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Curral de Peixe, de Lêdo Ivo (e considerações secundárias de primeiro grau)

Publico, com algumas horas de atraso, o post desse mês. Nele falo do livro Curral de Peixe (1995), de Lêdo Ivo, nome consagrado no cenário poético brasileiro não tanto pela sua produção poética própria como pelos seus ardilosos trabalhos de tradução. Devo adiantar aos meus leitores que percorrer esse livro me agradou bastante; o contato com o texto me auxiliou a dar cabo de certas formulações gerais sobre um determinado caráter conflituoso inerente ao gênero poético; inicio aqui com a exposição delas, para a partir desse brevíssimo ensaio (apressadamente escrito, como tudo que a esta humilde coluna se destina) entrar no livro propriamente dito.

Se aplicarmos nossos conceitos naturais de ordinário e extraordinário à história da evolução das formas poéticas, podemos perceber que um conflito espontâneo entre eles permeia, de maneiras particulares, três grandes momentos da existência da Poesia; sem muito prejuízo poderíamos até mesmo afirmar que grande parte das diferenças cruciais entre essas três épocas se delineia nas variantes soluções oferecidas pelos autores de cada período a este problema.

Com um instrumento rudimentar de baixa precisão, cortemos a poesia ocidental em três partes temporais: a poesia clássica, a poesia romântica e a poesia moderna. O que podemos tirar de cada uma delas quando aplicamo-las os já citados conceitos e os problemas que eles acarretam?

Quanto à poesia clássica, vemo-la impregnada da mitologia helênica; suas metáforas mais significativas baseiam-se na personificação dos elementos naturais e psicológicos na figura dos deuses; cada um contém em sí uma série de atributos simultaneamente ecológicos e temperamentais que servem de base para uma figuração liguística frutífera. É interessante perceber que muita da poesia clássica retrata como esses seres supra-terrenos, simultaneamente simbólicos e individuais, costumam intervir nas empresas humanas; além disso, os humanos ganham status cada vez mais próximos dos deuses a cada façanha atrevida que realizam. O extraordinário, portanto, convive harmonicamente com o ordinário na profusão cotidiana de relações constantes entre deuses e humanos. Da mesma forma que estes seres compartilham cenários e versos, aqueles conceitos caminham entrelaçados, pouco distinguíveis. È, talvez, nessa confluência íntima que resida a beleza do Mito.

A poesia romântica, no seu projeto de criar uma nova mitologia[1] que mais próxima estivesse dos anseios poéticos da época, deu ao conflito uma nova roupagem. Com suas imagens alternadamente exultantes e sepulcrais, glorificadores e lunares, o romantismo acaba por, na sua tendencia grandiloquente, transportar o ordinário para o plano do extraordinário, ou seja, de adornar os objetos com um véu de mistério. Seu teor místico é agora inalcançável pelas vias antigas – somente a percepção privilegiada do gênio romântico poderia intuí-lo – e o poeta se alça às alturas ou se lança às profundezas para balizar o material próprio da poesia. É a época das grandes musas pálidas e vaporosas, que jamais descem aos poetas que as cantam; dos cenários nacionais deslumbrantes, simulacros suspeitos de um paraíso inverossímil; das imagens de horror insuportável cujos assombros povoam a noite. O efeito comum sobre o leitor é a criação de um afastamento poético gerado pela não-identificação entre suas experiências e as descrições textuais, possível resultado da linguagem hiberbólica romântica que é (também) o seu grande triunfo.

Por fim, a poesia moderna, primordialmente tocada pelas influências da urbe desenvolvida, varia suas respostas ao problema em duas ramificações inconciliáveis, a saber: ou ela adiciona o extraordinário ao ordinário, num processo oposto ao exercido pelo Romantismo, valorizando o cotidiano e suas particularidades para, a partir dele, extrair o ainda possível caráter de estranhamento poético; ou ela simplesmente nega o extraordinário, num gesto desolado de desencanto irreversível e desesperado. O primeiro movimento se observa desde as tentativas de William Carlos Williams em seu Red Whellbarrow até os poemas de Oswald que fotografavam o capoeira: todos buscam, reduzindo a linguagem e o foco da câmera, achar nas entranhas do comum o lírico. Aí introduzimos a poesia de Lêdo Ivo, que busca constantemente evidenciar a relevância assumida por incidentes aos quais estamos sempre expostos; no poema abaixo (p 19), ele atribui elucubrações metafísicas aos elementos urbanos e comuns a um contexto socioeconômico específico:

 

O QUE EU DISSE À CRACA

 

Eu disse à craca da Ponte Rio-Niterói:

O tempo é um molusco que se incrusta

na obra dos homens

e com a tua faina imperceptível explicas eu ter esquecido um nome

após tê-lo soletrado dia e noite no delta de um púbis.

Eu disse à craca, durante a travessia: Eu te saúdo e reverencio,

                                              porque és o desgaste e a corrosão

a irmã caçula da morte

o ponto obscuro que resume o sonho extinto.

Ao que jamais soube nem me foi ensinado

pelo vento marinho que dilacera o dia,

acrescento a insídia das cracas que danificam

os pilares das pontes sobre as águas e os costados dos navios.

O tempo é um molusco – eu disse à craca da Ponte Rio-Niterói –

e vieste para reduzir o esplendor do mundo.

 

O livro de Ivo é dividido em três partes. A primeira, inteira em versos livres,  desfia um estilo aparentemente confessional, com referências espaciais de cunho biográfico (o poeta fala insistentemente de Maceió, sua cidade natal), mas que não se prejudica pela aparente verbosidade que o estilo supostamente permitiria: Ivo trabalha suas imagens cuidadosamente, fazendo-as reverberar entre os poemas e acumular importância, erigindo texto por texto a sua mitologia pessoal.

A segunda parte, composta quase somente por sonetos, merece uma atenção especial. O nome da seção (DIA E NOITE) antecipa ao leitor a dança que se desenrolará entre elementos opostos, que quase sempre desaguam na equivalência. É o que exemplificam os seguintes versos: A minha noite é dia / Sombras são claridades (…)/ Toda liberdade é cárcere. O belíssimo modo como o poeta urde objetos opostos a ponto de afirmar que “Não sei mais discernir o fim do dia / das promessas da alvorada” é digno de ser conferido pelos leitores. Aqueles que se sentirem especialmente atraídos por uma poesia que, não oferecendo uma saída clara, cria uma explosão atômica ao aproximar demais o que é diametralmente oposto, se sentirão satisfeitíssimos com Lêdo Ivo. O poeta tem a feliz mania de, ainda que bem definindo as características próprias dos objetos, terminar por declará-los iguais. Transcreveremos aqui o poema da página 82, que mostra uma das recorrentes imagens de Ivo, a associação entre luz e corte:

 

A SEPARAÇÃO

 

Sou o que o teu corpo

me deixar ser

e na aurora que rompe

vejo o anoitecer

 

Em que lençol deixaste

tua alma perdida?

O dia vai abrir-se

como uma ferida.

 

Entre quatro paredes

alastra-se o nevoeiro

que nos separa.

 

Lado a lado aprendemos

que a noite é uma gruta

e o dia é uma espada.

 

A terceira e última parte do livro é preenchida por uma série de poemetos curiosos, de teor anedótico e pouco pretensiosos. Visivelmente destoam da densidade dos demais, e têm, dentre os poemas do livro, o menor valor poético. O último poema dessa seção, todavia, surpreende. Nele, o poeta se abre inteiro, expondo sua poesia por intermédio das diversas apreciações críticas que ela teria recebido durante os anos. Os versos finais são comoventes e bem construídos: “Só o vento lhe respondia/ no silêncio do céu mudo: – És como sou. Nada sei./ Sopro noite e dia. E é tudo”. Creio eu que a inserção do conjuntinho de poemas menores entre os das duas primeiras partes e o de encerramento tenham a exclusiva função de “amortecedor”, dando ao leitor uma distensão agradável que lhe descansa o cérebro jovialmente, atenuando o que virá. Não consigo buscar outra maneira de justificá-los.

Meus caros leitores! Estou insatisfeito com este post. Creio ter me demorado pouco na apreciação efetiva do livro que tantos prazeres me deu, sacrificando meu espaço para a exposição da tese sobre o ordinário e o extraordinário, que saiu também confusa e mal embasada. Peço-lhes perdão, e espero que meus esforços, por mais que me desgostem, acabem por agradar aos senhores. Encerro a minha coluna desejando a todos um bom domingo eleitoral (se isso for possível nesta Terra).


[1] Ver SCHLEGEL, Conversa sobre a Poesia

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