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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Passeio

Desci os dois lances de escada que me levavam até a rua. São Paulo de manhã é um inferno. Me contorci por entre os carros parados para atravessar a rua; aprendi uns 5 xingamentos diferentes no processo. Passei de baixo da janela da chérie, tudo fechado – a vida de filhinha de papai era bem diferente. Suspeito que ela freqüentava o curso noturno só para poder dormir até depois do almoço. A chérie era linda. Mulher mesmo. Daquelas que te fazem encolher diante da presença delas. Desbocada, gênia da sinuca e boa de copo. Nunca vi chérie sequer cambalear. Perder a compostura jamais. Era muito cedo, porém, para adentrar o mundo platônico. Às vezes, quando eu me pegava pensando nela, era meio dia e eu já tinha ido e voltado na mesma linha de metrô três vezes. Mas não hoje. Hoje eu tinha aquela entrevista de emprego. Ia poder parar de servir cafezinho para os ternos e tailleurs e me sentir útil no mundo. Meu sonho sempre tinha sido o de trabalhar numa livraria – esse grande clichê de todo pretenso escritor. Só que agora estava tudo muito chato. Imagino os camisas chegando e pedindo “aqueles livros grandes, pra por na mesa, de enfeite” ou as batas-morcego indagando sobre “aquele livro lá, que está no 1º lugar dos mais vendidos”. A propósito, li um artigo sobre isso outro dia no ônibus, indo para a faculdade. Sobre como o país regrediu literariamente. No ano de 81, estavam entre os mais vendidos: Cortázar, Proust e T.S Eliot. E agora essa carnavalização geral da leitura. O autor dizia que o povo tinha emburrecido; eu, sei lá, acho que mais gente aprendeu a ler. Mas as duas coisas podem ter andado juntas. Esse é o grande problema de ter superado a seleção natural, o número de pessoas burras no mundo não está diminuindo. E foi numa dessas que eu estava tendo dificuldades para descer do metrô. Porque tinha um senhor com uma enorme mala obstruindo a saída. Saí do trem com o cigarro já na boca, a mão no bolso procurando o fósforo. Acendi ali mesmo; lá em cima, com o vento, ia demorar muito e, além disso, aquele senhor tinha me deixado com o humor variado. Era só ter virado a mala na perpendicular, porra. Pisei na bituca, apaguei a brasa e segui pela rua estreita. Os guardadores de carro estavam jogando uma partida de dominó. Acho jogar dominó incrivelmente estiloso e viril. Me enchia de orgulho quando, pequeno, via meu avô jogar. Eu mesmo nunca tive paciência pra essas coisas. O boteco me criou de um jeito meio torto. Mas família é família e os laços são fortes – aprendi a nunca recusar uma cerveja. E foi por isso que quando o Carlão me gritou do outro lado da rua, já sentado na cadeira de alumínio, inaugurando o dia com uma Brahma geladinha, não pude recusar. Carlão era um cara da história, figuraça. Bebia demais, é verdade, mas era boa companhia. E declamava poemas como ninguém. Me dava arrepios ouvir Momento num Café ecoar do seu rosto inchado. Carlão conseguia recriar o espírito todo daquele tempo, aquele Zeitgeist, sem nunca nem ter lido sobre a época. Vai ver que para declamar Bandeira direito, bastava ser autenticamente boêmio e ter a voz meio rouca. Sentei-me à mesa, pedimos outro copo e um cinzeiro. Discutimos futebol, política e o novo filme do Gus Van Sant. “Acho que esse filme dele vai ser meio diferente. Desses que vão passar na Globo, bem tarde, e, ainda assim, com cortes. E dublado. Como é que você acha que faz pra ser dublador? É uma coisa que me interessaria”, aí ele acendeu o Derby dele e veio aquele cheirão que só pode ser de pólvora do Paraguai. Eu disse que não sabia, mas que esse filme is ser mais mainstream mesmo. “Mainstream?” “É…o contrário de underground…” “Porra, cara, mas aí você me fode com esse seu inglês.” E a gente deu risada. O Carlão começou a me contar a sua mais nova teoria de conspiração que envolvia o Sendero Luminoso, os Tigres Tâmeis e o Fatah – todos juntos. Lá pela quarta cerveja, estacionou um carro na frente do boteco. O cara saiu, deixou o rádio ligado e a janela aberta. Depois da propaganda da universidade tal e da operadora de celular xis, fui informado das horas. Onze e quarenta. “Fodeu!” “O que foi?” “Nada, cara, é que São Paulo de manhã é um inferno mesmo.” A entrevista do emprego já perdida, pensei que podia ficar ali mais um pouco, pegar um filme e depois passar lá na casa da chérie e perguntar se ela queria companhia até a faculdade. Quem sabe hoje eu não ganhava um beijo?

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2 Respostas

  1. Gostei muito. E sendo infiel ao nosso acordo de sermos críticos de verdade um do outro vou dizer simplesmente que está ótimo.

    bjo

  2. entrevista perdida.. vontade de se sentir útil ao mundo.. trabalhar numa livraria… quem sabe hoje eu não ganhava um beijo?
    que delícia!!! ótimas sacadas…

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