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  • Políticas do Ambidestria

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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Sem Mais

Sei que tudo deu errado no fim das contas
E agora que já passou sei apontar todos os erros
Mas o que a gente faz com eles?
O que a gente faz com a gente?
Pensei muito tempo sobre isso e queria te perguntar se você pode vir aqui e dormir comigo só mais uma vez
Quero te ver e lembrar o quão isto era importante pra mim noutros tempos

Por mais que eu saiba que acabou
Que eu saiba que podia ter dado certo e não deu
Ainda sim gosto de enterrar meu mortos pertinho de mim
Sinto mais saudade quando você está perto
Dói demais te ver e não te querer mais
Sinto saudade não de você
Mas sim do tempo em que sentia saudades suas quando passava o fim de semana sem te ver
De quando sentia saudades olhando a caneca azul que roubamos daquele café
Porque estes cacos têm que ficar comigo?
Os seus livros
Os potes vazios
As presilhas de cabelo
As cartas não entregues
Meu Deus quantas cartas!
As nossas fotos?
Reclamo dos cacos mas não vivo sem eles
Fico com raiva quando me lembro de como éramos
Mas me entristece tanto tanto quando percebo que me esqueço de nós
Espalho então os cacos no chão e me pego a olhar para eles de vez em quando

Usamos o tempo como se fosse nosso
Usamos mas não pudemos guardar nada
Nem mesmo uma tardezinha pra voltar e vivê-la assim, num dia de sol quando o asfalto estala e nos sentimos ainda mais miseráveis
Vivemos todo ele com uma sede tamanha!
Mas não podemos nem mesmo lembrar direito
Lembrar tudo limpinho, sentir o que a gente sentia
Alguns buracos aparecem e vão aumentando
Comendo meus caquinhos que seguro com as mão suadas e frias
Deixando os sorrisos amarelados nas fotos cada vez mais pálidas
Brincamos enquanto o tempo passava e agora não podemos segurá-lo nem mesmo um instante
Pedir ‘me espera’ só para prestar atenção mais um instante naqueles seus cadarços azuis-céu
Te vejo perder a cor enquanto ele passa
E queria pedir prele parar de correr só um pouco
Parar preu poder olhar bem pra você enquanto ainda tem cheiro
cor
calor
gosto
Meu amor
Nosso amor me fez te ver com certa amargura
Senti cada segundo da nossa morte
E te ver agora me deixa desconcertada
Lembro de tudo da minha vida que já foi
De tudo que eu perdi
de tudo que eu esqueci
Olho pra você e me dói que dói tanto assim de ser quase indecente
E tenho vontade de te comer e guardar você dentro de mim
Só pra não precisar te ver
E você não precisar ir embora
Não precisar decidir nada
Tenho tanta, mas tanta saudade também da época que minha mãe me colocava no colo
Dizia que tudo ia bem bem, e assim, bem devagarinho as coisas iam ficar no lugar certo
Que eu não precisava chorar
Que o joelho ia melhorar
O sangue ia secar
E que ela ia sempre me proteger
que sempre estaria alí
Mas sei bem agora que ela sempre esteve indo embora
O sangue às vezes apodrece e junta bicho antes de secar
O joelho nem sempre melhora e a gente acaba ficando manco para a vida inteira
As coisas nem sempre vão assim, ficando nos conformes
Às vezes é preciso arrumá-las mesmo sabendo que os cacos cortam
Que não colam
Que no fim você vai sentar sozinho
E fazer seus próprios curativos
Sua própria morada
Seu próprio café

Sabe
Gastei tudo o que eu tinha com você
Mas pra onde foi tudo isso?
Não
Não quero nada de volta
Tudinho que eu te dei fica com você
Este castigo é seu
Os meus castigos eu guardo aqui, debaixo da minha cama
Nos cantos dos meus olhos
No batucar dos meus dedos
No meu jeito de rir
Embaixo dos tapetes
Enterrados e aguados todo o tempo
Nas minhas novas rugas
Olho bem pra elas e lembro de você
Lembro que morro assim enquanto ainda vivo bem viva

Antes achava que a pessoa morria assim
De repente
Estava bem e feliz e jovem
Depois caía dura no chão
Sem mais
Mas te vi apodrecendo dentro de mim
Devagarinho
Como, como eu tentei te empalhar!
Chorei muito quando via seus olhos desbotados
Agora não choro mais
Pois morro também e meus olhos também estão desbotados
E, por mais que eu saiba que agora já não existe mais nada
E que me sinto livre
Percebo que precisava das nossas mentiras pra sair do lugar
Percebi que o que me fazia voar era o medo
A vontade de escapar
Desfiz os meus muros, destranquei todos os portões e roí as amarras da canoa
Agora me enterro na minha liberdade viscosa e vazia
E digo adeus às minhas asas e meus remos
que já não me servem de nada
Pois agora tenho medo do que sei que está aqui
Não há mais dúvidas
Meias palavras

Fica quietinho e deita aqui do meu lado
Vem ficar comigo mais uma noite
Vem ser sozinho junto comigo
Assim a gente assiste o outro morrer
E faz anotações sobre a morte
Sobre as fezes
Sobre os bebês
Sobre os bêbados
Sobre as ervas daninhas
Sobre os derivados do leite
Sobre o nosso dessabor
Sobre o nosso desamor
Do nosso fedor
E lembra de que antes isso ia doer
E lembrando disso aí dói
E é bom doer
Porque assim a gente sente o cheiro de sangue
De vida
Porque a única maneira de permanecer vivo por enquanto
é morrendo.

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