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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Veleiro

Eu detesto esse lugar. Detesto essa sombra. Essa falta de luz que não me deixa ver nem dois pés à minha frente. Nada me arrasta, me leva, me expulsa daqui. Solidão acompanhada de vazio e falta de sentido. Nada faz sentido quando eu fecho os olhos. Detesto esse enjôo que eu sinto reescrevendo os nomes que eu ainda lembro e nem posso mais dizer. Alguns perderam os rostos, devorados pela água salgada que eu tanto queria. Todos perderam o toque, roubados pra outra companhia. E eu fiquei. Me deixei ficar no porto. Sem âncora, esperando os ventos que não sopram. Perdido. Naufragado. Solto entre tantas velas, veleiros e vazios que um oceano todo não me preenche. Vira pra ver o sol, mas a noite já caiu faz tempo. Em alguns lugares é sempre escuro, é sempre longe, é sempre tarde. Tarde demais. Pra voltar, pra seguir. Eu não tenho caminhos. A água os apagou. Eu não tenho caminhos. Submersos eles me esperam. No fundo do mar talvez eu sorrisse mais. Talvez eu tivesse mais versos e mais lembranças. E não mergulho. Não faz parte de mim. Minha natureza me acorrenta a escombros, ruínas e batalhas perdidas. Um barco a vela atracado em penhascos. Debruçado em desfiladeiros. Deslocado. Desviado. Meu caminho se apagou e eu me entrego pra onde o vento me levar.

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Minguante

ou, UMA CAIXA VERMELHA NO FUNDO DO POÇO

Enquanto eu fazia o caminho de volta, eu olhei pra cima e tive certeza. Eu minguava. Estranho, mas um pedaço de mim era engolido pelo escuro da noite, e eu minguava no vento gelado do fim do dia. Sem esperanças, minguava. Metros pra baixo do solo, eu minguava. Minguava até ser terra. Minguava pra desaguar no mar. E você não notava. Você não sabia. Você vem e vai, não deixa recado, não deixa boa noite. Eu estava pedindo companhia, minguando na solidão do que eu era e você não estava do meu lado pra me crescer de novo. Eu sabia. Eu sabia desde a primeira hora. Desde o segundo beijo. Mas eu queria. Agora eu olho pra cima e eu só vejo minguantes. Parece que o mundo acaba à minha volta em vento e nuvens que cobrem os pedaços e minguam as horas. Eu queria gritar alguma coisa. Gritar que eu te quero. Mas você não ia me ouvir. A minha voz minguava com as horas e o sono. No sono eu esperava. Na cama eu esperava. Sonhando acordado e me levantando. Ali eu ando em círculos e vejo se você tem algo pra me falar. Pra me mostrar. Pra me dizer. Pra me tocar. Pra me fazer. Feliz. Não. Minguávamos, inegavelmente. Sem saída. Acima de mim, apenas minguantes. Eu queria um abraço. Eu queria você. Sem chance. A nossa lua não é a certa. De novo. Me desperta. Me resgata. Me tira desse lugar em que eu me coloco. Culpa sua. Culpa sua, culpa sua! E não é. Eu sempre soube que você não desceria aqui comigo. Era óbvio. Eu não quis ver. Meu olho bom já estava coberto pela escuridão minguante que me oprime. Eu desci. Mais que isso, eu me larguei. Me entreguei. Despenquei. Quase chovi. E esperava te molhar. Lá no fundo, eu tinha só um quarto sozinho, e uma visão privilegiada de trezentos minguantes. Trezentas memórias do que não foi. Sete mil sonhos perdidos. Doze vontades que eu não tive. Uma pessoa que não me encontrou. Você. No fundo do poço, eu minguava por sua causa. Talvez ainda fosse dia, talvez eu só visse o céu-minguante porque eram o recorte do poço e a luz que construíam a vista. Por sua causa eu doía, o céu não tinha cor e eu me afogava num poço seco. Te esperando, eu era uma caixa vermelha no fundo do poço. Sem a sua mão pra me trazer à tona…

Marítima

Ela sabia o segredo das marés e amava afogar seus amores. Os sufocados, os naufragados, os submersos eram sua paixão. Suas mortes eram sua história. A chamavam Mara, Maria, Marília, Marina e Mariana. Seu nome era profundo. Sua casa era o fundo do oceano pacífico. Seu divertimento era beijar marinheiros até o sufoco. Ela afogava pra limpar a vida e não deixar sombra. No fundo do mar o rosto era esquecido. O nome não era falado. De cima dos corais, ela era só mais uma que não teve seu final feliz.

Tinha direito sobre a morte na água. Toda criança engasgada, todo barco quebrado, toda estrela caída lhe pertenciam. Era seu reino. Mais que isso, seu reinado. Acordava já no fim da tarde, quando acabava a luz. Fazia mais sentido seu conto na escuridão. Seus olhos eram cor de água. Mas não eram bonitos. Sua pele era perfeita, e não era bonita. Seu sorriso era deslumbrante. E não era bonita. Não era bonita porque essa palavra não foi feita para ela. O que quer que isso queira dizer, não dizia seu nome. E sem seu nome não era ela mesma. O nome a construía. O nome a desaguava.

Ali onde o rio caía no mar ela passava a maior parte da noite. Contava as horas até o dia seguinte. Se entregava aos passantes, aos peixes e às aves. Enquanto eles ocupavam seu tempo ela os olhava fixamente. Dentro deles, procurava aquilo que a faria feliz. Mariana nunca encontrou. Maria tinha esperanças. Mara nunca admitiu que procurava. Marília sempre se convenceu de que se bastava. Marina preferia não pensar nisso. Quando começava a clarear ela voltava. Suja. Usada. Despedaçada. Fora alimento de animais. Fora sexo de pessoas. Fora boca pros que precisavam e corpo pros que queriam. Não tinha dono. Todos se esfregavam na imensidão do mar.

No meio de todo o mar, todos de despiam, se tocavam, se limpavam. Faziam todos seus sonhos, suas perversidades, seus delírios displicentes inadequados à costa. – Maldita costa que a continha, e retinha. Impedia seu caminho… Ela a destruía aos poucos. Aos poucos, tudo desabava e virava areia pra separá-la do mundo. – ela os carregava todos. Aceitava-os todos. Acalentava. Permitia. Incentivava. Todos. Quando amanhecia e suas águas estavam frias, Marina chorava. Mariana se odiava. Maria não se olhava. Mara se limpava. Marília gritava.

As ondas são seus gritos. O grito daquelas que não tiveram sua história. O berro daquelas que se abandonaram e se perderam pelos outros. O mar nunca ficou revolto. O mar se revoltou contra tudo o que a impediu de ser feliz. E começou a afogar suas histórias. Afogar seus passados. Afogar suas perdas, pra não ter que lembrar do que não teve. Matar seus amores, pra que, dentro dela, eles fosses eternamente lembrados para serem esquecidos. O barulho das ondas só sabe repetir ‘Me esqueçam’.

E assim, Maria se mata. E pra matar aquilo que ama, se mata Mariana. Mara dispara e se atira no azul de Marília, que a abraça e sufoca, repetindo pra si mesma que não precisa de ar. Não precisa respirar. Depois de tantas dores maiores, o ar não pode ser tão forte. Marina respira… respira… por um último final, que seja feliz… respira… respira… e se afoga. O sofrimento delas, nos dizem as conchas.

\'Me esqueçam!\'

* Não que tenha sido originalmente inspirado em, mas eu nunca teria escrito isso sem Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues. existe prosa-poética, não? deve existir algo semelhante para o drama…

Fica

[uma casa à noite. Ela e ele no quarto. Ela chorando. Ele preocupado. Ela quer ir embora e não tem coragem de falar. Ele não entende o que está acontecendo. Ele em pé. Ela sentada bem largada numa poltrona]

ELA –  [fugindo do assunto] Não é nada.

ELE – [assustado, duvidando, e ainda com pena] Você consegue falar isso olhando nos meus olhos?

ELA – [agora olhando nos olhos dele, ainda chorando] Não é nada.

ELE – É mentira… O que foi? [ela volta a olhar pro chão] Fala comigo.

ELA – Eu não sei o que foi.

ELE – [assustado] Isso tem alguma coisa com o seu ex ter ligado?

ELA – [responde depressa] Não. Não tem. Bom… [não quer mentir] tem… [suavizando], mas não é assim… já era antes…

ELE – [mordendo o lábio] O que já era?

ELA – [confusa] Tudo isso… ai… eu não sei… não dá pra explicar… de repente tudo mudou…

ELE – O que mudou?

ELA – Tudo mudou. Você mudou. A gente mudou. Não era assim antes.

ELE – Mas o que é que tá errado?

ELA – A gente tá errado.

ELE – O que você quer dizer com isso?

ELA – Que não era assim antes. Que antes a gente falava. A gente se entendia. Você quase não tá mais aqui.

ELE – Eu trabalho…

ELA – Mas antes você trabalhava. De repente você mudou. Você liga menos pra mim.

ELE – Não é verdade. Eu to mais ocupado. Só isso… logo passa.

ELA – [desacreditada] Será que passa?

ELE – [positivista] Claro que passa. A gente já passou por isso antes.

ELA – [duvidando] Já?

ELE – É… logo depois que a gente se mudou pra cá. Lembra?

ELA – Não foi a mesma coisa. Agora é diferente. Naquela época você ainda me telefonava do trabalho e me dizia que me amava.

ELE – Você quer que eu te telefone mais?

ELA – Não é assim fácil… você me mandava flores sem motivo especial…

ELE – [meio bobo, querendo resolver o problema] Você quer que eu te mande flores?

ELA – Pára! Não é isso… eu não quero flores… eu quero você.

ELE – Eu sou seu.

ELA – Eu quero que você me ame.

ELE – Eu te amo.

ELA – Eu não acho.

ELE – Por que?

ELA – Porque não. Eu não acredito mais que você me ame. Você nunca tá do meu lado. Parece que você não me quer mais…

ELE – Não é verdade… eu só to mais ocupado…

ELA – Mas antes você dava um jeito…

ELE – Você tá exagerando. Você tá esquecendo do resto da vida. Você tá pedindo demais…

ELA – To? Você sempre soube que eu queria tudo. Eu sempre te disse. Todo o seu tempo. Todo o seu amor. Todo o seu carinho.

ELE – Você tem!

ELA – Não tenho não… não mais…

ELE – [magoado] Por que você pensa isso?

ELA – Você não me olha mais do mesmo jeito…

ELE – Como eu te olho, então?

ELA – [relembrando, encantada] Antes era como se fosse a primeira vez… toda vez era a primeira vez… toda vez você se apaixonava por mim. Toda vez eu me apaixonava por você. Você não pode dizer que ainda é assim, pode? [ele pára de olhar pra ela pensando] pode olhar nos meus olhos e me dizer que ainda é assim?

ELE – … [suspira olhando pros lados. Perdido. Não concorda com ela. Mas sabe que ela está certa. Não dá pra fugir.]

ELA – Tá vendo…

ELE – Mas eu ainda te amo. Eu sei que amo.

ELA – Mas não se apaixona mais. Eu não te encanto mais…

ELE – Claro que encanta. Você é tudo pra mim.

ELA – [desafiante] Sou?

ELE – Claro que é! O que você acha?

ELA – Eu acho que sei lá… que perdeu a graça…

ELE – [desamparado] Você não me ama mais?

ELA – [na defensiva] Eu não disse isso!

ELE – [triste] Você não me ama mais?

ELA – [voltando a chorar] Não é assim… tá tudo diferente… muito diferente…

ELE – [chorando também] Você não me ama mais?

ELA – [levantando da poltrona. Sem olhar mais pra ele. Quase num sussurro, confessando pra si mesma] eu sinto sua falta…

ELE – Responde. Você não me ama mais?

ELA – eu… [vários suspiros e tentativas de falar pra ele, sempre interrompidas por choro, soluços, respirações]

ELE – Fala… [devastado. Com medo da resposta] Você não me ama mais. Ama? [silêncio. Ele insiste, um pouco mais bravo] Ama? [então bastante irritado, gritando e chorando] Ama?

ELA – [gritando também] Eu não sei mais!

ELE – [inconformado, perdido, inseguro] Você não me ama.

ELA – Você tá diferente!

ELE – [ignorando a fala dela] Desde quando?

ELA – [desentendida] O quê?

ELE – [amargo] Desde quando você não me ama?

ELA – Eu não te disse que não te amo!

ELE – Não faz isso. Fala pra mim. Desde quando você não me ama?

ELA – [incapaz de falar] Eu…

ELE – Desde que ele ligou?

ELA – [disfarçando] Não…

ELE – Você voltou a ver ele?

ELA –  Uma vez…

ELE – Quando?

ELA – Semana passada.

ELE – [magoado] Por que você não me disse?

ELA – [maldosa] Você tava trabalhando.

ELE – Quando foi?

ELA – [tentando desviar a atenção] Não lembro… [vira]

ELE – [ele a puxa pelo pulso. Fala com ele segurando a mão dela na altura do rosto dele encarando-a nervoso] Quando foi?

ELA – [tentando soltar as mãos, sofrendo] Sexta.

ELE – [apertando mais o pulso dela] Quando você falou que ia sair com sua mãe?

ELA – [ainda tentando soltar a mão] É.

ELE – [cada vez mais bravo. Sem soltá-la] Por que você mentiu?

ELA – Você ia pensar algo errado…

ELE – Ia pensar que você não gosta mais de mim! Isso não é errado!

ELA – [puxando o braço sem conseguir se soltar] Me solta.

ELE – [não a solta] Vocês falaram sobre o que?

ELA – Me solta.

ELE – [aumentando o tom] Sobre os bons tempos?

ELA – Me solta.

ELE – Sobre como sentem saudades?

ELA – Me solta.

ELE – E que não deviam ter se separado?

ELA – [gritando] Me solta!

ELE – [ignorando e nervoso] Vocês se beijaram?

ELA – [cansada] Me solta…

ELE – Vocês se beijaram?

ELA – [chorando. Caindo no chão] Me solta…

ELE – [gritando] Vocês se beijaram?

ELA – [olhando pra cima e gritando] Sim!

ELE – [joga o braço dela pra baixo. Anda pelos lados pensando no que dizer. Ela chorando no chão. Fala sem olhá-la, magoado] Foi aí que você percebeu que não me ama mais?

ELA – [parando de chorar] Não…

ELE – Quando então?

ELA – Antes. Você não me olha mais como antes…

ELE – Claro que não. Olha o que você fez. Você acha que merece que eu te olhe?

ELA – [resignada] Não…

ELE – [seco] Eu também não.

ELA – [silêncio. Ele olhando para a platéia, como se fosse pela janela, no canto do palco. Ela se levanta] Você é tudo pra mim.

ELE – Sou?

ELA – [chorando] É. [tomando coragem] E eu sou tudo pra você, não sou?

ELE – [ainda sem olhá-la] Era…

ELA – [silêncio] Fala comigo.

ELE – [balançando a cabeça em negação] Você mudou.

ELA – [olhando pra ele que está de costas ainda] Me perdoa?

ELE – [ainda sem olhar pra ela. chorando] Tudo mudou.

ELA – Mas isso passa… me perdoa…

ELE – Eu… [não consegue falar nada]

ELA – [olhos lacrimejando] Você não me ama mais?

ELE – Eu não sei…

ELA – [chorando] Você não me ama mais?

ELE – Eu não disse isso…

ELA – [desesperada] Você não me ama mais?

ELE – Não é isso…

ELA – [gritando] Você não me ama mais?

ELE – [tentando não chorar, mas sem conseguir] Não…

ELA – [soluçando] E agora?

ELE – E agora o que?

ELA – O que a gente faz?

ELE – Eu não sei…

ELA – [silêncio. Depois volta a falar chorando] O que a gente faz?

ELE – Eu vou embora.

ELA – Não! Fica!

ELE – Eu vou embora.

ELA – Não!

ELE – [chorando] Eu tenho que ir

ELA – [chorando] Fica!

ELE – [pega as chaves] Alguém vem buscar minhas coisas depois.

ELA – Não vai! Fica!

ELE – [olha uma última vez pra trás. Tenta se despedir, mas não consegue falar]

ELA – [num sussuro] Fica…

ELE – [negando com a cabeça. Olha pra platéia, pelo meio do palco, como se fosse a porta. Começa a avançar descendo do palco. Pára. Olha pra trás pra ela. Uma ultima lágrima. Sai de casa, caminhando]

ELA – [baixo] Fica! [gritando] Fica! Fica! [rouca] Fica! [chorando] Fica! [só mexendo os lábios] Fica…

Meu Beijo no Asfalto

Esse texto começou como um relato. Um comentário, daqueles que dissecam algumas das coisas que eu mais amo. Depois de algumas linhas eu percebi que era preciso algo mais forte. A situação necessita uma vestimenta mais adequada, às vezes roupa nenhuma. Seria fácil vibrar com a peça, mas seria triste não deixar transparecer o meu amor por ela, como aconteceria no texto que eu abandonei.

Em estilo rodrigueano, eu deixo a luz cair em resistência, de modo que meus olhos quase não sejam vistos enquanto eu grito minhas paixões.

“Eu não beijaria um homem que não estivesse morrendo!”

Fique claro: essa é a visão de Arandir das coisas.

Arandir decidira que a esposa deveria fazer um aborto. Ela era linda demais para desfigurar o corpo. Depois de só um ano de casado ele preferia não encerrar a lua-de-mel ainda. Ela, criatura “fina, frágil” e “de intensa feminilidade”, concorda. Foi penhorar uma jóia para pagar pelo procedimento. No caminho de volta, já com o sogro, Aprígio, voltando para casa, vê um lotação que atinge um rapaz junto ao meio fio. Ele se aproxima.

Arandir recebe um pedido inusitado

“estava morrendo. Morrendo junto ao meio fio. Mas ainda teve voz para pedir um beijo. Agonizava pedindo um beijo.”

Arandir deu o beijo. Visto por um repórter, o caso foi explorado, a história foi reescrita: agora Arandir tinha um relacionamento com o rapaz, depois a viúva do Atropelado os tinha visto juntos, finalmente, para todos era fato consumado.

“Seu marido mantinha relações anormais com outro homem. (…) Te traía não com uma mulher, mas com um cara! Na hora de morrer, ainda levou um chupão!”

“Relações anormais”, “intimidade que não pode existir entre homens”. Os termos variam, todos no mesmo sentido. Não, não pretendo desenrolar uma tese sobre a visão da sexualidade na época. Isso realmente não importa. O que importa é que um homem foi humano o suficiente, homem o suficiente, pra deixar um desconhecido morrer feliz. A recompensa que ele recebe é clara: piadas no trabalho, dúvidas dos visinhos, família e amigos. Ele deixa de importar, deixa de existir. O beijo resume toda sua existência.

“Parei a cidade. Só se fala no ‘Beijo no Asfalto’!”
“A pederastia faz vender”

O jornalista tem necessidade de fama. Ligado a um policial homofóbico, ele convence as pessoas de que há ali uma história, boa a ponto de elas deixarem de acreditar em si mesmas e concordarem. As versões são construídas com palavras hábeis, ameaças e violência. Selminha, a esposa de Arandir, que, a princípio não se incomoda com o que aconteceu, começa a ter nojo do marido. A viúva do atropelado inventa um caso sobre os dois tomarem banhos juntos. Desconhecidos ‘reconhecem’ o sujeito de vista, sempre ligando-o a Arandir, sempre levando os outros a confirmarem a história.

Ameaça e violência na distorção da história

“Viúvo de atropelado! Ou viúva!”

O refúgio da casa perde sentido sem o apoio da mulher. Quando ela é levada pela polícia, ele foge. Ela é ameaçada até concordar com a história. Desiste de defender seu homem, depois de ter sua roupa arrancada por outros dois. Seu constrangimento é uma vingança àquele que ela causa ao policial, ao jornalista e à platéia, defendendo a honra de seu marido.

Montagem de 2007 - estética que mistura os planos da realidade“Eu conheço muitas que é uma vez por semana, duas e, até, 15 em 15 dias. Mas meu marido todo o dia! Todo o dia! Todo dia! Meu marido é homem! Homem!”

Quando a esposa se convence de que o marido a traía e o abandona, recusando-se a ir encontrá-lo no hotel onde se escondia, sobram apenas duas tramas, até então subalternas. Dália, a irmã de Selminha, era apaixonada pelo cunhado. Selminha o abandona e ela aproveita para se entregar. Vai ao hotel. Se confessa. Aceita morrer junto com ele. Não se importava com mais nada. Inocentemente pergunta se era verdade sobre o caso com o atropelado.

“Você é como os outros. Igual aos outros. Não acredita em mim.”

Dália o perde ao se igualar ao mundo e deixa o hotel. Aprígio entra no quarto. Nesse momento, a platéia foi alimentada acreditando que ele não gosta do genro. Tanto que nem fala o nome dele, e evita ao máximo a sua presença. A sugestão de Arandir é que o sogro tem um ciúme muito grande de Selminha para suportar o homem que a roubou dele.

“O senhor me odeia porque. Desejava a própria filha. É paixão. Carne. Tem ciúmes de Selminha!”
“De você! Não de minha filha. Ciúmes de você. Tenho! Sempre. Desde o teu namoro que eu não digo o teu nome. Jurei a mim mesmo que só diria o teu nome a teu cadáver. Quero que você morra sabendo. O meu ódio é amor. Por que beijaste um homem na boca? Mas eu direi o teu nome. Direi teu nome a teu cadáver.”

É desesperador, é infeliz, é honesto. Como a falta de caráter do jornalista Amado. Como a incapacidade do delegado Cunha. Como o sofrimento de Dália. Como o medo de Selminha. Como a pureza de Arandir.

“Ninguém pode viver sem ninguém.”

Selminha estava certa. Ao fim da peça todos estão traídos, desesperados, bêbados ou abandonados, de modo que eu pareço ouvir essa fala dela se repetindo quando a luz se apaga, esclarecendo, depois de tiros, sobre os gritos de Aprígio ao cadáver de seu querido, que ele nao viverá sem ninguém.

“Arandir! Arandir! Arandir!”

Arandir foi humano. Por mais que me agrade mais a versão eles-tinham-um-caso-secreto, essa não é a história de uma paixão interrompida cedo demais junto ao meio-fio. Essa é a história de como algumas pessoas simplesmente são pessoas. E como outras simplesmente sabem o que fazer para ter o que querem. Explorar não é novidade, mas explorar algo tão lindo é minimamente doentio, completamente sufocante, indiscutivelmente rodrigueano, inegavelmente uma das coisas horríveis que mais me apaixonam.

“É lindo! É lindo, eles não me entendem. Lindo beijar quem está morrendo. Eu não me arrependo! Eu não me arrependo!”

E não deveria. Eu também não me arrependo…

Os Olhos Cegos de um Deus

“Welcome to the torture chamber!”

            No final de 1974, o autor Petter Shaffer realizou a primeira montagem de sua sexta peça – o drama psiquiátrico de um menino que havia cegado seis cavalos do estábulo onde trabalhava. A peça, Equus, foi um sucesso de público e crítica, sua primeira montagem ultrapassando as mil apresentações, ganhando os quatro principais prêmios de teatro de New York – o Drama Desk, o Outer Critics, o New York Drama Critics Circle e o Tonny Awards, de forma a equipará-la a outras gigantes da história teatral, como Death Of A Salesman de Arthur Miller, The Cocktail Party de T.S. Elliot, A Streetcar Named Desire de Tenessee Williams, Long Day’s Journey Into Night de Eugene O’Neill, Marat/Sade de Peter Weiss, The Homecoming de Harold Pinter, e, posteriormente, as duas partes de Angels In América de Tony Kushner e também o Amadeus do próprio Shaffer, além de tantas outras.

” ‘I see you’ ‘I will save you’
‘Bear your way. Two shall be one’
‘My chinkle-chankle shall be in thy hand’ “

            Não há simplicidade em Equus. Não há suposições, nem expectativas traídas. A construção não tem marcas, o enredo não tem superficialidades e a montagem atinge níveis desesperadores, inesperados e inovadores, comparáveis aos de Vestido de Noiva de Nelson Rodrigues, em toda a sua genialidade. Discute-se a Normalidade, a Psiquiatria, o Casamento, o Trabalho, a Idade, a Sexualidade, o Fanatismo e a Religiosidade, com visões que não tentam o ridículo objetivo de demonstrar todas as opções e interpretações, mas se fecham impecavelmente em torno da mão desse menino, que segurava um estilete e furava os olhos de seu Deus, numa história contada em flashbacks misturados a discurso indireto livre, a fala direta e a conversas com a platéia – quatro temporalidades e linearidades distintas dividindo o mesmo palco com homens vestidos de cavalo em figurinos incríveis, platéia entre os atores e platéia exterior, tudo sobre uma estrutura que gira e me faz acreditar, durante as duas horas, pelo menos, que aquele é o único sentido da existência.

 

*

“What use is grief to a horse?”

            Já exasperado pelo seu trabalho, o psiquiatra Dysart aceita esse caso, topando com um menino apaixonado por cavalos – mas que não cavalgava, segundo as outras pessoas, que tinha sido criado numa casa repressora e religiosa, em conflito interminável com os pais, e que se negava a conversar. A identificação é imediata. Eles se lêem nos olhos um do outro, e o menino, Alan, ao passo que o próprio psiquiatra entrega sua história, seu casamento falido, sua frustrante falta de filhos, seu desespero com a carreira, também se abre. Dysart passa a conhecer um mundo desvairado de Deuses-Cavalos e seu adorador maior.

“Prance begat Prankus! And Prankus begat Flankus!”
“Flankus begat Spankus. And Spankus begat Spunkus the Great,
 who lived three score years!”
“And Legwus begat Neckwus. And Neckwus begat Fleckwus, the King of Spit.
 And Fleckwus spoke out of his chinkle-chankle!”
“And he said ‘Behold – I give you Equus, my only begotten son!’ “

 

            Mais que um delírio, o espírito divino dos cavalos tornou-se uma religião. Allan trabalhava nos finais de semana num estábulo, limpando cascos dos cavalos e cuidando deles. Na morada mais sagrada entre os santuários, ele podia adorar e honrar seu Deus. Uma vez a cada três semanas, em plena madrugada, ele tirava do celeiro um dos cavalos, sem cela, apenas com as correntes na boca (“Why is Equus in chains?” “For the sins of the world”), e se igualando a seu deus, se oferecendo completamente e sem roupa nenhuma (“The horse isn’t dressed. He’s the most naked thing you ever saw.”) ele cavalgava enlouquecidamente, misturando-se cavalo e cavaleiro, num grau de comunicação divina além do imaginável, enlouquecidamente, enfurecidamente, orgasmaticamente, como se vê com Alan gemendo e gritando ao final do primeiro ato, enquanto cavalgava.

“It was sexy.”

            E não só pra ele, para o público também. Ai entende-se que a nudez da peça vai muito além do serviço de chamariz. É preciso que Alan se desnude pelo seu Deus para que a platéia possa deixar de se constranger e participar desse desespero, desse sonho, dessa descoberta; para que seja honestamente entendida a paz, que ele só tinha sentindo o suor que adorava, enquanto se abraçava a Equus “like a necking couple”. É preciso que a intimidade deles seja dessa forma tão sentida, para que seja acreditável, para que ele seja aceito como devoto, como adorador, como apaixonado.

“Ride or fall. That’s Straw Law.”

            Alan aprende a montar sendo obrigado pelo seu ritual. A Lei da Palha prevê apenas que ele consiga ou caia. Ele conseguiu e, no entanto, Dysart não. Dysart é constantemente humilhado pela conquista do seu paciente, pelo tamanho de sua grandeza e pela infelicidade imensa em que ele se encontra.

“I sit looking at pages of centaurs trampling the soil of Argos- and outside my window he is trying to become one, in a Hampshire field!… I watch a woman knitting, night after night – a woman I haven’t kissed in six years – and he stands in the dark for an hour, sucking the sweat off his God’s hairy cheek. Then in the morning I (…) go off to hospital to treat him for insanity.”

            Nesse ponto o psiquiatra já não acredita no tratamento. Mais profundamente, ele deixa de acreditar na doença, ao perceber a grandeza de seus efeitos. Seu conflito torna-se interno, duvidando de se é correto ‘curar’ o menino, ou ainda se é possível. Curá-lo do que? De tudo em que ele acredita? Tirar dele aquilo que o mantém inteiro? E com que objetivo? Fazer dele um entre os tantos outros que vivem secos… Dysart não consegue compreender. Se sente ameaçado. Desde o princípio, pelo olhar condenador de Alan, depois também pela sombra da cabeça de cavalo que o persegue e não desiste de mostrar que ele falhou, na vida. O questionamento da normalidade se explode. A normalidade em si se extingue, e todas as alternativas são inferiores, infelizes e dolorosas.

“The Normal is the good smile in a child’s eyes – all right. It is also the dead stare in a million adults. It both sustains and kills – like a God. It is the Ordinary made beautiful; it is also the Average made lethal. The Normal is the indispensable, murderous God of Health, and I am his Priest.”

            Dysart retoma a horrenda posição de sacerdote que ele já questiona desde o início da peça, imagem presente nos seus sonhos em que imola quinhentas crianças, sendo famoso e importante apenas pela sua capacidade de cortar. Seu medo é ter de cortar de Alan tudo aquilo que ele venera. Ele tiraria de Alan tudo o que ele próprio não tinha, e o reduziria a uma pessoa normal. O daria de volta a semi-vida de todos os dias, mesmo sabendo que Alan preferiria seu estado anterior.

“He lives one hour every three weeks – howling in a mist”

            No entanto, Alan já não pode mais retornar àquele estado. Uma garota do trabalho se interessou por ele. Fisicamente. E o levou para – literalmente para o garoto – a cama dos deuses: a palha dos estábulos. Ela se oferecendo a ele, Alan desejava, mas não conseguia. Não podia deixar de pensar e sentir seu Deus (“When I touched her, I felt Him. Under me… “). Como bem aprendera com sua mãe, sabia que Equus o via por todos os lados (“God sees you Alan. God got eyes everywhere”). E não lhe havia saída. Os olhos dele o perseguiriam por todos os lados com os olhares de reprovação, com os olhares que o subjugavam e retratavam sua falha e exigiam sua redenção (“The Lord thy God is a jealous God”). Não havia saída, não havia alternativa. O estilete era o caminho mais curto, o alvo, os olhos de Deus:

 

 

“Eyes!… White eyes – never closed! Eyes like flames – coming – coming!… God seest! God seest!… NO!… no more. No more, Equus. Equus… Noble Equus… Faithful and true. God-slave…Thou – God – seest – NOTHING!”

            Porque era o que ele devia fazer, Dysart anuncia que terminará o tratamento. Que encerrará os pesadelos do menino e o levará para a normalidade, para longe de sua felicidade, mas não sem dor imensa (“When Equus leaves you – if he leaves at all – it will be with your intestines in his teeth.”). Dysart não acredita, não poderia acreditar na felicidade que esse estado ‘Normal’ finge carregar. Não tem certeza da cura, da reabilitação do garoto, ou de uma melhora para ele. Só sabe que vai cortá-lo, como sempre fez. Que vai rasgá-lo e destruí-lo para que ele não seja mais quem é. Sua despedida é o abandono da crença, o abandono dos Deuses, a perda dos sonhos e o completo desamparo:

 

“You won’t gallop anymore, Alan.”

 

*

            E se isso não te dói, eu não tenho mais nada que o faça…

entre-aspas

* Citações da peça Equus, de Peter Shaffer (consultada a edição de 1977 da Penguin Plays), em formado ‘ATO.cena’, respectivamente: I.1; I.19; I.1; I.14; I.19; I.13; I.12; I.1; I.19; II.25; I.19; II.25; II.33; I.13; II.34; II.34; II.35.

cartaz de divulgação e imagens da montagem de Equus de 2007, West End Production, direção de Thea Sharrock

A Primeira Fresta Da Caixa

“Come, you spirits / That tend on mortal thoughts”
Laila Robinns como Lady Macbeth, enlouquecida e enxergando sangue em suas mãos, em “Macbeth”, de Shakespeare, na montagem de 2004 de Bonnie J. Monte

Talvez a tenda já tenha caído e tudo o que sobre sejam só os restos de um ritual de interpretação que, mais que um sentido, tinha vida, mas venham assistir à queda da cortina, à destruição da quarta parede, à ofensa ao público, ao elogio à loucura e às elegias ao pior lado da natureza humana. Eles não se desculparam, porque não sabiam que não podiam falar sobre isso. Alguém precisava fazê-lo. Alguém precisava rasgar as boas maneiras e jogar na cara de todas aquelas pessoas a culpa delas sobre tudo o que mais dói dentro de nós. Mais que um tapa na cara, era preciso um beijo no asfalto, um abandono completo e uma entrega indecente às pessoas erradas.

Hitomi Manaka como Lavinia, depois de ter as mãos e a l�ngua cortadas em “Titus Andronicus”, de Shakeapeare, na montagem de 2006 de Yukio Ninagawa

Eles rasgaram o meu rosto com as palavras. Eles rasgaram as cortinas com as cenas. Eles transformaram o palco que tanto amavam numa caixa vermelha, de sangue. A música, o silêncio, a fala e o tempo livre. Eles respiraram pra dentro do mundo soprando personalidades. Suas personagens moraram ao lado de alguns, mais que muitas pessoas. Eles condenaram a humanidade, eles puniram os deuses, eles tiraram toda a (falsa e pretensiosa) dignidade que tantos fingiam ter. Era preciso. Mais que necessário, foi delicioso. Quando você chega num ponto em que vive com isso, vive com eles, se aceita um desses monstros rastejantes sobre o tablado manchado, você já não dorme, você vê as cortinas se fecharem. Você já não vive, você interpreta. Você já não sonha, você cria. Pra mim, nada pode ser tão grande.

“Sou apenas um homem de teatro. Sempre fui e sempre serei um homem de teatro. Quem é capaz de dedicar toda a sua vida à humanidade e à paixão existentes nestes metros de tablado, esse é um homem de teatro.”

A Caixa Vermelha é onde ficam o meu agradecimento, as minhas impressões, e a minha vontade, pra todos aqueles que, com um palco, me fizeram sentir, me fizeram chorar, me fizeram viver…
* visitas guiadas todo dia primeiro, nesse projeto de muitas mãos e muitas tábuas*

entre-aspas:
*versos 38 e 39, Cena 5, Ato I, “Macbeth”, William Shakespeare
*Laila Robinns como Lady Macbeth, enlouquecida e enxergando sangue em suas mãos, em “Macbeth”, de Shakespeare, na montagem de 2004 de Bonnie J. Monte
*Hitomi Manaka como Lavinia, depois de ter as mãos e a língua cortadas em “Titus Andronicus”, de Shakeapeare, na montagem de 2006 de Yukio Ninagawa
*frase de Louis Jouvet e Jean-Louis Barrault (em seu livro “Je Suis L’Homme Du Thêàtre”), famosa no Brasil depois de interpretada por Paulo Autram em “Liberdade, Liberdade”, de Millôr FernandesHitomi Manaka como Lavinia, depois de ter as mãos e a l�ngua cortadas em “Titus Andronicus”, de Shakeapeare, na montagem de 2006 de Yukio Ninagawa
Hitomi Manaka como Lavinia, depois de ter as mãos e a l�ngua cortadas em “Titus Andronicus”, de Shakeapeare, na montagem de 2006 de Yukio Ninagawa