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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Cap. 9 – Deus proverá

Jesus, o rei que veio ao mundo para servir, mudou de opinião e decidiu ser servido. Assim, por intermédio de seu servo, pastor Evandro Luppi, dava ordens ao bom Pedro Vitório, homem de pecado que buscava a redenção. A piscina da casa do pastor já estava quase pronta e o bom homem já se alegrava com a notícia de ter sido escolhido por Jesus para arrumar o telhado da igreja. Além de ter a honra de servir a Cristo, Pedro Vitório estava aprendendo o ofício de pedreiro.

Vanderlei continuava ajudando o pastor na igreja. Às vezes era enviado para ajudar o pai, já que apareciam enfermos e endemoniados na igreja vez ou outra e o pastor preferia ficar a sós com a pobre alma que precisava desesperadamente do poder de cura de Jesus. Homem santo, o pastor Evandro! Curava doentes, expulsava demônios, fazia o bem. Vanderlei orgulhava-se por auxiliar tal homem em seu trabalho evangelizador. A verdade é que aprendera muito convivendo com o mensageiro de Deus.

O pastor transmitia pacientemente os ensinamentos de Jesus aos dois homens da Cruz, pai e filho. E assim viviam felizes.

Em casa, nada faltava. Chegavam da igreja e alegravam-se ao ver a comida posta sobre a mesa. Deus os alimentava, assim como alimentava os corvos. Oravam antes de cada refeição para que o alimento fosse abençoado e jamais faltasse à família. Aquilo bastava para que Jesus os atendesse.

Maria das Dores ralhava com eles às vezes, chamando-os de irresponsáveis. Dizia ao marido que a família estava sem dinheiro, o aluguel estava atrasado e a energia elétrica fora cortada por falta de pagamento. Maria das Dores vendera uma velha escrivaninha para pagar a conta de água.

― Nós estamos sem luz!

― Luz? Jesus é a minha luz! E não existe outra luz que não seja ele. ― Dizia o marido.

― Eu também estou com Jesus! ― Concordava Vanderlei.

― Eu estou falando da luz elétrica, homem!, da luz da conta!

― Eletricidade não é luz! A gente não precisa de eletricidade. No tempo de Jesus não tinha eletricidade e ele teve uma vida santa.

― E a água? Só não cortaram porque eu vendi a escrivaninha pra pagar…

― Porque você não confia em Jesus! Quem confia sabe que ele não deixa faltar nada. Deixa por conta dele que ele resolve tudo. Além disso, pra que ter água em casa?

― Ué… Pra tomar banho, cozinhar… E a água pra dar pro Inocêncio? Ele é criança e tem sede… Já pensou nisso?

― Água vem da chuva, do rio… Se não tiver no cano é porque Jesus quer que a gente busque. E se tem água aqui em casa é porque Jesus quer que a gente tenha.

A televisão era um mero adorno no centro da sala. Pedro Vitório não se importava: o aparelho só servia para ensinar a pecar. Era o diabo encaixotado. Claro que a televisão também tinha seu lado bom: passava programas evangélicos, anunciando a palavra de Deus. Mas tais programas eram de outras igrejas. Falsas igrejas. Ele, Pedro Vitório da Cruz, um nada, um ignorante, ignorado durante toda a sua vida, era agora um eleito, um servo de Jesus, um homem importante com alto crédito no céu. Quando Jesus viesse ele seria recompensado. Os infiéis queimariam no inferno. O importante é servir a Jesus e confiar nele.

E assim, pouco a pouco, Maria das Dores ia vendendo objetos de sua casa para comprar gás e pagar a conta de água, pois não acreditava na providência divina, apesar da insistência do marido. A vizinha católica lhe trazia da igreja alguns mantimentos. Maria das Dores perguntava do padre. Havia gostado dele. Queria vê-lo de novo, mas tinha medo. Precisava desabafar e ele era a única pessoa em quem confiava plenamente. O marido não a compreendia. A chamava de mulher sem fé e a acusava de não resistir às tentações de Satanás. Quando ela implorava a ele para que procurasse trabalho para poder sustentar a família, ouvia sempre a mesma resposta: “Deus proverá”.

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Uma resposta

  1. mas às vezes parece que você faz caricatura do personagem crente ao mesmo tempo em que “prega” a inocencia dele…

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