• Veja também as capas anteriores!

  • Políticas do Ambidestria

    O Ambidestria todo está sob licença Creative Commons. Em caso de citação, não se esqueça de mencionar o nome do autor do post e o link direto para o post em questão. Não são permitidas alterações do texto.

    Veja mais detalhes na página de Políticas
  • Arquivo

  • Arquivo Especiais

    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
  • Acesso para autores

SENTIDO INVERSO – Antologia de poemas

Falarei neste mês de uma antologia de poemas publicada pela editora Andross, chamada Sentido Inverso na qual estão trabalhos de dois autores que são meus amigos próximos, André Nogueira e Tomaz Amorim. Faço-o por diversos motivos: por necessidade pessoal de evidenciar a poesia novíssima (por pior que seja, e isso logo veremos), por insistência dos meus caros colegas, por obrigação moral de criticar alguns aspectos dos métodos duvidosos utilizados pelo mercado editorial dessa categoria, entre outros que só a mim cabem e que podem ser, com o bom senso que espero dos meus leitores, facilmente subentendidos.

A travessia do livro é penosa. O número extensíssimo de textos que não ouso chamar de poemas vai desestimulando o leitor a cada página, e os fracos fiapos de esperança que talvez se insinuassem durante as primeiras 100 páginas vão sumindo lentamente, até se converterem em impaciência declarada e antipatia prévia a tudo o que dali vier. Isso, devo confessar, dificulta a eventual percepção de um ou outro valor poético menos ingênuo que possa aparecer entremeado naquela sopa de adolescência; e se me detive cuidadosamente sobre os poemas dos meus amigos, o fiz somente por estar tranqüilo quanto a procedência dos textos, um dos quais vi nascer, dar seus primeiros passos tortos e finalmente erguer-se mais ou menos maduro.

É enorme a quantidade de poemas que procura se sustentar em afirmações pretensiosas de “verdades” (ou de verdades pessoais, interpretação malsã do relativismo absoluto) enunciadas com um tom prosaico e inexpressivo, de quase nenhum teor imagético. Quando se arrisca uma ou outra imagem visual, vemos a queda triste dos poetas no poço infrutífero do lugar-comum de expressões já solapadas pelo uso excessivo, em formulações ingênuas como “vai tempo varrer o resto das folhas amareladas dos poemas de outono”. Não se nota quase nenhum esforço de depuração da linguagem, o que dá origem a obras linguisticamente rarefeitas, desinteressantes, sentimentalóides; o abuso indiscriminado do verso livre, herança maldita de Whitman que vem sendo tão equivocadamente utilizada nas manifestações da poesia do século XX, é de provocar dó. Mais desolação ainda nos acomete quando vemos se repetirem poemas em primeira pessoa que tematizam o “eu”, num despreparo tal que faz os escritores confundirem atrapalhadamente o eu-lírico com o eu-íntimo do autor. Resultado: uma verborragia chorosa e impensada, poemas vomitados sem revisão ou rigidez de espécie alguma, aborto lingüístico de um impulso talvez interessante, mas que não transcende a barreira do sentimento desregrado para a organização textual necessária a qualquer peça que se pretenda Poesia.

Transcrevamos uma estrofe da página 131 para mostrar aos leitores a concepção de poesia compartilhada pela maioria dos autores publicados nessa antologia:

 
Essas pobres linhas
Que aqui escrevo
Nada mais são
Que a minha alma.
Sem censura e sem medo.
 

Senhores, não possuo uma natureza autoritária. Sou partidário da liberdade e da tolerância, e poderia até ser o mais liberal dos homens. Mas as Musas não são assim. Quando se trata de poesia, elas exigem uma auto-vigília constante, uma repressão de si mesmo implacável, a navalha impiedosa de rigor quase militar. Eu, mero escravo destas, tenho o dever de denunciar os excessos observados nessa antologia, e mesmo consciente de que as palmadas desferidas nessas linhas não servirão de educação tardia para nenhum pseudo-poeta mal-acostumado, continuarei com elas sempre que julgar necessário, e talvez até em alguns momentos que não julgar assim por mero comprazer do ato.

Uma vez aliviado das angústias que me assaltaram durante a leitura do livro, mudo agora o discurso para uma análise séria (porém breve) dos textos de Tomaz Amorim e André Nogueira, sobre os quais não emitirei julgamento definitivo para não soar demasiadamente (permitam-me o seguinte termo) babão.

O poema de André, dividido em 5 partes, consiste numa ascensão erótico-messiânica de difícil acesso, devido a densidade que a contensão da linguagem imprime em cada palavra. Versos de 2 ou 3 palavras atraem a atenção para cada uma delas, o que numa leitura pausada e cuidadosa cria um efeito de solenidade e placidez envolventes. O poema evita ser chato pela erupção cíclica de atenuadores, como “borboleta”, “garota”, “Sagrado Coração em figo”, expressões graciosas e leves que amortecem o caráter hermético típico do estilo desse poeta. Recomenda-se, aliás, que a leitura seja feita mais de uma vez, com um bom dicionário ao lado, em voz alta e em silêncio; cada processo de imersão gera uma percepção nova de sentido, que por vezes se revela num ritmo cadenciado e musical, por outras em imagens inesperadas e surpreendentes, outras ainda numa malícia subcutânea e inteligente.

O título, Aquaríssima, já nos mostra uma preocupação atenta com os processos de criação de efeitos exigidos durante a torção da linguagem trivial em linguagem poética. Aquário, como sabemos, é um substantivo; este por sua vez evoca uma série de características comuns aos aquários, que é algo como uma liquefatez (desculpem o neologismo), uma coloração específica, uma pureza e uma opacidade. O poeta, todavia, não se detém na palavra aquário, por si só muito simples; transforma-a em adjetivo através da adição de um sufixo aumentativo –íssima, que cria o termo Aquaríssima. O “I” acentuado e destacado tem sabor próprio e reverbera foneticamente com o azul imediato da palavra. Concluindo o processo, André volta o termo nessa nova roupagem a característica de substantivo, usando-o na primeira parte como um vocativo que se confunde com o próprio nome da interlocutora poética a quem o discurso do poema se dirige.

Transcreverei aqui a terceira parte; aqueles que quiserem ler o poema inteiro podem entrar em contato com o autor ou comigo mesmo, que farei prazerosamente a ponte; tenho convicção de que André disponibilizará seu texto a quantos olhos queiram aprecia-lo.

 
IV
 
O ensejo do seu sobrecenho
embriagando-se –
 
da mesa, da minha palma que o cobre e a piscadela
expirada em si mesma.
 
Borboleta,
que junta as asas entre a aljava que alfinetou-a.
 

Quanto ao Tomaz, comentarei apenas um dos dois poemas que ele decidiu publicar na antologia, que se chama Puta Chinesa. Tomaz tem um estilo bastante diferenciado do de André; sua leitura e mais fluente e mais oral – o poema possui inclusive um trecho em prosa, que no meu julgamento é a melhor passagem do poema, a qual já escolho previamente para transcrever -, o que não significa uma preocupação menor com a linguagem ou um desconhecimento dos mecanismos de composição que acionam certos resultados poéticos. Algumas estrofes poderiam ser mais enxutas, creio eu: a primeira tem dois versos não muito bem resolvidos, e a terceira é um pouco ousada demais. A segunda estrofe é expositiva e simples, mas fique aqui isso como um elogio; como a primeira é introdutória do cenário somente, a separação entre estrofes que prepara a entrada da personagem tema – a prostituta oriental – dá um lirismo tocante a essa passagem. O uso de derramada nesse momento é especialmente feliz, pelo estranhamento imediato que causa e a seguinte associação semântica que se abre em possibilidades instigantes.

O texto recai numa temática recorrente desse adorador confesso de Rimbaud, que é a do poeta maldito, perdido na escória do mundo urbano, caído da anterior posição elevada reservada aos poetas. Imagens fortes (mas não apelativas) são semeadas aqui e ali, e com uma leveza agressiva cuidadosamente tecida. O eu-lírico incorpora as mazelas corporais de uma vida pouco saudável e desencantada, sendo o estandarte por excelência da condição do ser humano do nosso tempo (quando digo nosso tempo, refiro-me ao tempo dos que já olham o romantismo como findo, e passaram pelas flores do mal de Baudelaire, pelo decadentismo daí conseqüente, por uma revolução socialista que se mostrou uma das ditaduras mais cruéis do século XX, por duas guerras mundiais e pelo advento da internet – no mínimo).

Transcreverei aqui o já anunciado trecho em prosa do poema. Para os que quiserem lê-lo na integra, vale o mesmo que já foi dito em relação ao André.

 

Se inspiro seu cabelo, polvilhado de diamantezinhos de suor, cheiro e ouço todas as vozes estridentes de sua língua natal, seu olhar no menino fero de sete anos que apanha no chão uma bituca e fuma, o cheiro de esperma de homens e homens, sua perspectiva de três cigarros, um pingado e uma carreira.

 

Minha crítica já está se estendendo demais, mas eu ainda devo fazer uma última consideração. Essa deve ser precedida por uma consideração puramente retórica, mas absolutamente necessária. Vamos a ela: acusar uma entidade ou um indivíduo de qualquer coisa é juridicamente sério e arriscado, comprometendo o emissor da acusação a pesados inconvenientes caso sua afirmação se mostre infundada, podendo ser categorizada de difamação. Ciente disso, o que vou fazer abaixo é apenas a exposição textual de uma impressão subjetiva, que é logicamente infundada e não necessita de provas ou argumentação por não se pressupor uma verdade. É, em outras palavras, uma opinião intuitiva, que se esgota em si mesma e não tem nenhum compromisso com a factualidade das coisas. E minha liberdade de expressão o permite.

Essa impressão consiste no seguinte: a editora Andross me parece (apenas a mim e por processos que transcendem meu próprio entendimento) mal-intencionada ao publicar esses tipos de antologia. Por que? Porque ela inverte a relação básica de mercado existente entre autor e editora, colocando nos seus termos de contrato uma cláusula que obriga o publicado a vender 10 livros da antologia por conta própria, transferindo assim o risco de uma eventual não-vendagem aos autores. O preço sugerido de cada livro é de 19 reais (o preço pago pelos autores na aquisição dos 10 livros mínimos previstos pelo contrato), o que resulta uma despesa mínima de 190 reais a cada autor. Considerando que foram publicados 143 poemas, e cada poema traz consigo o peso desses 190 reais, temos o retorno financeiro imediato de nada menos que belos R$ 27.170 à editora, ao passo que o benefício ao autor é apenas uma ou duas páginas nas 332 do livro. Tenho acesso a esses dados porque eu mesmo submeti um poema à antologia, e sendo aceito, desisti de prosseguir precisamente por essa condição agressiva a minha dignidade. Sei lá eu quanto se gasta na confecção desses livros, e quanto custa pagar o salário dos funcionários da editora; esses valores não me interessam nem um pouco. A relação invertida já me soa absurda e despropositada, e só é aceita pelos autores por causa da estrutura injusta de nosso mercado editorial, bem como graças a um pouco de vaidade de vários dos antologiados.

Anúncios

3 Respostas

  1. Acho que você se envolveu demais no assunto, de forma que o tom e o jeito como você escreveu fosse mudando ao longo do texto, chegando numa revolta de “Sei lá eu”.
    Eu li o último parágrafo com um sorriso irônico e com saudade de tomar café com leonardo sem ser aquele apressado café de intervalo de aula.

  2. Léo,
    vc já deve saber que eu não entendo lhufas de poesia. Mas vim ler seu texto, afinal o Cazé comentou e querendo ou não é o texto do Léo (e inclusive eu venho preparada para entender pouco).

    Vou ser bem sincera: eu pulei a parte das análises. Uma “porta para a poesia” como eu sou, não ia adiantar. Gosto da sua forma de analisar e comentar (também porque acredito que os seus comentários têm bastante relevância). Meu único “problema” com o seu texto é a linguagem quase acadêmica. Em alguns trechos eu me senti lendo uma tese, e quase precisei abrir o Houaiss do PC pra me localizar.

    Ah, e vale ressaltar: achei interessantíssima a sua posição de recusar a publicação mediante as condições da editora. Não desmereço de forma alguma tanto o Tomaz quanto o André, que aceitaram o acordo, mas achei a sua posição coerente com os seus princípios.

  3. Leo, acho que você deve tomar cuidado para que sua crítica não soe tão adolescente quanto os poemas que você leu. Há muito ódio na sua bronca no começo do texto. Você parece mais querer convencer o seu leitor a não ler o livro do que realmente dizer que é ruim.
    Acho também que você se apega a detalhes desproporcionalmente. Por exemplo, você gasta mais linhas para interpretar e descrever o título do poema do que para interpretar o próprio poema. Não seria um problema se a explicação não fosse redundante.
    Apesar disso, gosto muito do seu estilo de escrita, gosto do seu vocabulário e da sua ousadia. Só fique atento, pois o jeito de usar essas qualidades podem ser mais característicos do autor que do crítico.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: