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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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FLUXUS, de Cristiane Grando (2005)

                A poesia escrita por mulheres é de uma fertilidade promissora na pós-modernidade. Quando tratamos dela, devemos nos prevenir contra o fácil rótulo de “poesia feminina”, classificação que certamente limita as possibilidades do desenvolvimento poético reduzindo-o a um caráter puramente sexual das autoras; mas não podemos, de forma alguma, ignorar as influências próprias que a condição de mulher exerce nessa poesia, condição essa muitas vezes explorada de forma criativa, mote poético que não é por si só necessário ou majoritário, mas muitas vezes recorrente.

                Assim acontece com Cristiane Grando. O título da obra, “Fluxus”, já nos remete de imediato a uma condição mensal da mulher, o fluxo menstrual. Mas não somente a isso: também podemos nos lembrar do artifício literário “fluxo de consciência”, podemos associá-lo ao afã da escrita que se realiza em “fluxo dinâmico de estrelas”, e podemos ainda abstrair a palavra de significação pragmática para encará-la como somente fluxo, sem qualificá-lo: o movimento puro e simples, exposto na sua forma bruta e primeira. A capa do livro, em vermelho encarnado, com manchas pretas e amarelas espalhadas pelas zonas superior e inferior, faz um trabalho conjunto ao título, no sentido de provocar certa impressão no leitor, impressão correlata ao momento tanto de criação poética próprio de Cristiane quanto ao de despedida do óvulo infecundo comum à maioria das mulheres. Aliás, todo o trabalho gráfico do livro é voltado para essa tentativa de interação entre imagem plástica e plasticidade textual, o que resulta um livro com um visual abstrato e versos mais que palpáveis.

                O poema em si oferece soluções curiosas às questões inerentes ao método de composição de qualquer poema: funcionando como uma série de fragmentos em seqüência, sem conexão semântica imediata, a poetisa cria pequeníssimas falas em primeira pessoa, em que é clara a existência de um interlocutor a quem o eu-lírico se dirige. As falas consistem em três modelos que se alternam aparentemente de forma arbitrária. O primeiro que observei foram as perguntas retóricas, que não esperam resposta, mas formam uma expectativa inversa de negação e vazio:

 

                “para que a introspecção?

                “para que ver o obscuro?”

 

                Nessas perguntas, a poetisa proclama a superficialidade do instante: o ato é o que é, sem a inserção de considerações metafísicas ao seu redor. Ainda que se achasse “o obscuro”, que através da pergunta percebemos que nem se deve procurar, o ato continuaria sendo pela sua força impositiva e factual, gritante à razão como a capa do livro é gritante aos olhos.

                O segundo modelo do qual posso falar é o da constatação. Assim como em Helena Kolody, de quem falei em outro mês, alguns poemas se resumem a expor de forma plana e direta uma cena, um sentimento ou uma ação qualquer. Helena é mais delicada na sua exposição, sem dúvida; Cristiane nos a coloca quase como um suspiro mal-humorado, uma confissão-desabafo:

 

                “infernal o calor do corpo suando sob

                                                                      as roupas”

 

 

                sangue

                vejo somente sangue

 

                e chuva”

 

 

                “escrever pode ser um ato de amor

                mas também o suicídio das palavras”

 

 

                Os fragmentos revelam que as constatações são, portanto, de caráter pessoal e conjectural, diferente das de Kolody, que buscava afirmações gerais e válidas atemporalmente e universalmente (coisa só possível na isenção de responsabilidade com a verdade da poesia). Todavia, cada constatação vem com um toque de significação a mais impressa nos versos, um ritmo de leitura e direcionamento desta subjacente à disposição gráfica dos versos: no primeiro caso, as roupas são colocadas contra o corpo, no verso inferior, criando uma dicotomia entre os dois elementos que se separam claramente aos olhos do leitor, ou um escudo do segundo verso que, sendo menor, assemelha-se às roupas que buscam proteger, esconder e conter o corpo, mas, de todo, não o conseguem. O segundo fragmento dá importância plástica ao sangue, que se repetindo duas vezes, e ainda mais potencializado pela palavra “somente”, salta aos olhos (saltar aos olhos fica sendo, portanto, uma característica básica de Cristiane); além disso, a chuva vem no verso seguinte, separada dos outros dois pelo espaço de uma linha em branco. Aqui pode haver a sugestão de progressão temporal: antes, havia só sangue, e era somente isso que o eu-lírico conseguia observar; após, não se sabe se realmente após algum acontecimento ou após uma mudança do olhar ou da consciência observadora do eu-lírico, ele passa a ver a chuva, que, ao lado do sangue, ganha um sentido figurado e pode se unir a ele em “chuva de sangue”. O terceiro fragmento tem um artifício de paralelismo sintático-semântico, reforçado pelo “pode ser” que abre a porta para uma alternativa revelada logo no verso seguinte. Este paralelismo, que concilia o aparentemente oposto (ato de amor – suicídio das palavras), é de um lirismo simples mas comovente, ingênuo mas sincero.

O último modelo que observei foi o das manifestações líricas individualizadas, de caráter profundamente pessoal, mas que por semelhança do gênero pode ser ampliado a vários exemplares que se identifiquem com o eu-lírico. Algo sensorial e sentimental permeia esses fragmentos, como podemos observar nas transcrições abaixo:

 

“sinto a falta das tuas mãos”

 

 

“alguém canta ao longe

alguém canta em meus ouvidos surdos”

 

 

“me ama mas não me olha

com a profundidade

dos olhos que não vêem”

 

 

Para encerrar, gostaria de ressaltar a tristeza que habita os versos suaves de Cristiane Grando. Não sei se tristeza é de fato o termo mais apropriado para o sentimento de esvaziamento que reverbera na percepção do leitor durante a leitura do poema desta poetisa, mas é o melhor que consigo encontrar no momento. É algo oco que se manifesta ciclicamente em termos como “olhos que não vêem”, “ouvidos surdos” e

 

 

“pluriversa-se a noite

anoitece ainda mais”,

 

 

versos de encerramento do livro-poema que aniquilam qualquer possibilidade de redenção, salvação ou solução. Encaremos isso sem desespero metafísico, pois já fomos prevenidos de que não devemos ver o obscuro.

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