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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Krapp’s Last Tape – Samuel Beckett

 

            A late evening in the future”.

 

            A epígrafe acima é exatamente a instrução de palco com a qual começa a peça, cujo enredo basicamente se constitui de um homem que ouve gravações que fez no passado, fala algumas coisas, grava algumas coisas, sai do palco, volta ao palco. Há silêncios, pausas por demais, em uma quantidade quase pinteriana (vide ensaio do mês passado). Aqui, no entanto, a tensão que se estabelece não é entre dois personagens corpóreos, mas entre Krapp e Krapp, Krapp presente e Krapp passado, entre o Krapp que gravou um dia uma de suas fitas e o Krapp que está pronto para gravar sua última fita.

            Mas como entender o que Beckett está no dizendo? What kind of crap is this, anyway? O que ele quer quando, ao nos apresentar um mundo à beira do abismo, à beira do maior dos colapsos possíveis, ainda assim nos tenta fazer rir? E de que natureza é esse riso? Como em meio a tanto vazio (o literal vazio do palco, o das pausas e o das palavras – lembremo-nos dos “Pensamentos” de Lucky) encontrar lirismo?

            Tentemos (rendendo aqui homenagem ao colega Leonardo Saraiva e a seu brilhante artigo sobre a poetisa Helena Kolody) tatear esse texto voltando às perguntas primitivas do gênero, aos mínimos; fazer as perguntas básicas, questionando a própria essência do teatro.

            Como é o cenário inicial?

            Uma mesa pequena com duas gavetas que se abrem em direção à audiência, iluminada em luz branca e forte no centro do palco, sobre ela um gravador de fitas k7.

            Quem são as personagens da peça?

            Krapp, sentado sobre a mesa. Há a voz de alguém no gravador: a do próprio Krapp. O que nos leva à primeira tese óbvia: a peça tem apenas um personagem.

            O que acontece na peça?

            Krapp escuta suas gravações e grava algumas coisas. Volta a fita algumas vezes. Ah sim, ele também come duas bananas, senta-se à beira do palco balançando às pernas, sai para trás do palco.

            E aqui interrompemos as perguntas básicas.

            Sim, porque todo o material que está aqui faz TODA a diferença. Voltamos ao básico do teatro, personagens, palco, ação, fala e público. Voltar aos fundamentos do teatro pode ter como resultado uma reestruturação dos mesmos. Consideremos o seguinte: a única área iluminada é mesa de Krapp, e no entanto ele sai dessa área iluminada e age nas áreas escuras, tanto para dentro como para fora do palco. Fora daquela iluminação, a mesma escuridão envolve palco, coxias, platéia, paredes e os lugares nos quais o próprio Krapp continua agindo. Qual é, então, a diferença entre a platéia e os cenários para onde a personagem se desloca, se ele se senta à beira do palco ou se refugia na área escura? TUDO. Ali, durante aquela peça, Beckett transforma o cenário daqueles talvez quinze minutos no mundo inteiro, em uma espécie de cenário infinito, que através de um truque de iluminação e de vazio rompe com o palco e a platéia e a distância entre os dois. De um modo completamente diferente do de Artaud, vemos aqui Beckett jogar sua platéia imediatamente dentro da peça pela simples noção do espaço.

            A fundamental conseqüência da redução de área iluminada, objetos disponíveis em palco e número de personagens, bem como a escolha pela peça curta só pode ser a atenção total às ações dessa personagem. A peça é apenas aquilo, e tudo o que se desenvolve é de fundamental importância. Indo na contramão dos grandes bacanais de José Celso Martinez ou do Balcão cheio de figurinos e brilho e luzes de Genet, Beckett está colocando a energia em uma banana que é comida, em pernas que balançam. A revaloração de cada ato mínimo do ator, de cara olhar, de cada coçada na barba, passam a exigir de nós, leitores, uma postura completamente diferente. Sim, Stanislavski já valorizava o fato de cada pequena ação ter de ser desempenhada com a perfeição da realidade; Mas visava a um conjunto de ações dentro de uma história, estava atrás de sua “quarta parede” fazendo arte. Beckett eliminou a quarta parede e as três que a antecediam; comer uma banana não significa matar a fome ou se deliciar do produto de um roubo, significa, simplesmente, comer uma banana. É isso que há no mundo, comer uma banana, atravessar a rua, ouvir a sua última gravação.

            Pois as palavras são, sem ua maioria, ditas pelo Krapp gravado, e não pelo Krapp vivo, ali, que grava sua última fita diante de um público que o vê, por muito tempo, apenas andar e realizar pequenas ações. Quando nos acostumamos ao silêncio, a ver coma máxima atenção cada gesto e a valoriza-lo, vem a palavra. Em um fluxo, fazendo considerações, um fluxo de consciência cheio de hesitações (tanto do Krapp gravado quanto do Krapp ouvinte, que volta e para por vezes a fita). Vejamos, como de costume, algumas das frases dita pela gravação:

 

            TAPE: The new light above my table is a great improvement. With all this darknessround me I feel less alone.”

 

            Realmente, ele se sente menos sozinho, agora que toda a humanidade o vê. Mas ela está no escuro. E esse é o tema de Beckett: ninguém está sozinho, mas não há muito além de nós. Há uma árvore, ou nossas casas (que são latas de lixo) e uma espera. Há uma fita do passado, cheia de pausas e que precisamos pausar para ouvir. Há o mínimo, o ser humano, reduzido a seu mínimo, cuja arte precisa voltar ao mínimo, ao mínimo de seus gêneros, dizendo o mínimo de palavras e realizando ações mínimas. Ressignificar a arte é, sim, uma tarefa nobre; mas a necessidade, aquela apontada por Adorno e por tantos outros pensadores, pensar uma nova razão, dado o estado das coisas no pós-guerra, o estado da consciência Humana, é a de ressignificar o Humano. Dizer mais sobre a peça ou sobre o dramaturgo fugiria ao mínimo necessário, então, deixemos que ele mesmo nos entregue as palavras de Krapp, ao terminar de ouvir sua fita e ao terminar a peça:

 

            KRAPP: Perhaps my best years are gone. Where there was a chance of happiness. But I wouldn’t want them back. Not with the fire in me now. No, I wouldn’t want them back.

            [KRAPP motionless staring before him. The tape runs on in silence]”

The tape runs on in silence…

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Uma resposta

  1. caro cazé,
    estou mais satisfeito com seu modo didático de situar o leitor na peça, no seu contexto e nas suas bases; ainda que voce diga que isso foi uma homenagem a mim, não vejo meu método aí, e o mérito é todo seu. agradeço, todavia, a referência.

    quanto à eliminação beckettiana (não só da quarta, mas) de todas as paredes cênicas que rondam a encenação material (ou seja, o palco), creio que suas considerações formais são objetivas e inteligentes, mas não completamente desenvolvidas. atribuo isso ao caráter de nossas postagens aqui, desvinculadas de toda responsabilidade academica. estou certo de que esta tese ainda o assombra durante algumas noites, e que dela sairá um trabalho mais robusto. advirto-o num ponto, porém: não se convença dela tão completamente a ponto de aplicá-la a toda e qualquer peça pós-guerra que surgir. já é a terceira vez que o vejo defender, com argumentos semelhantes, esse ponto. que ele é uma característica do theatro sobre o qual voce trata não há dúvidas; apenas não se ofusque por ela.
    e, se possível, olhe com cuidado o ultimo paragrafo (não a transcrição do texto, mas o que voce escreveu). tenho a impressão de ter visto uma incoerenciazinha no inicio dele.

    abraços,
    leonardo

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