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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Beatriz

Beatriz não gostava de trânsito, não gostava de ônibus, não gostava do calor dos transportes públicos. Era como qualquer menina. Classe média, último ano na universidade, três relacionamentos estáveis findos, emprego part-time na livraria, pais separados e um monte de meio-irmãos. Beatriz não era bonita, nem se vestia para isso. Andava com o cabelo preso em um rabo de cavalo que ia de um lado para outro de acordo com o balanço do ônibus.

Beatriz odiava quando o botão PARAR do ônibus não funcionava, porque sempre o que estava perto dela que não funcionava:“que sorte”. Levantou, seguindo com o rabo de cavalo o ritmo do ônibus. Foi até o botão que sabia que funcionava, e a sua mão foi prensada por outra mão, que, ao que tudo aparentava, também queria apertar aquele botão, o único que funcionava.

“Desculpa”, disse o rapaz, que não era bonito, mas se vestia muito bem.

“Foi nada”, respondeu Beatriz que tinha ficado estática com o sorriso singelo do moço. Beatriz não sabia disfaçar. “Você vai para onde?” O moço perguntou, abrindo mais o sorriso que tinha paralisado Beatriz e o seu rabo de cavalo.

“Vou aqui para rua de trás”, respondeu pensando que finalmente alguma coisa ia ser direta na sua vida, andava cansada das burocarias.

“Posso te acompanhar, até lá, quem sabe, eu consigo saber seu nome e seu telefone”

“Eu sou Bia, digo, Beatriz. Mas chama de Bia, que Beatriz parece meu chefe falando”

“Tá certo, Bia, quer anotar meu número?”

Bia abriu descoordenadamente a bolsa, procurando seu celular.

“Segura, por favor?”

O rapaz segurou a bolsa enquanto Bia nervosa procurava. O rapaz tirou a bolsa da mão dela e lhe deu um beijo, demorado, que desmanchou o seu rabo de cavalo.

“Isso é um convite para entrar na sua vida?”, perguntou Beatriz, orgulhosa da sua frase poética.

“Não, Bia, isso é um assalto.”

O rapaz de sorriso singelo saiu correndo com a bolsa e o celular que ela não tinha encontrado…

Beatriz, três relacionamentos estáveis findos, uma bolsa e um celular mais pobre, voltou para casa.

 

 

 

(Depois de um longo inverno, a filha pródiga retorna ao lar. num dia muito especial!)

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5 Respostas

  1. E é claro que o assaltante tinha que tirar uma casquinha…

  2. por acaso você se inspirou nessa notícia aqui?
    http://oglobo.globo.com/cidades/mat/2009/05/06/assaltante-beija-vitima-durante-roubo-no-espirito-santo-755719554.asp

    hahahaha…

    *eu adoro andar de circular.. na verdade, boa parte das epifanias que eu tenho me parece que aconteceu enquanto andava de circular…

  3. Fiquei triste. Não gosto de assaltos, pior ainda quando se leva alguma coisa a mais que dinheiros e coisas. Roubar mais um beijo é sacanagem!
    Mas gostei do texto. Não fiquei feliz com ele não, mas gostei. Se a sua intenção era atingir o público, conseguiu!

  4. o primeiro parágrafo disse: só podia ser da rosa.
    o segundo disse: imprevistos sempre são um pouco pior do que não conseguimos prever.
    o diálogo todo disse: que parecia muito meloso pra ser rosa, estava muito cor-de-rosa
    a última fala disse: imprevisto sempre são muito piores do que o que não queremos prever.
    o último parágrafo disse: só podia ser da rosa.

  5. muito bom!

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