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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Lembre-se

“Nada é mais poético que recordação e pressentimento, ou representação do futuro.”

Novalis

Começou aos dez anos essa mania. Se pegou pensando que há alguns meses as coisas eram melhores, mais legais. Mais brinquedos, mais amigos, e o aniversário também já tinha passado. Aos doze lembrava dos seus dez anos com muito mais doces e cores. E aos treze lamentava a partida dos doze e da sua permissão de se manter infantil. Aos quinze lembrou dos treze com saudade do gosto de novidade em tudo: do primeiro beijo, do primeiro garoto que ela gostou e que, lamentavelmente, não reparava na torcida que ela fazia para ele durante o futebol. E aí começaram os arrependimentos também, os eternos namorados das lembranças. Até os Titãs fizeram uma música. Devia ter torcido mais e se declarado mais, quem sabe ele não se dava conta da existência dela.

Chegou aos dezoito e as reclamações de que o cursinho era muito pior do que a escola, esquecendo-se (propositalmente) das reclamações que fazia quando entrou no ensino médio, que era muito mais chato que a oitava série.

Passou na faculdade e lembrava-se com um sorriso leve das tardes cheias de café e indecisões sobre o que fazer. Agora era obrigada a dar de frente com um curso que, como sempre, não era tudo o que ela esperava.

Mas foi então que passou a brigar consigo mesma. Se havia escolhido aquilo e achava que estava errada, deveria escolher outra coisa ao invés de se lembrar com saudades do que já havia acontecido. E assim fez, mudou de curso, saiu da psicologia para a moda. Para lembrar, entediada com os croquis, das primeiras aulas da antiga faculdade. Não terminou essa faculdade também e não começou nenhuma outra. Trabalhou (pouco), e se perdeu (muito) entre os muitos amores com lembranças dos de antes. Dizem que é importante ter bagagem, mas sobre viver da lembrança ninguém havia dito nada.

Seria um vício? Não conseguiria nunca apreciar o que estava acontecendo naquele instante ao invés de lembrar-se com um pouco de amargura do que havia passado? Parando para pensar, era um ciclo vicioso dos mais difíceis de quebrar. Como é que iria ter lembranças sem arrependimentos se não era nada preocupada com o que desfilava em frente aos seus olhos, mas sim com o que passava em marcha pela sua cabeça?

Fez à moda dos tão mal falados perdedores: desistiu. Um pouco como a personagem d’A Invenção de Morel, deixou-se mergulhar em um passado estagnado esperando pela exaustão que não chegou, pelo menos até agora.

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Do som da cabeça

Dizem que João Gilberto ficava trancado no banheiro da casa da irmã tocando violão. A acústica era perfeita. Ela fica trancada na própria cabeça ruminando o assunto. A acústica é perfeita.

Se disserem qualquer coisa, ela não escuta caso esteja trabalhando com sua cabeça. Busca a perfeição dela, da mesma forma que João busca a do violão. Esquisito e compreensível. Quando perguntam por que ela não está prestando atenção, ela pisca os olhos, que até aquele momento estavam opacos, como se o corpo dela tivesse morrido um pouco para a mente trabalhar melhor, e pede desculpas, mas não são sinceras, já que na opinião dela as pessoas fogem de si mesmas o tempo todo. A única diferença entre ela e os outros é que ela não sabe disfarçar. Por telefone é mais fácil: com alguns sons ela finge que presta atenção e pronto, o interlocutor fica satisfeito. A verdade é que ele só queria falar, e se ela não atendesse, outro iria ouvir.

Mas isso não quer dizer que ela não quer ser escutada. Quando se propõe, raramente, a dividir seus problemas, espera a atenção de quem a escuta, mas isso devido à solenidade do momento: ela não conta quase nada para quase ninguém, e decidir contar já foi um grande passo. Escolher para quem contar um maior ainda. Contar de fato foi quase a chegada do homem à lua. Para contar, ela precisa que o assunto esteja vazando pelas orelhas, ficando quase palpável, não tendo encontrado nenhum outro caminho. Por isso quase todas as suas confissões se dão em um tom meio desesperado. Saem confusas e emboladas, com o mesmo final sempre: “E o que eu faço?”. Normalmente dizem respeito ao que ela imagina não conhecer e considera o ouvinte capacitado de resolver. Normalmente falam do coração, que ela considera um terreno desconhecido apenas para si, sem nunca pensar que assuntos do coração são o único terreno que nunca se deixa de desconhecer.

Pragmatismo é sua crença e imaginar alguma coisa que não possuía solução sempre foi um tanto difícil de conceber. Por isso, desde que saiu das bonecas, passa muito tempo trabalhando nas coisas do coração e, invariavelmente, chegando a conclusões pragmáticas, e por isso nada funcionais. Não que ela não viva o amor, não. Ama muito e já amou muito, mas nunca da forma mais comum. Costuma gostar antes de conhecer (única parte comum a quase todo mundo), mas desgostar no primeiro beijo para se apaixonar com o primeiro sintoma de rejeição, coisa que ela lida muito mal, mas gosta de conviver. Dá um gosto na boca que merece ressoar pela cabeça. Mas tudo isso diz respeito ao amor de namorado.

Com o amor de amigo ela é diferente. É agradável e às vezes tanto que os amigos se perguntam a quem ela quer tanto agradar, sem pensar que é a eles. Muitos inclusive nem sabem que ela é mais agradável ainda com quem não considera tão amigo. Só aos grandes ela destina algo além da boa convivência. A muito poucos ela destina choros e uma ou outra crítica mais dura. E só para ela destina-se a maior parte da angústia diária.

Outro dia estava olhando para ela e juro que vi algo de macabro, será que finalmente vazou algum som daquela acústica perfeita? Acho que ela notou que eu consegui vislumbrar uma coisa diferente e disfarçou. Sem eu nem perguntar inventou uma desculpa e ficou me olhando, vendo se conseguia procurar algum vazamento de som na minha caixa acústica. Não viu. Eu nunca mais vi nada também. Mas o que vi ficou sempre ressoando, e desde então tenho trabalhado bastante na minha cabeça, mesmo que ela não tenha a acústica tão perfeita.

Qual é a do dia 29?

Os outros sempre são os personagens.

Muita gente no mundo, e muitas delas com alguma história que valha a pena. Ou pelo menos uma lida.

Não sei se sou eu que me escondo atrás dessas pessoas ou se falo por elas e deixo tudo que é meu junto. Mas por aqui a gente pode tentar ver se a grama do vizinho é mais verde.

Todo dia vinte e nove alguém pede passagem e senta pra contar, pelas minhas palavras, alguma história.

Sua história daria um livro?