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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Da Cama

Ela dormia no chão daquela parte esquecida da casa. Pensando bem, todos dormiam no chão, próximos da umidade que envolvia o corpo relaxado em brisa tépida. “Cama”, murmurava na frente do espelho. C-A-M-A. Palavra bonita, repleta de detalhes pequenos que inspiravam um ar qualquer de conforto. Dorinha, sua amiga da rua de cima, tinha uma. De madeira detalhada, envernizada e suave ao toque. Uma velha herança de família – “lá do sítio do vovô Paulino, doada por um alemão”.

Ao andar nas calçadas irregulares do bairro, ia brincando com a palavra tão sagrada aos seus ouvidos. Construía rimas das mais diversas dentro do seu léxico reduzido. Considerava certas palavras indignas de serem associadas à “cama”. Lama era uma delas. Como podia uma coisa tão baixa ser posta lado a lado com aquela idéia de um paraíso tão certeiro? A-M-A. Sua rima preferida. Fazia todo o sentido. E ria.

Às vezes, a angústia era tanta que, no meio da noite, sorrateira, fazia a longa viagem do seu quartinho até a cozinha. Pegava as quatro cadeiras e as enfileirava uma do lado da outra, bem juntas. Re-descobria o cobertor empoeirado no alto do armário, reservado para dias de frio, o dobrava em dois e, com a delicadeza de quem estivesse cuidando de um passarinho machucado, colocava-o em cima das cadeiras. Em seguida pegava o travesseiro, deitava e punha o lençol gasto por cima do seu corpo tenso de tanta animação. Quando a mãe a descobria, lá pelas cinco, indo passar o café para o pai, olhava-a ali, serena, naquele teatrinho bobo que tinha construído para si mesma e não podia recusar um sorriso amarelado. Pedia ao pai para levar a menina de volta ao quarto, no colo. A aflição da menina ao acordar e se descobrir longe daquele seu jardim secreto, dos sonhos lindos que só sua cama improvisada proporcionava, não pode ser exprimida em palavras. Aflição maior tinha ao começar a perceber que estava ficando demasiada grande e que as quatro cadeiras logo não dariam conta da sua extensão.

A cada noite que passava dormia mais e mais encolhida. Um dia, o pai veio pegá-la no colo, para devolvê-la ao seu respectivo canto da casa. Não conseguiu. O peso da sua estrutura petrificada em posição fetal anunciava o inimaginável. A última coisa com que sonhou foi um útero gigante que a anexava e a convidava para permear todos os tempos futuros na condição de feto, num mundo-cama, suave ao toque, que era tão maravilhoso e auto-suficiente que dispensava o uso de travesseiro, lençol ou verniz alemão.

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6 Respostas

  1. “Uma vez eu falei pra minha mãe: Imagina as conseqüências na cabeça de uma criança que só foi dormir numa cama aos 6 anos”
    O fim do seu texto parece meio freudiano.
    Incrível perceber os detalhes de uma palavra, C-A-M-A. Já ficou repetindo alguma vez uma palavra familiar vezes seguidas, até o ponto em que ela soasse estranha? Acho que, porque de tanto repetir, os detalhes se abrem e a gente estranha.

  2. Que delícia de texto. Tão leve, flui singelamente até o último parágrafo que exige muita análise para uma interpretação. Realmente me leva de volta ao Japão e a sua infância…

  3. hey, filha… que história triste e bonita.
    quando eu era pequeno eu montava uma cabaninha na sala, não gostava muito de dormir na cama.

  4. que história linda Mariana…

  5. Lindo, lindo, lindo Mari!

    Se eu não lesse o texto aqui não saberia que era seu. Dessa vez você concretizou de vez mesmo. Mas parece que a história só podia ser contado desse jeito mesmo, com singeleza e simplicidade. Gostei muito.

    Depois dá uma olhada no que eu respondi pro seu comentário e me diz o q vc acha.

    bjão!

  6. A estória – ou história – é triste, segundo sugeriu alguém? Eu não consigo concordar com a sugestão. Sobre a beleza de toda a imagem que o texto sugere ninguém duvidaria.

    A maldade do texto é ele ser assim tão miudinho, e nos podar o prazer de ler quando justamente nos animamos a mais fazê-lo. Breve como todas as coisas na vida.

    Pós-escrito: Será que o texto é da mesma Mariana do Pro dia nascer feliz?

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