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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Cap. 8 – Um rio tem duas margens

O mês chegava ao fim. As economias de Maria das Dores também. Estava desesperada, sem saber como fazer para alimentar a família. A comida era pouca. Quando perguntava ao marido o que fazer, ele respondia que Jesus iria providenciar tudo, ela só precisaria ter fé. Como uma mãe pode ter fé em Cristo sabendo que seus filhos podem ficar sem o que comer graças à crença do marido? Pedro Vitório saía de casa de manhã com Vanderlei. O garoto ia à escola e depois ajudava o pastor em sua missão evangelizadora enquanto seu pai trabalhava como um escravo construindo a piscina. Ninguém se importava com Maria das Dores. Acusavam-na de ser atéia, tentação, até mesmo endemoniada só porque se preocupava com o sustento da família. Precisava arranjar dinheiro. Precisava arranjar comida. Precisava de uma luz, mas a de Jesus não servia. Pelo menos não a do Jesus do marido.

Já fazia dois meses que ela não pagava aluguel. As contas de água e energia elétrica estavam atrasadas. O marido estava com o nome sujo na praça. O nome dela também estava sujo: a chamavam de “mulher do caloteiro”. Deixaria o marido? Não podia. Certamente o filho mais velho, convertido à religião do pai, preferiria ficar com Pedro Vitório. Queria seus dois filhos com ela. Não queria deixar o marido. Tinha pena dele. Homem frágil. Tolo. Ela já enfrentara muitas dificuldades na vida. Enfrentaria mais uma. Mas como arranjaria dinheiro e comida? O pastor não resolveria problema algum! Igreja não enche barriga de fiel. Além disso, todo clérigo é concupiscente. Só sabe cobrar dízimo e vender indulgências. Melhor ignorá-los.

Uma vizinha, sabendo da situação da família, sugeriu a Maria das Dores que fosse conversar com o padre que rezava missa na igrejinha próxima dali. Outro sacerdote? Um já faz mal suficiente! Pra que mais um? Falaria com o padre? Não queria. O marido brigaria com ela. Levaria o pastor para exorcizá-la. E se o padre pedisse dízimo também? Não tinha dinheiro nem para comer… E se ficasse doida como o marido?

A vizinha explicou-lhe que os católicos da cidade arrecadavam alimentos e montavam cestas básicas para distribuir aos pobres. Não se tratava de uma tentativa de conversão, mas, sim, de uma ajuda. Maria das Dores era cética. Não acreditava na bondade das pessoas. Se davam com uma mão, com certeza tirariam com outra. A comida estava acabando. A vizinha dava-lhe alguma ajuda, pouca, e sempre a aconselhava a procurar o padre.

Decidiu-se. Ia seguir o conselho da vizinha. Já começava outubro quando ambas foram juntas à igreja.

― Esta é mulher que eu falei, disse a vizinha ao padre.

Maria das Dores explicou seu problema. Contou-lhe sobre o fanatismo religioso do marido. Confessou que o achava louco e que temia por seus filhos, que mal tinham o que comer. Ela, para racionar comida, estava comendo menos. Tinha fome. O marido não procurava emprego e passava o dia todo trabalhando como pedreiro na casa do pastor. Chorou muito se lembrando de como aquela religião havia transformado sua vida em um inferno.

O padre conversou mansamente com Maria das Dores. Deixou-a desabafar e a consolou. Concordou com ela sobre o fato do pastor estar explorando seu marido, homem ingênuo que se deixara enganar. Também demonstrava preocupação com o sustento da família.

― O pastor deu ao seu marido uma interpretação distorcida da bíblia. A gente tem, sim, que confiar em Deus, mas Jesus pregava a fraternidade, a partilha, o amor. Jesus sempre defendeu a recompensa aos que se esforçam. Jesus não vai arranjar emprego pro seu marido se ele não procurar. O que Jesus faz é recompensar com um bom emprego aquele que se esforçou para consegui-lo. Várias parábolas da bíblia tratam deste tema. Jesus abre portas, mas não empurra ninguém através delas.

― Mas o meu marido está louco, padre…, ele acredita cegamente nas coisas que o pastor fala pra ele.

― É um caso sério, mas o que vamos fazer, né? Eu não posso mudar a cabeça do seu marido. Você também não pode. Ele já tem a cabeça feita. O problema são as conseqüências dos atos dele. Não é verdade?

Maria das Dores concordou balançando a cabeça lentamente. Uma lágrima escorreu de seu olho direito e rolou pela pele amarelada.

― Jesus nos ensina a partilha. O verdadeiro cristão é aquele que ajuda as pessoas mais necessitadas. A caridade é mais importante para Deus do que as coisas que o seu marido faz. Por isso, nós fazemos coletas de alimentos aqui na igreja e distribuímos às famílias pobres. Se a senhora quiser, poderemos te ajudar também.

― Eu estou precisando muito. Mas também tenho medo, sabe… meu marido… imagina se ele descobre que eu estou recebendo ajuda de outra igreja…

― Entendo. Mas precisando é só pedir.

A vizinha, que a tinha deixado a sós com o padre, foi chamada. Saíram juntas. Maria das Dores carregava uma sacola com alguns pacotes de macarrão, arroz e feijão doados pelo padre. Teria comida por mais algum tempo.

A visita ao padre havia feito bem a ela. Sentia-se melhor. Homem bonito, educado… Uma pena ser padre. Homem assim deveria ser para casar. Não se sentia atraída por ele. Era casada. Mas havia gostado dele. Mal o conhecera e já o considerava seu amigo. Sentiu-se muito à vontade para contar seus problemas, desabafar… O padre era atencioso, qualidade rara em homens. Para ele era capaz de contar seus segredos mais íntimos. Era como se o sacerdote fosse a melhor amiga de Dona Maria das Dores. Queria vê-lo novamente. Mas e se o marido descobrisse que ela estava se aconselhando com um padre? Não havia mal algum naquilo. Mas na cabeça do marido havia.

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Uma resposta

  1. A história está ficando interessante… Mas fiquei na dúvida, em alguns pontos, quanto ao uso do discurso indireto livre. Por ex.: “Como uma mãe pode ter fé em Cristo sabendo que seus filhos podem ficar sem o que comer graças à crença do marido?” – Quem falou isso foi Maria das Dores ou o narrador? E em “Além disso, todo clérigo é concupiscente.”? Concupiscente é uma palavra difícil, que não consigo imaginar na boca ou nos pensamentos de uma senhorinha de baixa renda.
    Algumas observações sobre colocação pronominal: “O nome dela também estava sujo: a chamavam de ‘mulher do caloteiro'”. – no caso, o correto seria “Chamavam-na”. “Deixou-a desabafar e a consolou” – o correto seria “consolou-a”.
    Aguardo os próximos! Beijos!

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