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    Especial FLIP 2008
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água.

Eu não gostava de chuva, até que percebi que só em dia de chuva ela pegava o mesmo ônibus que eu. Eu lembro do primeiro dia que a vi. Ela entrou no ônibus afobada, perguntei se era aquele mesmo que ia pra universidade, passou o cartão e sentou, quase se jogando. Colocou a mochila rasgada no banco da frente, esticou as pernas e colocou os fones no ouvido. Ela sempre está com aqueles fones. Eu não conseguia parar de olhar para ela, fiquei com medo dela me notar, mas ela se entretinha demais com a música e a paisagem pela janela, nem me notava.
Ela tinha o cabelo todo despenteado porque ficava jogando ele de um lado para o outro muito intensamente, como se daqueles movimentos fossem um jeito de dizer alguma coisa para o mundo.
Em determinado momento, ela chorou. Não sei, acho que ônibus passou por algum lugar importante, vai ver aconteceu alguma coisa triste naquele cruzamento. Ela não fazia barulho nenhum, chorava quietinha, as lágrimas escorriam obedientes e silenciosas, como se já conhecessem muito bem os caminhos daquele rosto, ainda tão novo.
Torcia para chover. Em dias de sol, não importa quão frio estivesse, ela não pegava o ônibus. Devia sair por ai andando, com a sal que sempre na mochila esvoaçando.
Eu já tinha decorado suas manias: chegava afobada, mochila no banco da frente, pernas esticadas, fones no ouvido, cabelo pra lá, cabelo pra cá, bateria imaginária e o all star no ritmo de uma música que eu não ouvia. E o choro, que vinha, uma hora ou outra ele vinha. Depois ela voltava a sorrir, mas ela sempre chorava em algum momento. Só depois de uma semana de chuva incessante é que percebi que aquele choro não vinha no cruzamento, ele vinha com a música. Alguma música daqueles fones fazia era chorar. O que será que era? Uma bossa nova? Era um blues dolorido? Eu sempre achei que fosse um samba saudoso, mas vai saber.
E ela ia embora, um ponto antes do meu…Limpava as lágrimas do rosto, apertava o parar, desesticava as pernas, colocava a mochila nas costas e descia, com os fones na orelha.
Será que ela acha que o mundo tem trilha sonora? Tá andando por aí, como se aquela música coubesse entre seus ouvidos, na cabeça dela. Queria saber quais eram as suas notas, eu, que já era apaixonado por aquela melodia.
Ontem choveu, mas ela não estava mais no ônibus. Fiquei o caminho todo procurand pelas ruas, pelas avenidas, em todas as calçadas. Até que eu vi a mochila rasgada e o all star, ela com os fones de ouvido e toda molhada. Eu não sabia se ela chorando, mais…
Desci do ônibus, tirei o fone do ouvido dela e ouvi. Chorei, segurando o cabelo molhado dela, que agora tava sossegado. Eu nunca mais peguei ônibus em dia de chuva.

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2 Respostas

  1. Adorei, adorei. E o meu mundo tem trilha sonora…

  2. Aiiii ameiii esseee!!!!

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