências ocasionais que permeiam a obra. Mostrou que há três tipos de leituras mais utilizadas: a romanesca, a patriarcal e policial, além da leitura de contra-fluxo, que rebate as bases das anteriores.

Ainda foi lida uma visão do começo do século XX, onde Bentinho era visto como um homem bom, e Capitu como uma megera manipuladora que se aproveitou da boa condição social e financeira do marido. Os elogios a Bentinho beiram o cômico, se pensarmos anacronicamente, porém, para a época patriarcalista de antigamente era até que bem plausível.

A sacada mais genial e que nunca tinha pensado antes (por isso que adoro várias discussões acerca de uma obra, a gente acha algo mais sempre em cada leitura), foi o fato da comparação entre o livro oferecido ao “poeta do trem” e o filho com a paternalidade duvidosa. O filho e o livro, por mais que tenham sido feitos por Dom Casmurro, o Bentinho, recebem uma alcunha de não propriedade, já que com o título, o livro pode ser do poeta do trem mais do que do próprio Bentinho, e o filho, Ezequiel, por sua semelhança com o melhor amigo do casmurro leva a dúvida sobre se ele é realmente seu filho.

“O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua.”

Temos muito o que desbravar ainda no grande Machado.

Dia 03/07, 11:45 horas – Elizabeth Roudinesco

A historiadora e psicanalista, amiga de Jacques Derrida, com quem até publicou um livro apareceu na FLIP para falar do seu novo livro: A parte obscura de nós mesmos – Uma história de perversos ( Jorge Zahar Editora) , que trata das facetas múltiplas da perversão, da oscilação do bem para o mal e do mal para o bem, gerando até uma metamorfose física (ela fez paralelos entre Dorian Gray de interior horrendo e exterior belo e Gregor Samsa, personagem de Kafka, com o interio belo e o exterior que causava náuseas), além claro, de mostrar que a perversão é uma coisa universal, uma parte maldita do ser humano que leva ao gozo. A pervesão (sexual) é intrínseca a sociedade e aceitável dentro de um certo limite. Ela mostra em seu livro as perversões em Liduína de Schiedam, Gilles de Rais ( o barba azul), Marquês de Sade, Rudolf Höss e o nazismo, entre outro e, na palestra, comentou sobre os limites possíveis na perversão.

Sade, Proust e Flaubert fazem uma exaltação do perverso, sendo que em Sade, esta assume um patamar que antes dele eram inimagináveis.

Ainda há uma referência a Freud, já que esse defendia que a perversão era sublimada a partir da literatura. As perversões sempre existem.

Flip-Flap: Mesa "Guerra e Paz", com Pepetela e Chimamanda Ngozi Adichie

Flip-Flap: uma passadinha rápida e rasteira sobre os conteúdos apresentados nas mesas da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty.

No sábado de manhã a primeira apresentação foi sobre literatura africana. Estavam na mesa Pepetela, Chimamanda Ngozi Adichie e o mediador José Eduardo Agualusa. O esquema seguiu como o de todas as outras mesas: cada autor lia um trecho de um livro seu e depois partia-se para comentários e discussões.

Pepetela, escritor angolando e ex-combatente da guerra de libertação de seu país, leu um trecho de Predadores; Chimamanda, nigeriana que viveu no pós guerra da Nigéria, leu parte de sua obra Meio sol amarelo.

Ambos tratam da temática da guerra, muito presente na vida dos africanos. Pepetela contou sobre suas experiências como comandante de uma pequena tropa. Segundo ele, Na guerra é muito difícil esconder o medo, mas depois que a guerra acaba, todos tornam-se heróis, até mesmo aqueles que tremeram. O que acontece é que, já que não existe outra saída, forma-se um movimento coletivo de coragem. Ele conta, inclusive, que guerrear naquele continente não se trata apenas de ter o melhor material bélico, mas de saber lidar com a cultura local para manter o controle sobre os soldados. Pepetela conta o caso da mandinga do “corpo fechado”: um comandante só era respeitado caso seus soldados soubessem (ou acreditassem) que ele tinha feito a mandinga, que garantia que o comandante estaria “blindado”. Guimarães Rosa ilustra uma situação semelhante no conto “Corpo Fechado”, na obra Sagarana.

Chimamanda trata do tempo antes e durante a Guerra da Nigéria. Ela contou que escreveu o que sentia se passar quando era criança e adolescente, pois todas as referências temporais tratavam do que acontecia antes e depois da guerra. Isso marcou de tal forma a sua vida que ela resolveu retratar sua preocupação com as relações sociais durante a guerra. Afinal, mesmo em tempos de guerra, pessoas se casam, se amam, têm filhos, e é isso que ela diz querer retratar: menos quem mata e quem morre, e mais a vida daqueles que sobrevivem a esse tipo de situação.

Tanto Pepetela quando Chimamanda ressaltaram que escrever sobre a guerra não é uma forma de dar valor a ela, mas que eles têm a função de escrever sobre o que o povo africano passa, escrever sobre a África. Pepetela inclusive diz que as pessoas mais capazes de fazerem a paz são aquelas que um dia fizeram guerra, ou seja, é mais fácil, segundo ele, que militares consigam promover melhor a paz do que os políticos.

Para Chimamanda, a primeira coisa que morre na guerra é a verdade, pois ninguém mais é sincero em relação a seus sentimentos, mas que ela é bastante reveladora: é num momento extremo como esse que as pessoas revelam sua relação com o mundo e com os outros de forma mais sincera.

No final da apresentação, Pepetela ressalta que um problema da literatura africana é a falta de conhecimento mútuo entre os escritores. Ele diz que muitos não se conhecem, e muitas vezes nem conhecem as obras dos conterrâneos. Para ele, isso seria um passo importante na valorização da literatura do continente africano.

Veja mais sobre a mesa Guerra e Paz no site oficial da FLIP