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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Infância

Não puderam ser mais aquelas crianças sentadas no sofá. No fim dos dias percebeu-se que o grupo havia se desfeito, cada um para um lado; cada qual agarrando-se a qualquer fortaleza imaterial que despontasse num raio de alguns anos. Peixinhos perdidos em uma existência críptica. O mundo não se revelou como se esperava e o sofá foi virando uma coisa amorfa, moldado pelos cachorros sarnentos que passavam por lá, castigado pela chuva e dominado por um bolor verde. A casa da infância conquistada, a pequenez tomada violentamente por instâncias maiores, foi no dia de São Cosme e Damião, quando lá no quintal do Seu Dai a molecada viu o velho preto matar a galinha. O sofá ficou ao relento por duas semanas. A imagem da galinha retorcida, os olhos vazios, o sangue sulcando o chão empoeirado, as gotas demarcando aquele tempo imensurável e o galinheiro cheio de bicos e penas, tomado por revolta. Viveram em silêncio por uns tempos, fuzilados pela lembrança. Pouco a pouco foram voltando ao ponto de encontro, primeiro a criançada da rua de cima, depois a da rua de baixo. O teor das conversas alterou-se e o ambiente foi contagiado por uma sobriedade súbita, inesperada para tão nova idade. Depois do primeiro baque, houve outros, naturalmente, embora de ordem menos metafísica. Separações dos pais, adoecimento de algumas avós e, para as meninas, a primeira menstruação. E quando dos quinze anos do mais velho da turma, o quarteirão sofreu um novo atentado. De manhã, ao acordar, os irmãos da casa quatro saíram à rua para comprar pão na padaria. Na esquina, avistaram uma roda de alguns poucos transeuntes e, no centro, um corpo. Era Dália, impúbere ainda, todo o peso caído, atarracada ao chão. Por detrás do emaranhado de cachos, uns filetes ramificados rubros já incrustados no asfalto , desenhando por cima das marcas de pneu e, ao invés de penas dispersas, contas do seu colar ladrilhando o chão, que os meninos imediatamente puseram-se a catar.

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3 Respostas

  1. acho que eu percebi um padrão seu, posso estar errado, mas acho que você alterna entre alguns textos que são bem abstratos e parecem bem pessoais e esses que tem uma estrutura mais tradicional e um narrador que vê as coisas de fora. você passa mais tempo nos abstratos, mas quando volta pra esses mais concretos acho que volta melhor, eles ficam mais complexos e profundos também. acho isso legal. acho que você está evoluindo e se modificando e talvez chegue num meio termo entre esses dois extremos. mas o que vai acontecer é melhor sempre deixar acontecer.

  2. unidade perfeita e imagens ricas.

    as penas dispersas são o exato oposto das contas do colar de Dália ou o melhor seria “em vez de penas”?

  3. Gosto muito desse! No geral vejo, além das palavras difíceis que deve ser gosto do povo da letras, muitas imagens doídas da memória comum e das impossibilidades nossas, do nosso tempo. um prazer ler.

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