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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Sertões urbanos

CAPÍTULO I

ORIGINAIS

João acordou resmungando. Joana, a galinha, ficara cacarejando a manhã inteirinha. Aquele apartamento era pequeno demais para um homem, quanto mais para um homem e um animal. Galinha? Animal? Joana era sua única companhia desde que saiu de Cucarama. A única que, como ele, sentiu a miséria sertaneja ser corroída pela miséria urbana. Não. Isso seria um clichê. E dos piores. Na verdade, tudo não passava de um eufemismo, paradoxalmente exagerado, é certo, para justificar sua incompetência e preguiça diante de um passado rigoroso.

Do outro lado, Joana, como animal, esquecera-se do passado (se é que um dia se lembrou dele), e, com este, a identidade do dono. Assim, toda manhã desesperava-se, cacarejando sem parar por não reconhecer a morada em que há oito anos vivia. A respeito desta, pode-se dizer duas coisas: era um velho e sujo apartamento, num velho e abandonado edifício. Naquele andar, apenas os dois. Naquele apartamento, todos os dois.

Desde que ali se instalara, João e, por conseguinte, Joana, optaram pela reclusão. Não saiam nas ruas nem para ir ao mercado. Com o pouco dinheiro que lhes restava da venda do sítio em Cucarama era impossível fazer compras todas as semanas do mês. Esperavam, então, a compaixão do porteiro velhaco do edifício, que a cada quinze dias levava as verduras, os legumes e as frutas que sobravam da banca que seu irmão tinha na feira municipal. Desta forma, a preguiça, já reinante no ser de João-Joana, instaurou-se de vez. Esperavam ávidos, todas as quintas, a visita do porteiro José, o qual também recebia o mísero pagamento das contas ou outra ordem qualquer que aqueles seres inumanos lhe davam. O humilde porteiro cria na lenda contada pela sua avó, nascida também em Cucarama. Tal lenda dizia que, se um dia ele encontrasse um animal que viesse da terra de seus antepassados, este animal deveria ser tratado com todas a regalias do mundo e jamais ser desobedecido. Caso contrário, em sete dias a morte seria um destino certo, já que o tal animal poderia ser a reencarnação de algum dos seus parentes em busca de justiça ou vingança.

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Uma resposta

  1. Ué! Resolveu escrever novel também? Excelente idéia! Rs. Estou ansioso para ler o próximo capítulo.

    Bjão!

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