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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Depois da tempestade

Quase tudo está caído, os cantos, as ruelas e as estantes, está tudo sujo.

Recolho algumas lembranças mortas, como gatinhos afogados, e os enterro no jardim, lembro-me que me tinha esquecido deles e choro de novo, com muita ternura, como se eles tivessem acabado de morrer. Acabo encontrando na água parada e turva alguns brinquedos estragados, sapatos pequenos que mais parecem roupinhas de ameixa, sujos rasgados, corro para impedir que uma fita vermelha, desfiada, e uma flor desbotada de crepom escoem com a lama para dentro do bueiro.

Lembro-me do meu vestido azul claro, mas quem sabe se, o que me lembro, é de como o encontrei depois da última tempestade? Quem sabe se não era marinho, ou mesmo vermelho com lantejoulas?

Andei mais um pouco além do jardim e a encontrei, toda molhada, uma menininha, com a franja encharcada grudada na testa, sem sobrancelhas revelando o formato exato do seu lindo rosto, uma indiazinha pequena, morena e bonita.

Ela segurava com muita força, pelo pé, uma boneca que bocejava, na outra mão não havia nada, mas também matinha-se fechada a toda força, devia estar segurando outra coisa que se perdera na chuva. Tentei abrir suas mãos, mas elas estavam rígidas, frias, agarrava o pézinho da boneca com tanta força como se fosse uma corda que pudesse salvá-la da correnteza. Peguei ela no colo para levá-la pro meu jardim, iria colocá-la no lugar de sempre, do lado da minha gatinha amarela que morreu atropelada.

Ela estava tão mole! Exceto pelas mãozinhas que jamais largavam a boneca.

Deitei ela na grama, acariciei suas bochechas fofas, passei de leve os dedos sobre onde estariam as sobrancelhas, bem de levinho, como se estivesse machucado.

O minúsculo brinco com uma pedrinha vermelha ainda estava na orelha dela, como no dia em que sua avó tinha lhe dado. Lembrei-me de quanto chorei quando ele sumiu.

Cavei fundo. Não era a primeira vez que ela aparecia depois de uma tempestade, com o rosto sujo de lama, saída do esconderijo. Cavei fundo, mais e mais fundo. Eu sabia que podia me esquecer dos brincos, como me esqueci do que ela segurava na outra mãozinha, antes de se perder. Eles não estariam lá da próxima vez. Cavei desesperadamente, estafei-me até que não pude mais. Olhei para ela com os olhos ardentes, passei um pedaço da sua camiseta vermelha pra tirar uma manchinha de barro perto do nariz. Arrumei seus lustrosos e escuros cabelos, coloquei-a cuidadosamente dentro da terra. afofei um pouco de grama e coloquei embaixo de sua cabeça, deitei a boneca sobre seu peitinho magro, sobre o desenho colorido da camiseta vermelha, cobri-a com a coberta marrom até os ombros. Sentei ao lado dela e fiquei olhando seu rosto, sorri um sorriso que se desfez em uma careta dolorida, abracei um bom tanto de terra e cobri seu rosto dela. Algumas mechas do cabelo ainda coloriam a lama. Puxei mais um pouco de terra e os cobri por fim. Esgotada, deitei em cima da terra mexida, enfiei os dedos na terra e adormeci.

Não sei quanto tempo se passou. Acordei tonta, com a cabeça tão doída que mais parecia machucada por dentro, meus olhos ardidos pareciam cheios de areia, minha boca guardava uma saliva branca, grudenta, meu corpo se arrepiava e suava todo. Levantei-me e olhei para as nuvens que velavam o sol, senti o mormasso. Tudo fedia mofo, tudo estava sujo, com sujeira úmida. Andei um pouco a esmo catando brinquedos quebrados no chão, um enfeite de vidro trincado, um passarinho morto e um pé de patins.

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2 Respostas

  1. Olha so… resolvo entrar na sua pagina, e pego um texto saido do forno.

    Por qualquer R$1,99 analiso o que escreveu… já o aluguel do Divã fica em 100 pilas.

  2. Gostei muito Alda.

    é triste, tem terra e tem água. dá uma sensação de luto, mas, embora ela não diga nada, tenho certeza que ela acordou melhor do que foi dormir.

    bjo

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