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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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~Prólogo

~  Inglaterra, 1856

O sangue escorria por suas costelas e abdômen, a carne parecia em chamas, as gotas pingavam no chão à 10 metros a baixo. Em cima de uma faia no meio da floresta ele estava à espreita. O último sanguessuga passara faziam 10 minutos, agora era a sua chance de escapar.

Estava quase anoitecendo quando seu parceiro desaparecera de seu posto, mais tarde ele viria a descobrir que fora até o covil inimigo para lhe entregar; ele confiara demais em quem não deveria, falhara, e isso era inaceitável. Agora eram quase 11 horas da noite e ele já fora traído, perseguido, ferido, e esperava uma chance de sair dali.

Pulou do galho em que se encontrava fazia quase uma hora e correu, com toda a força que ainda lhe restava; se rumasse para o sudeste logo alcançaria a estrada que levava até a cidade, e isso facilitaria a sua fuga. Sua energia já não era mais a mesma depois do dia todo de campana na floresta e a bala de prata entranhada em suas costelas impedia a sua transformação, havia quatro sanguessugas à sua procura pela floresta, estava numa situação em que se era quase impossível sair. Já não sentia mais o cheiro dos vampiros, mas sabia que eles ainda estavam ali, revirando cada pedaço de terra atrás dele.

Faltavam somente 8 Km para alcançar a estrada quando outra bala viera em sua direção, rompendo a carne da perna esquerda e queimando feito brasa. Ele caiu, urrando de dor, precisava ter forças para sair dali. Agarrando-se nas raízes á sua frente ele se levantou e continuou a correr, alguém estava bem atrás dele, mas ele lutaria até o fim.

~

Ela corria, sentia o cheiro da terra molhada, das árvores. Não fugia de nada nem ninguém, corria por prazer. Mas talvez fugisse… Do seu próprio destino. Destino esse que agora chegara de vez contrariando seus instintos, seus pensamentos e sentimentos. Seria possível fugir?

As palavras do pai na noite anterior povoavam seus pensamentos, a atormentavam; desde muito tempo atrás sabia que fora criada para um objetivo, mas era a primeira vez que este batia em sua porta, a primeira vez que tivera a confirmação de que fora marcada a ferro quando nascera.

“…- E como tem sido as suas aulas ultimamente, minha querida?

– Acho que cada vez mais puxadas, mas nada que me seja impossível.

– Ótimo meu amor, ótimo! Sabe, eu tenho tido algumas conversas com o seu professor, ele me disse que você já está quase no final de seus estudos, e que também se destacou muito em todos os ensinamentos práticos. Acho que talvez já esteja na hora de você começar a usar todos eles, o que acha?

– O que você quer dizer com isso?

– Penso que já está na hora de você sair com os guerreiros para uma missão ou outra. O melhor jeito de você aprender as coisas de pressa é com a prática.

– Pai, você sabe que não é isso o que eu quero para mim. Sabe que não concordo com a idéia de perseguir e matar lobisomens apenas por uma guerra de dez séculos atrás. Eu não sou assim.

– Você foi criada para isso, Roselyn! Se não formos atrás deles, eles virão atrás de nós. São animais irracionais e sem sentimentos, e o destino que foi escolhido para você é proteger o seu povo deles.

– Mas…

– Apenas aceite-o! Você vai à próxima missão.”

Os quilômetros passavam rápidos demais sob seus pés, a raiva queimava por dentro, consumia. Mas não ficaria assim.

Um urro de dor agoniado ecoou à sua esquerda, no meio da floresta, ela estacou. Conhecia esse som desde pequena, repetido e debochado por todos do clã, um lobisomem.

” – A sua sina é matá-los, Rose…”

– Não!

Sem pensar entrara na floresta, procurando o cheiro do cachorro ferido; ela ia mostrar que ninguém diria a ela o que fazer ou como ser, ninguém escreveria sua vida por ela.

Ela ainda não sabia dos perigos que corria, era só uma garota, mas não por muito tempo.

~

Seus pés escorregavam na terra úmida, as raízes e galhos pelo caminho o faziam tropeçar a cada passo, não só contra a morte e a tortura, estava correndo também contra o tempo. Sentia o cheiro do sanguessuga, sentia sua respiração, e sentia que estava muito, muito perto. Não importava, lutaria até o fim, o seu ou o daquele que traíra seu clã. Porém, pelo modo como sentia a prata entrando em sua carne, previa que seria o próprio fim.

Não conseguia mais se segurar em pé, precisava se transformar, precisava se esconder. Sem mais força, caíra no chão, rolando morro a baixo por alguns quilômetros e batendo com força a cabeça em uma árvore, ficando inconsciente por alguns segundos. Estava perdido.

Ele estava lá, caído; sangrava muito e parecia morto. Tinha os cabelos negros cheios de sangue espalhados em volta do rosto fino, completamente sujo de terra, vestia apenas um calção muito largo, deixando à mostra os ferimentos à bala e os arranhões por todo o corpo. Parecia apenas um menino, talvez um pouco mais velho que ela, mais ainda sim um garoto comparado com os outros que estava acostumada.

Hesitante, se aproximou. Qual seria o gral de perigo de um cachorro ferido de morte? Até onde poderia levar essa loucura? O que estava fazendo ali, afinal? Ajoelhou-se bem devagar ao lado do corpo caído e tocou o ombro exposto; era quente, muito quente para ela. Ele se contraiu, gemendo de dor.

Antes que pudesse pensar em se defender uma mão já segurava seu braço preso nas costas, estava de pé e a respiração ofegante dele queimava seu ouvido.

– O que foi, sanguessuga, não aguentou a curiosidade? Mesmo desse jeito ainda posso te machucar e muito, achou que um lobisomem ferido era divertido? Pois bem, agora você vai me ajudar a sair daqui.

– Não seja idiota, eu estava tentando te ajudar!

– Own, claro que estava! Afinal, é próprio de sua raça isso, não é!? Que gentileza! Agora vamos e fale pros seus amiguinhos que se não me deixarem ir é a sua cabeça que eles vão ganhar!

– Eu estou sozinha. Não vim com ninguém.

– Ou você colabora por bem ou por mal, eu não tenho paciência.

Arrastando ela pelos braços ele começou a andar.

– ME LARGA SEU CACHORRO IMUNDO!

– Se não…?

Com rapidez e força, ela o puxou ao chão e pisou em sua costela ferida.

– Eu não sou uma garotinha indefesa, e acho bom você calar essa boca antes que achem a gente.

Espantado, ele sorriu.

– Ora ora, estão mandando cada vez mais crianças p’ra fazer o trabalho sujo.

– Posso dizer o mesmo de você, agora fica quietinho.

Ajoelhou-se e limpou um pouco da terra e do sangue em suas costelas, deixando o ferimento à mostra. Colocou os dedos em sua carne, tirando a bala que já começara a se desintegrar, enquanto ele urrava de dor.

– CALA A BOCA! Ou não vai adiantar de nada tirar essas balas, eles virão terminar o serviço.

– Você é louca ou o que, garota!? Porque ‘tá fazendo isso?

– Não é da sua conta.

Sem nenhuma delicadeza puxara a perna esquerda de sua bermuda e retirara a outra bala.

– Você é gelada.

– Eu vou distraí-los, cai fora daqui e não chegue mais perto, entendeu?

– Quem você pensa que é p’ra falar assim comigo, hein menina!?

– A pessoa que pode te colocar as balas de volta.

Sem mais nenhuma palavra ela saiu, indo ao encontro daqueles que ela sabia estar atrás dele. Eram quatro vampiros de seu clã, que ela conhecia bem demais e sabia o que fazer. Estavam a poucos quilômetros e já podiam sentir o cheiro dela, estariam ali em segundos.

– Menina, o que faz aqui sozinha!?

– Sabia que tem lobisomens nessa mata? Estávamos no meio de uma perseguição! Poderia ter sido baleada ou ele poderia ter te arrancado a cabeça!

” Não sabe o quanto isso passou perto de acontecer”

– Estava caminhando. Lobisomens, é?

– Droga, garota! Vamos ter que te levar embora, seu pai vai matar a gente!

– Mas chefe, e o cachorro?

– Melhor um cachorro perdido do que a filha do cara perdida. Vamos!

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