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eu nunca tive asas

Parou diante de mim tão discreta que me assustei quando me apercebi dos seus traços fortes: era linda. Tinha qualquer coisa de muito malicioso no jeito que desembaraçava com as mãos seus cabelos, e no modo como a língua percorria a parte de dentro do lábio superior, me fazendo estremecer todo, porque contrastava com um olhar perdido, quase autista, mergulhado em uma lágrima que estava sempre por cair, mas não caía nunca.
Suas asas vermelhas eram translúcidas e assim, de frente pro sol, pareciam vitrais de alguma igreja antiga. Ela se envergonhava das asas e eu sabia porque toda vez que eu as olhava elas se debatiam querendo se esconder. O farfalhar das asas fazia o meu cabelo todo voar. Ela, cuidadosamente, limpava os cabelos caídos na minha fronte com sua mãozinha pequena, sempre gelada demais. A gente se olhava por horas. Eu quieto, sem saber se ela entenderia a minha língua. Ela quieta, não se sabe ainda porquê.
Havia dias que nos víamos naquele mesmo lugar. Eu gostava de ir pra lá ficar sozinho, e assim fiquei por meses até ela chegar. Lembro tão claramente da primeira vez que a vi: achei que era um sonho, achei que era loucura, achei que era bonito demais. Nunca contei para ninguém, não entenderiam.
Agora ela fica diante de mim. Será que eu me aproximo? Será que eu falo? O que será que eu digo?

“Oi”

Ela sorriu. Deve tá achando engraçado meu nervosismo. Ela sabe que a presença dela me põe nervoso. Ela sabe que eu invento mil maneiras de pensar nela e não dormir.

“Você tá com frio?”

Ela continua sorrindo. Eu não sei se ela sente frio. Assim, com os seios descobertos, parece tão imponente. Dei um passo adiante. Ela não recuou. Dei mais um. Ela continua sorrindo. Será que essa mulher vai me enlouquecer? Será que eu já estou louco?

“Você entende o que digo?”

Ela quer me matar.

“Eu deixo, me mata!”.

Por que foi que eu disse isso?

Ela não entendeu, ainda tá parada, me olhando.

Eu cheguei mais perto. A respiração dela já se faz sentir no meu rosto. Arfa o peito de seios tão bonitos. Eu os pego. Quanta ousadia.

Ela sorri.

Eu continuo segurando seus seios agora eu vou me aproximando dos seus olhos autistas e beijo. Minhas mãos soltam os seios da mulher perfeita. Percorrem a cintura da mulher perfeita… percorrem as costas da mulher perfeita. Asas. Quando fui abraçá-la encostei em asas, molhadas, translúcidas, vermelhas.

Eu me afastei.

“Você não existe”

Ela saiu, humilhada. Não se jogou de onde estava porque poderia voar. Eu sei que ela chorou, porque aquela lágrima que nunca caía, caiu. E seus olhos outrora autistas agora me fixavam sinceramente.

Eu quis dizer alguma coisa. Ela começou a arrancar as próprias asas, urrando de dor.

Asas translúcidas vermelhas. Vermelho de sangue.

“Pára com isso!”.

Mas ela não parou.

Foi minguando. Sumiu… e, ao meu pé, uma poça de sangue cor de asas…

[I do, I do, I do believe in fairies]

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2 Respostas

  1. Que triste!
    Eu gostei. Gosto da mistura do infantil com a descoberta.

  2. O texto me puxou pra dentro, me fez ficar ansioso pra ver o q ia acontecer.
    Não consegui entender porque ela ficava triste e chorava. Sei que não é pra entender, mas às vezes a gente entende as coisas mesmo sem entender.
    Mas os seios imponentes fizeram todo o sentido hehehe

    Acho que uma coisa que vale a pena notar é que é o seu segundo texto que eu leio em que uma pessoa solitaria em algum lugar se encontra com outra que a encanta totalmente, pode ser que seja um padrão.

    bjo

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