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    Especial FLIP 2008
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Retorno

Maria das Dores decidiu fazer uma segunda visita ao padre. Desta vez só. Embora temesse que o marido soubesse de algo, precisava correr o risco, pois sentia-se muito triste e precisava contar seus problemas para alguém que a ouvisse e a aconselhasse. O padre… como se chamava mesmo? Não se lembrava. Foram apresentados mas ela estava muito tensa naquele instante. Só se lembrava dos olhos negros penetrantes observando-a calmamente. Da boca de voz agradável e fala mansa. Dos ouvidos atentos que escutavam pacientemente sua comprida história. Das mãos envergonhadas que impacientemente se mexiam, sentindo-se inúteis em tal ocasião e procurando lugar para se esconderem.
Foi, discretamente, até a igreja. Levava uma sacola de feira para não levantar suspeitas. Fez um caminho esquisito e nada usual, ziguezagueando pelas ruas para despistar eventuais conhecidos que, por qualquer motivo, tentassem segui-la. Entrou discretamente na igreja, com os olhos amarelos vigilantes, observando atentamente tudo ao redor.
Encontrou uma criança simpática diante do altar. Era a filha da sacristã.
― O padre está aí? ― Perguntou, timidamente.
― Está sim! Ele está com a minha mãe lá na sacristia. ‘peraí qu’eu vou chamar ele pra você!
― Obrigada…
Maria das Dores sentou-se no canto direito do primeiro banco, na fileira de bancos à direita do altar. Parecia tentar se esconder sob o pilar ao seu lado. Alguém que entrasse na igreja pela porta lateral direita não a veria. Queria ser pequena, passar despercebida, entrar e sair do templo sem deixar rastros. Mas sentia-se enorme, grande demais para ser notada.
― Ele falou que já vem! ― Disse a garota. ― O padre não gosta que eu entre na sacristia quando ele está lá com a minha mãe. Falou que eles estavam resolvendo um negócio importante da igreja, mas que ele já vem.
― Obrigada.
O padre demorou-se um pouco. Maria das Dores estava impaciente. Queria ficar naquele local pelo menor tempo possível. Queria aconselhar-se e ir para a casa, mas o padre se demorava. Havia ido em má hora à igreja. O padre apareceu com um sorriso de satisfação ao reencontrá-la: estava ajudando mais uma alma.
― Oi! Que bom ver a senhora novamente! Tudo bem?
― Tudo… Eu vim aqui porque queria conversar um pouquinho com o senhor…
O padre fez um gesto à garota para que se retirasse. Ficaram a sós diante do altar. Maria das Dores contou-lhe as últimas novidades. O marido, após um curto impulso de juízo, estava ainda mais fanático e a acusava de ter parte com o diabo. A velha televisão, presente de casamento dado por sua falecida mãe, fora vendida a baixo preço. Os mantimentos que ela recebia da igreja eram de grande ajuda, mas ela precisava comprar os alimentos perecíveis, e como estava sem energia elétrica em casa, não podia usar a geladeira. O sacerdote a escutava com atenção. Era a única pessoa no mundo que a escutava.
Ela precisava de uma palavra amiga. O padre era seu amigo. Maria das Dores contou-lhe sobre sua infância triste, sobre a vida miserável que tinha. Contou-lhe como era bonita na sua adolescência, embora tivesse o nariz um pouco fora dos padrões e os dentes amarelos e tortos. Tinha a pele rosada, que fazia um bonito contraste com seus olhos amarelos. Sua pele era menos dura e tinha menos marcas de judiação. Sua boca fina era levemente úmida e não tinha feridas. O padre olhava disfarçadamente para as próprias mãos, aveludadas, que desta vez sentiam-se mais à vontade, e mordia, de leve, o beiço.
O sacerdote, sabendo da infância pagã de Maria das Dores e de sua aversão ao fervor religioso do marido, fazia-se de psicólogo, buscando aliviar os sofrimento de das Dores sem dizer passagens bíblicas ou nomes como Deus e Jesus. Agindo assim, ganhava a simpatia da pobre mulher que falava baixinho encarando os desenhos do piso e depois olhava para ele com olhos de cachorrinho pidão. Era uma pobre alma frágil buscando palavras de conforto.
Após uma longa conversa, ela confessou ao padre que gostaria de vê-lo mais vezes, pois as conversas que tinham a faziam sentir-se bem. Porém, temia que o marido descobrisse que ela estava se aconselhando com um padre. O sacerdote propôs que se encontrassem na casa paroquial às quartas-feiras, dia de folga da sacristã, quando a igreja ficava fechada. Uma mulher entrando em uma casa não desperta suspeitas. Além disso, ela poderia usar um xale e um lenço na cabeça para disfarçar seu rosto.
― Mas… Eu entrar sozinha na casa de um homem? Se meu marido descobre isso vai ser pior!
― Eu sou padre. Fiz voto de castidade. Vão pensar que você é uma fiel em busca de aconselhamento.
Maria das Dores não aceitou a proposta. Discutiram outras possibilidades. Por fim, ficou acertado que se encontrariam na igreja às quartas. O padre deixaria a porta dos fundos destrancada e a esperaria dentro da igreja. Ela entraria sem que ninguém a percebesse, pois havia alguns arbustos próximos à porta.
― Qual é o seu nome mesmo? ― Perguntou, envergonhada, Maria das Dores.
― Padre Renato Batista. ― Respondeu, sorrindo.
Maria das Dores foi para a casa. No caminho passou na feira para comprar verdura para o jantar.

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