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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Sertões urbanos

CAPÍTULO II

 

DAS ENTRANHAS

 

            Quis o destino que o irmão do porteiro José falecesse por algum motivo obscuro. O fato é que o velhaco não teria mais como ajudar os pobres João-Joana, e o desespero bateu-lhe aliado à superstição.  Seria ele o próximo a conhecer o reino dos mortos?

            Durante a primeira semana sem os alimentos provenientes da feira, o porteiro esforçou-se em utilizar parte do seu salário para manter os moradores. Mas o peso deste gasto mensal foi-se tornando excessivo na contabilidade mental do porteiro, e, na terceira semana do mês do mal-vindo falecimento, José optou por se entregar ao Destino.

            Quinta-feira, 10:00h. E nada do porteiro. João começava a sentir seu estômago roer o que lhe restava das entranhas, como se um estômago pudesse roer sem dentes ter, e também notara que Joana estava mais antipática e nervosa do que outrora. Aliás, antipática é pouco. A galinha cacarejava tanto que por três vezes João ameaçou enforcá-la e atirá-la pela janela. O animal corria para lá, para cá, ameaçava voar, bicava o chão com desespero, caia.

            Quinta-feira, 15:00h. E nada do porteiro. João rogava pragas, e depois evocava a lenda de Cucarama em voz alta, a fim de que José escutasse e resolvesse alimentá-los antes que fossem embora do edifício.  Os grunhidos de João-Joana, é claro, foram ouvidos pelo porteiro, que se escondeu no seu próprio apartamento colocando junto de si um crucifixo de madeira, a proferir rezas e palavras desconexas. Medo, morte, destino, vida.

            Quinta-feira, 17:00. E nada do porteiro. E nada de barulhos. José, antes de acalmar-se com o silêncio, precipitou-se num torpor trêmulo através das escadas, dirigindo-se ao apartamento de João e de Joana em busca da própria morte. O silêncio ficava ainda maior ao subir os degraus e somente escutar os próprios passos. Enfim chegou aonde se destinava. Tocou a campainha. Nada. Bateu na porta. Nada. Certamente era uma emboscada. Alguém viria atrás de suas costas fincar uma faca. Alguém atravessaria seu corpo com milhares de furos à bala.  Era melhor enfrentar a morte.

             Abriu vagarosamente a porta alheia. Não viu imediatamente ninguém. Pensou que a galinha lhe apareceria sob a forma de um espírito justiceiro, ou que João, por rudeza de caráter e vingança, lhe comeria o fígado cru. No entanto, o que lhe assomou à visão naquele momento foi um misto de horror e alívio incerto. Estirado no chão do tosco apartamento estava João, com milhares de furos pelo corpo jorrando sangue. Ao seu lado, Joana, com o bico vermelho, com a barriga satisfeita, com o olhar lascivo ao porteiro atrasado.

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