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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Minguante

ou, UMA CAIXA VERMELHA NO FUNDO DO POÇO

Enquanto eu fazia o caminho de volta, eu olhei pra cima e tive certeza. Eu minguava. Estranho, mas um pedaço de mim era engolido pelo escuro da noite, e eu minguava no vento gelado do fim do dia. Sem esperanças, minguava. Metros pra baixo do solo, eu minguava. Minguava até ser terra. Minguava pra desaguar no mar. E você não notava. Você não sabia. Você vem e vai, não deixa recado, não deixa boa noite. Eu estava pedindo companhia, minguando na solidão do que eu era e você não estava do meu lado pra me crescer de novo. Eu sabia. Eu sabia desde a primeira hora. Desde o segundo beijo. Mas eu queria. Agora eu olho pra cima e eu só vejo minguantes. Parece que o mundo acaba à minha volta em vento e nuvens que cobrem os pedaços e minguam as horas. Eu queria gritar alguma coisa. Gritar que eu te quero. Mas você não ia me ouvir. A minha voz minguava com as horas e o sono. No sono eu esperava. Na cama eu esperava. Sonhando acordado e me levantando. Ali eu ando em círculos e vejo se você tem algo pra me falar. Pra me mostrar. Pra me dizer. Pra me tocar. Pra me fazer. Feliz. Não. Minguávamos, inegavelmente. Sem saída. Acima de mim, apenas minguantes. Eu queria um abraço. Eu queria você. Sem chance. A nossa lua não é a certa. De novo. Me desperta. Me resgata. Me tira desse lugar em que eu me coloco. Culpa sua. Culpa sua, culpa sua! E não é. Eu sempre soube que você não desceria aqui comigo. Era óbvio. Eu não quis ver. Meu olho bom já estava coberto pela escuridão minguante que me oprime. Eu desci. Mais que isso, eu me larguei. Me entreguei. Despenquei. Quase chovi. E esperava te molhar. Lá no fundo, eu tinha só um quarto sozinho, e uma visão privilegiada de trezentos minguantes. Trezentas memórias do que não foi. Sete mil sonhos perdidos. Doze vontades que eu não tive. Uma pessoa que não me encontrou. Você. No fundo do poço, eu minguava por sua causa. Talvez ainda fosse dia, talvez eu só visse o céu-minguante porque eram o recorte do poço e a luz que construíam a vista. Por sua causa eu doía, o céu não tinha cor e eu me afogava num poço seco. Te esperando, eu era uma caixa vermelha no fundo do poço. Sem a sua mão pra me trazer à tona…

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2 Respostas

  1. lindo, henrique.

    é inovador você usar esse tipo de prosa com frases tão curtas. e eu gostei bastante

  2. Dói mesmo ficar lá embaixo não é!?
    Pois é…estamos todos no fundo do poço, mas parecem existir infinitos deles afinal, estamos todos sozinhos, em lugares diferentes… Tenho minhas dúvidas de que exista alguma coisa “do lado de cima”.
    Henry…cava para direita, ou esquerda…..quem sabe ocê não encontra meu caminho de minhoca?
    Amei o texto!

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