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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Um dia de silêncio

Cada um tem sua história. A minha é a do silêncio. Justo eu que falo em muitas línguas e que anuncio a comunicação para a paz entre os povos, sou eu que sou o filho do silêncio.

Então aquele dia eu estava me contraindo com a idéia de que ninguém viria falar comigo. Foi aí que eu percebi que esse não era um dia de falar. Foram-se os dias de ter companhia, foram-se os dias de sair com amigos, foram-se os dias das discussões e brigas, foram-se os dias da fina e tão frágil poesia de duas pessoas que conversam e, sem nunca terem certeza, com o brilho nos olhos e o tremor das mãos, se encontram. Foram-se todos os dias. Hoje é o dia do silêncio.

Então eu me esgueirei pelo corredor fugindo da sombra e esbarrando na luz. Eu conhecia essa sensação de estar sozinho e não ter o que falar, e, principalmente, eu conhecia o eco que acontece na minha cabeça quando as palavras não podem sair. Chegar do outro lado e voltar. Eu conhecia essa dor, por isso me esgueirei no corredor. Fiz o movimento silencioso desviando do movimento brusco daquele que tem os olhos vendados. E pode sempre me pegar. Que pode me ceifar.

Eu fui andando na ponta dos dedos, me sentando, me acostumando com a bagunça, me consolando dizendo que era um dia para descansar, procurando outras coisas para fazer, e não fiz nada.

Quem é o artesão. Quem é o torturador que com o tempo vai perfurando esses poços profundos em mim. E ele disse que nunca mais voltaria quando eu declarei o cessar-fogo e decidi morar em outro lugar. Ele disse que nunca mais voltaria e eu acreditei. Mas eu sabia, sim eu sabia, que ele voltaria. Eu sabia que ele se esgueirava pelos cantos enquanto eu desfrutava os dias de Sol.

É só a garantia de um dia, só a garantia de um dia sobreviver, o resto eu não sei mais. Foram-se os dias. Hoje eu sobrevivi. Eu aguentei e levei ele, e como o invadido com o invasor eu o acalmei, até que ele pudesse conversar ao ponto de não mais ser perigoso.

Eu não estou mais forte. A vitória de hoje não garante que um dia não venha uma tristeza que possa me destruir. Mas não importa. Não há garantia de sobrevivência, não há garantia de destruição. Só vejo hoje. E qual é a garantia, afinal, se um mundo, esse é um mundo, em que eu não posso ver de onde venho e para onde vou. Só tenho um conhecimento. Ontem eu morri, hoje estou vivo.

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Uma resposta

  1. Não gosto muito desses dias de silêncio… essas fazes de transição são completamente confusas

    porém, o texto: espetacular

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