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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Qualquer um de filtro branco

Não tenho nada contra a pós-modernidade. Nada mesmo. E nem posso ter, pois até esse momento ainda sequer completei três décadas de existência (apesar de estar perto), o que me faz ser (mesmo que não quisesse) um dos filhos dessa pós-modernidade. Às vezes, quando converso com um carioca cinquentão amigo meu, percebo que não há como fugir de ser um filho da pós-modernidade. Não, esse cinquentão não é um careta barrigudo chato (tudo bem, um pouco barrigudo…). O cara é muito bem humorado, e deixa muito garotinho juvenil que conheço no chinelo. O que me faz perceber essa pós-modernidade é o trato que a rapaziada em geral tem com as tranqueiradas do dia-a-dia. Segundo esse amigo meu, lá nos idos dos anos 80 – nesses tempos eles é que eram os modernos – era muito raro ver alguém fazendo essas coisas, mesmo os que tinham muita grana (pelo menos no Brasil), e o foco da geração não era esse (além, é claro, da tecnologia que ainda não existia não só por aqui). Não tem nada a ver com ser capaz ou não. Nada a ver mesmo. É o lance de estar focado. Enfim… Mas esse não é nem o assunto do qual vou tratar.

          Não tenho nada contra a pós-modernidade. Nada mesmo. Já disse e retomo. O que me deixa às vezes perplexo é a mudança – e também a queda – de alguns padrões tão arraigados na vida cotidiana, e que pareciam, de certa forma, imutáveis e indispensáveis. Estava eu um dia pensando, após falar com meu pai pelo telefone, sobre um hábito que, durante longos anos, fez parte do meu ambiente familiar: fumar. Fumar era algo comum – e, de certa forma, inofensivo e fundamental – para quem foi adolescente durante um longo período que se iniciou sabe-se-lá-quando e que vai mais ou menos até o final da década de 90. Nesses tempos (não posso esquecer de dizer que considero os anos 90 a época de um pensamento só), qualquer um comprava facilmente um maço de cigarros em qualquer padaria ou bar para levar para a mãe, pai, avô, irmão, primo ou qualquer um sem ser questionado, independentemente da idade. Era comum discutir com amigos qual marca de cigarro que se iria fumar ao crescer. Cansei de ver, ao fazer compras com minha mãe, mulheres e homens colocando pacotes de cigarro em carrinhos de compra no supermercado, como um item da compra do mês. Durante muito tempo – muito tempo mesmo – o cigarro foi associado a uma sensação de maturidade e responsabilidade. Os poderosos fumavam. Os atores de cinema mais badalados fumavam. Os pais fumavam. Os irmãos mais velhos fumavam. Os intelectuais faziam seus longos discursos de posse de um longo cigarro – de filtro branco, geralmente – na mão. O primeiro cigarro significava muito mais do que simplesmente fumaça: significava estar próximo (pelo menos de alguma maneira) daqueles que todos queriam, de certa forma, ser.

          Na pós-modernidade não se fuma. Sou ex-fumante, e sei disso. Não defendo de maneira alguma o hábito de fumar. Também não sou fiscal de fumaça dos outros, já que não há nada pior que ex-fumante chato. Posso dizer que foi difícil abrir mão do cigarro, não só pela quantidade de cigarros fumados por dia (uns dois maços, mais ou menos), mas também por tudo que já foi escrito anteriormente. Largar o careta (gíria para cigarro) significaria ter de abrir mão de um montão de outros hábitos, como café, chocolate, ver filmes de madrugada, chá, Halls, pelo menos nas duas primeiras semanas, de acordo com algumas receitinhas milagrosas. O interessante é que abrir mão dos hábitos ajudava muito, já que fumar – como eu já disse – vai muito além de aspirar fumaça. Talvez, nesse ponto, somente quem já fumou entenda…

          Antes que me esqueça, não é à toa que os maços de cigarro trazem estampadas aquelas fotos. De certa maneira, elas tiram a beleza do maço e o glamour da coisa. Considero uma sacada mais ou menos feliz do idealizador. Muita gente que conheço diz não se importar, e até brinca com o fato, mas para quem já fumou antes dessas sanções sabe a diferença – e olha que a indústria do cigarro não precisava investir tanto em estética quanto investe hoje. No momento em que a sanção pegou, uma das marcas até começou a imprimir um rótulo a mais para que se pudesse cobrir as imagens, o que também foi proibido. Ou seja, fumar, de uns tempos para cá perdeu muito da sua beleza (para não dizer toda ela), o que, pelo menos para mim, faz com que a moda de não fumar (lembrando Caetano) realmente pegue. Como amostra final, lembro de uma cena que explica bem a idéia de glamour: Durante alguns anos, meu pai, típico metalúrgico do ABC (e que não fuma há nove anos), sempre pedia para que alguém comprasse um maço de cigarros sempre do mesmo modo, alguns poucos minutos antes de ir para o trabalho: entregava o dinheiro e dizia “Qualquer um de filtro branco”. Ele esperava, pegava o maço, se despedia e ia para o trabalho. Era como se fosse parte de seu uniforme…

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