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Um recém-descoberto Joaquim

Não me senti nem um pouco à vontade de escrever sobre outro assunto senão o óbvio: a recepção, entre os gringos, daquele que muitos de nós consideramos o maior dos autores brasileiros. A opinião mais comum que encontrei também não é muito surpreendente: muitos críticos estrangeiros consideram Joaquim Maria Machado de Assis um gênio injustamente negligenciado da literatura mundial, ainda pouco explorado entre os leitores de línguas exóticas ao Português.

O centenário da morte do autor tem causado um tímido frisson no meio literário internacional, através de eventos na Europa e nas Américas e de artigos na imprensa. Uma matéria recente do jornal The New York Times (entitulada “Depois de um século, uma reputação literária finalmente floresce”) mostra como Machado passou, nos últimos anos, de uma figura periférica no mundo anglófono para um favorito e lançador de tendências na literatura, graças à influência de aclamados críticos e escritores, entre eles Susan Sontag, que o considera “o maior escritor que a América Latina já produziu”, ultrapassando inclusive Borges, e Harold Bloom, que o colocou como “o supremo artista literário negro” já visto até hoje, além de “um tipo de milagre”, dada sua origem social num meio de restrita tradição na criação literária. Bloom brinca dizendo que quando relê Tristram Shandy, “poderia jurar que [Laurence] Sterne havia lido Machado”.

Como sempre acontece na crítica literária que chega ao grande público, as comparações não param. Allen Ginsberg, na década de 60, o descreveu como “um outro Kafka” (confesso que minha curiosidade foi atiçada). Há poucas semanas, Philip Roth traçou paralelos entre Machado e Beckett, pois ambos são “irônicos quanto ao sofrimento”: “Em seus livros, nos momentos mais cômicos, ele destaca o sofrimento fazendo-nos rir.”

Gregory Rabassa é um dos grandes tradutores da obra de Machado de Assis para a língua inglesa e garante que traduzi-lo “foi muito divertido”. “Seu Português é fluente, fluido e clássico, provavelmente uma das melhores prosas em Português jamais realizadas. Mas ao mesmo tempo ele tinha uma sensibilidade que estava à frente de seu tempo, talvez mesmo à frente do nosso tempo; cético e nada idealista, de maneira alguma.” Um site de crítica literária alemão elogia Machado através de uma frase de Schopenhauer: “A tarefa do romancista não é narrar grandes acontecimentos, mas sim fazer dos pequenos interessantes.”

Mas com tantas qualidades, por que esse reconhecimento internacional demorou tanto? As justificativas vão desde más traduções feitas anteriormente até o fato, segundo Sontag, de que os escritos do autor provém da “periferia” da cultura ocidental, numa língua “injustamente considerada menor”. Ela mesma coloca, a respeito de Memórias Póstumas de Brás Cubas: ”Amar esse livro significa tornar-se menos provinciano”.

Uma resenha do jornal alemão Frankfurter Allgemeine, após adjetivos excessivamente bajuladores sobre esse mesmo livro, o coloca como “suave poeticamente, mas ainda de uma dureza niilista e uma sincera acidez ironicamente distanciada”. O jornal diz que só não insinua uma influência de Machado em Nietzsche porque “apenas pouquíssimos intelectuais europeus por volta de 1880 chegaram a conhecer o profeta.”

Casa de las Américas promoveu no fim de agosto um congresso com a sugestão de ir além das triviais comemorações e homenagens, trazendo uma questão interessante: “É possível, a esta altura, propôr novas perguntas sobre a obra de Machado de Assis?” Não sei a resposta oficial do evento, porém arrisco-me a afirmar que se uma obra cujo tema humano transcende as fronteiras de seu próprio cenário possui um alcance mundial no conjunto de seus leitores e críticos, nada é mais evidente que sempre surgirem novas abordagens a respeito dela.

O receio que surge, conforme manifestou Antônio Gonçalves Filho num simpósio em São Paulo, é que os entusiastas estrangeiros, principalmente nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, “estão fazendo Machado parecer cada vez menos com Machado”, já que estranhamente “do nada, ele se tornou ‘universal’”.

Seja como for, o interesse, súbito ou não, da crítica internacional sobre Machado de Assis, além de massagear o ego dos brasileiros, pode trazer outras vantagens, como chamar a atenção para outros grandes autores de nosso país e da língua portuguesa. Pelo menos alguém mais se interessaria por nossa literatura, além de uns poucos letrados em nosso próprio país. Será, querido leitor, que seu vizinho ou seus pais sabem o que está sendo comemorado este mês dentro da literatura?

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