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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Cap. 6 – O Batismo

Pedro Vitório era um pai ausente. Trabalhava o dia todo e à noite assistia televisão. Aos fins de semana ia beber cerveja com os amigos. Raramente tinha tempo para os filhos. Após se converter à Igreja Pentecostal da Fé de Abraão, tornou-se outra pessoa: estava sempre com os filhos, lendo para eles as mais variadas estórias da bíblia e pregando-lhes o amor de Jesus.

Os garotos não eram batizados. Apesar dos protestos de D. Justina e de seu Adolfo para que os batizassem, Maria das Dores e Pedro Vitório não se importavam com religião, tinham preguiça de batizar os garotos e, como raramente viam os avós dos meninos, não se sentiam muito pressionados a levá-los para serem batizados. Porém, bastou Pedro Vitório se converter à igreja dos crentes e marcou batismo para toda a família, até para ele mesmo e para a esposa, que já eram batizados. Afinal, batismo na igreja católica não vale, pois o batismo deveria ser feito em nome de Jesus, conforme o pastor explicara, e não em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, como os católicos fazem. Ao ouvir tal explicação, Pedro Vitório indagou o pastor: “Mas o Filho, no batismo católico, não é Jesus?”. O pastor respondeu citando várias passagens da bíblia e explicando que ninguém vai ao Pai, senão por Jesus, e que, portanto, o batismo deveria ser somente em nome de Jesus. Terminou dizendo: “Se Jesus é único caminho para Deus. Como alguém pode ser batizado sem ouvir o nome de Jesus?”. Pedro Vitório ria-se ao se lembrar de episódios como aquele. Como era ingênuo. O pastor lhe estava ensinando o verdadeiro caminho da fé. Seria um homem santo. Moraria no céu, junto a Jesus.

Houve certa dificuldade para convencer a esposa a se batizar, mas ela acabou cedendo ao desejo do marido, apesar de estar farta das pregações que ouvia o tempo todo.

― Você tem que conhecer o pastor Evandro, ver como ele é. Ele salvou minha alma e vai salvar a sua também.

No dia do batismo, foram todos à igreja. Maria das Dores foi apresentada ao pastor, o homem de olhos verdes e cabelos de fogo que explorava seu marido. “Tem cara de pilantra”, pensou ela. Foi gentil com todos na igreja, para agradar Pedro Vitório. Não o amava mais, mas acostumara-se a viver com ele. Era o pai dos filhos que ela tanto amava. O marido sustentava a família. Continuaria sustentando-a? Já fazia duas semanas que o marido estava desempregado e, ao invés de procurar emprego, ia pregar aos vizinhos, que riam dela. O dinheiro estava acabando. Como iriam fazer? “Deus proverá”, dizia o marido.

Vanderlei gostava da igreja e no dia seguinte começaria a trabalhar ajudando o pastor. Não entendia bem o porque de ir à igreja, mas sempre teve muita admiração pelo pai. Se este ia à igreja, então estava certo. Além disso, sua relação com o pai melhorou muito desde que ambos se converteram a Jesus. Pedro Vitório sempre o levava para o culto e, em casa, lia a bíblia para ele e para seu irmão. Na ausência do pai, ele, que estava na terceira série do fundamental, lia a bíblia sozinho, com certa dificuldade, pois não tinha o hábito de ler.

Inocêncio estava alheio a tudo aquilo. Tinha só três anos de idade e passava o dia todo chupando o dedo. Não conseguia entender porque os adultos não chupam o dedo, porque o homem de cabelo de fogo gritava, porque seu pai ficava o dia todo com um livro grosso na mão, porque sua mãe não gostava que Pedro Vitório louvasse a Deus, sendo Deus tão bom. Sua vida era tão mais simples! Por que os adultos complicavam tanto a vida? Por que não faziam como ele e se entregavam ao doce prazer da sucção ao invés de ficarem brigando?

O fato é que, naquele domingo, dia do Senhor, houve um culto e, em seguida, o pastor tentou, sem êxito, converter Maria das Dores. Mas a família toda foi batizada mergulhando em uma pequena piscina localizada em uma sala à direita do altar, onde cada batizando se molhou dos pés à cabeça, vestindo uma túnica branca sobre a roupa.

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