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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Desesperiencia de Vida.

Ele vinha com seu já mancado, marcado, sorriso macio. Eternamente Sorrindo. Uma vida feliz, colorida, sem muito. Faltava-lhe a séria capacidade de ver que seu mundo ia além daquelas estrelas – que nem lhe brilhavam. Junto daquele perdido inocente, vivam-lhe também seus malfeitores: um, Munido de Ódio, quanto ao outro, estava apenas Tão Perdido quanto ele mesmo – fato que só viria a perceber tarde, tarde de mais. Era um dia claro. O sol se exigindo, só se exibindo. Não tendo de dividir todo aquele azul de dia bonito com as intrometidas das nuvens. Seu era o céu. Eternamente sorrindo descia as escadas entretido com suas mãos: duas; dedos: dez; dobras, unhas, únicas, juntas e separadas; todas aquelas incontáveis impressões digitais. Deve haver mais linhas que estrelas – disso ele entendia, pois já havia contado as estrelas: setenta e quatro – até que adormeceu. Caminhava normalmente com olhos de ver borboleta. Sentia uma extrema necessidade de respirexistir.

Munido de Ódio se perdia, sentado, se entretendo com seus sem fins afazeres. Olhos baixos. Não fazia, não se via, nem vivia do mesmo fácil mundo. Impensável. Sabia-se perfeito e, assim, indispensável. Corria-lhe as horas como obrigações do futuro ao passado. Possuía no seu umbigo os amigos do trabalho. De fato, não conhecia o mundo, mas, ao menos, sabia da existência deste.

Também, Perdido no Mundo. Impunha muito medo. Não se sabia melhor ou capaz. Desconfiado. Fechado. Capataz. Temia, mesmo, a si mesmo. Acordava, quando dormia, vezes no meio da noite. Tinha na TV, e em seus mil e mais canais, uma melhor amizade – sincera, recíproca – honesta fonte de segurança e informação. Raramente para baixo olhava, mas quando fazia…
Um dia perdido na memória daqueles que, juntos, residiam – do Sorrindo em especial. Decido, destemido – pobre – desce com pressa às vias que lhe chegam à porta. Estava louco, comido, queria sair, queria ver o mar. Já com um pé para fora, ocorreu-lhe um sério erro: retornou. Com fins de usar o banheiro, não que sentisse necessidade, mas mais para que não sentisse. Voltou saltivoando e pensando consigo “vou num pé, volto noutro, num pé, noutro”. Saindo. Descarga dada. Economize luz e salve o planeta. Lave as mãos. Em um brilho e passos voltou se abanando, pois não secou, na pequena toalha laranja-manchada, próxima ao espelho, suas mãos. Pressa, muita pressa. Quando passa do amarelo para o azul, surge dentre os sofás e, ao passar em frente da TV, gotículas de mãos lavadas se kamikazaram àquele que, da TV, não largava. Sem saber direito, ou sabendo exatamente, levantou-se Tão Perdido contra à alegria que, inocentemente, ali se estabelecia. O Eternamente, rapidamente, percebendo o desentendido e, até então, não acreditando no medo associado àquela muralha, que, encarando-o, permanecia de cima, riu-se. Numa falta de entendimento, palavras ou noção: um palavrão. Sorrindo estala os dedos para mostrar que não é nada, mandando mais gotículas da mão mal secada. Totalmente mal-entendido por aquele que, como último aviso, bufou todas suas incertezas e, sem pensar duas vezes, ou pensando mais de duas, deu-lhe um solavanco inesperado. Dois punhos fechados no peito, que decolaram o sorriso para além do encosto do sofá, através do friso; caindo, com as pernas para cima, de costas no frio e branco piso. Aquilo que deve ter sido horas, não passou de minutos para o Sorriso – que apagou. Ouvia apenas uma discussão. Seu vôo parecia ter trazido de volta ao mundo munido de ódio, que, desentendido, veio tirar satisfação em pró do sorriso e da alegria. Lá, deitado, conhecia a dor, as lágrimas, o gosto do medo e do sangue. Nunca teve tanta triscerteza de sua parca existência. Ainda zonzo, achou que logo teria amparo, não teve, entretanto. Sentindo-se sózibrio, quase, levantou com suas próprias pernas. Muito frio. Não entendia. Não pode sorrir: vazio e sem rumo. Quieto. Com retidos passos, subiu a interminável avarenta escada, que não economizava em ecoar os tremores dele. No dia seguinte, a vida era a mesma. TV na programação. Mesa ocupada de se fazeres. Um Sorriso somente foi visto quando descia os degraus com pressa, eternamente. O dia estava lindo, ele queria ver o mar.
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