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Não ofereça Keep Cooler para Mário Bortolotto

Há uns dias atrás, passando os olhos pela Internet nos momentos de saco-cheio de pesquisa acadêmica, me deparei com uma notícia que conduziu minha cabecinha para aí uns oito, talvez nove anos atrás, não tenho muita certeza (a velocidade dos acontecimentos e minha ânsia cega fizeram com que não sobrasse muita coisa em minha memória desse tempo – se é que me entendem…). Eu ainda me encontrava em Santo André por esses tempos e, se não me engano, completamente no núcleo da esbórnia poética (prefiro chamar assim), mais precisamente localizado no cruzamento das ruas Elisa Fláquer e Álvares de Azevedo, entre três bares, um calçadão, uma loja de instrumentos musicais e Cds, transitando entre a míriade de malucos, cigarros, bebidas, substâncias ilegais, poesia, música de violões e mais-sei-lá-o-quê e o-que-pudesse-aparecer-a-qualquer-momento. Foi nesse lugar que percebi do realmente são feitas as páginas de Camões, onde bebi  dos versos de Keats, fumei dos cigarros de Quintana e me encharquei completamente nos enlevos da verdade de Wallace Stevens, além, é claro, de experimentar aquela sensação única que se tem (e que o Abujamra já explicou tão bem) ao se pousar uma caneta ao término de um verso, conto, ou qualquer outra coisa qualquer que se escreve.

Em uma dessas noites quentes de verão (lembrando Cazuza), após o fechamento dos bares e no caminho para um outro local, foi que me chegou à mão, através de um dos diversos tipos que  encontrei durante os tempos de recreação noturna, e que geralmente nem se sabe o nome (e que  na verdade, nem faz diferença saber), uma revista-zine-não-periódico-não-literário-não-circulante, daquelas xerocadas e cheias daquele material tridimensional, composto de concreto, álcool, trechos de filmes, literatura e fumaça de cidade. Um tempo depois, li o zine. Entre poesias, mini-artigos sobre Einseinstein e James Dean (creio que eram esses os assuntos), constava um conto que falava de um cara que conhecia uma garota em seu prédio (ou sei lá onde) e a coisa ficava meio entre o sexo embalado por Goulard de Andrade, Keep Cooler, uma garrafa de Orloff perdida na geladeira e Nina Simone. O conto soava meio como o resultado de uma conversa entre Nélson Rodrigues e Rubem Fonseca escutada de canto de ouvido em algum balcão de bar. No geral, a coisa soava meio noir, e trazia no rodapé o nome de um tal Mário Bortolloto, além de citar um grupo do qual o referido participava: Cemitério de Automóveis. Interessante a coisa. Um tempo depois, o zine sumiu. O que ficou desse zine, juntamente com a estória, foi aidéia de fazer um outro no mesmo molde, e que, obviamente, não se realizou (o xerox ficaria caro, e eu não estava disposto a beber umas cervejas a menos em prol da empreitada). O tal zine teria fotos, um poema principal escrito sobre a foto de um Kildare em cima da uma máquina de escrever de onde sairiam os escritos selecionados e editados, e  sei-lá-mais-o-quê. Tinhamos até um nome, retirado de um filme chinês assistido por mim e meu sócio na empreitada na mais pura coincidência, em uma dessas noites que se perde procurando algo: O clube da sorte e da felicidade. Enquanto pensávamos no que faríamos, andávamos procurando inspiração. A Santo André da época era bem generosa a esse respeito. Sempre havia alguma coisa interessante pra fazer, que poderia ser ir ver os quadros do maluco Johnny Lazarinni (acho que ele esteve no programa do Jô Soares uma dia, sei lá) expostos na Casa do Olhar, ir aos recitais e saraus na Casa da Palavra, ver as edições do Revolucionarte, assistir aos shows (gratuitos) na Concha Acústica, ou dormir na casa dos hippies em Paranapiacaba (que era o antigo cinema da cidade, hoje tombado pelo patrimônio histórico), sem esquecer dos passeios noturnos habituais, com literaturas e afins. O zine não aconteceu, e, na real, gosto muito mais  de  movimento do que de papel xerocado (apesar de não serem coisas comparáveis…). Correr atrás do zine significou, na época, correr atrás de um montão de coisas para rechear sua tridimensionalidade. A Santo André de hoje já não é mais a mesma cidade – e nem deve ser. O centro está virando uma espécie de ponto de passagem, graças ao mais novo empreendimento universitário da região. Alguns amigos meus é que gostaram da mudança, já que a residência deles próxima ao empreendimento praticamente duplicou de valor nesse meio tempo…  Afinal, esse nem era o tema da conversa…

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