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Betrayal – Harold Pinter

Betrayal – Harold Pinter

 

Finalmente! A minha prometida peça favorita aqui na coluna, como se eu não estivesse duas semanas atrasado… Ah, vocês entendem, e mais que isso, vocês ficaram mordendo os lábios porque adoraram The Importance of Being Earnest e Bodas de Sangue. Pois eu também fiquei mordendo os lábios ao voltar pra essa peça fantástica, ao voltar pra esse que é o maior dos textos teatrais com os quais já tive contato.

O Básico: A peça se desenrola fora da ordem cronológica. As cenas acontecem retrospectivamente, iniciando-se com um encontro entre dois ex-amantes “having the ocasional drink”. O marido dela era o melhor amigo dele, e ela conta para o amante que contou sobre o caso na noite anterior. Nomes: Emma e Jerry. O marido: Robert. Na cena seguinte (a cena não acontece completamente de trás para frente, e a escolha do momento de cada cena é completamente brilhante!) Jerry e Robert conversam. Jerry, desesperado, conta para Robert que Emma lhe havia contado que contara para Robert sobre seu caso na semana anterior. Mas Robert já sabia; ela contara há três anos, um pouco antes de o caso deles terminar. Emma e Robert vão se separar, mas o caso já terminara há tempos. Jerry se sente indignado com Emma.

A peça mostra as cenas da descoberta do Marido do caso, do amor dos dois enquanto montavam o Flat no qual se encontravam à tarde, do fim do caso, até terminar maravilhosamente numa festa de Robert, em sua casa, em seu quarto, quando Emma volta a seu quarto para pentear o cabelo e Jerry, que está lá, bêbado, sentado no escuro, puxa a mulher do amigo pela cintura. Por uma questão de segundos Robert não ve sua mulher beijando Jerry naquele inverno de 68, em seu quarto. A primeira cena da peça se passa em 77.

Mas a característica fundamental de Pinter se faz no uso dos silêncios:

“É justamente nessa questão que podemos perceber a origem da marca estilística de Pinter. A linguagem não é, como supõem alguns de seus analistas, vista aqui como uma simples “falha de comunicação”: a grande marca de Pinter no teatro são seus longos silêncios, os silêncios ameaçadores que constituem o ambiente de ameaça da peça. Mas dizer que o silencio se estabelece simplesmente por falha de comunicação é algo que demonstra uma leitura bastante rasa. O que acontece é justamente o oposto, as peças de Pinter acontecem justamente no silêncio, em toda a carga comunicativa que esse silêncio tem na própria platéia e na dinâmica do palco. Pinter retira as pausas de seu simples papel secundário no teatro e revela-nos como a peça e a comunicação dentro dela acontecem não só por meio da linguagem. Aquilo que é dito raramente será expresso pelas palavras que denominam o assunto, e ainda assim, não haveria forma melhor de estabelecer a compreensão mútua entre as personagens, entre personagem e autor, entre personagens e público, entre, enfim, autor e público.”*

Mas o que nos apaixona em Betrayal, que não é o fato de ser peça mais revolucionária no teatro de Pinter (isso fica a cargo de The Homecoming), e sim o fato de que, nela, o silêncio não estabelece apenas um clima de ameaça. O eloqüente silêncio Pinteriano, em peças como The Homecoming, The Caretaker e The Birthday Party, tem outro tipo de relação com o público.

“Cada fala dos personagens de Pinter parece gerar algum tipo de tensão, qualquer pequeno trecho parece perfeitamente burilado e escolhido para isso. Mas a grande genialidade do dramaturgo é que ele expande isso através de outro recurso característico seu: o uso imenso das pausas. Ao coloca-las como elemento fundamental do diálogo (no mais das vezes, inclusive um elemento de importância maior que as próprias falas), Pinter aprofunda as tensões geradas pelos dizeres de cada personagem. Recorrentemente, temos no dramaturgo não apenas a ausência de resposta, uma pergunta seguida por um silêncio deliberado, mas uma repetição da situação.

 

“MAX: What have you done with the scissors?

Pause

I said I’m looking for the scissors. What have you done with them?

Pause

Did you hear me? I want to cut something out of the paper.

LENNY: I’m reading the paper.”[1]

 

As pausas potencializam a sensação de dramaticidade de cada fala. Não é, realmente, ausência de comunicação ou falha dela: as personagens estão se comunicando perfeitamente, se assumirmos que comunicar-se significa receber as mensagens alheias, compreende-las e devolver outras em resposta. Só não dizem aquilo que seria esperado, aquilo que seria comum. Mas Pinter é justamente um dramaturgo que revela algo de incomum, que revela o estranho. Por isso, num primeiro momento, suas peças parecem absurdo.”*

Mas o próprio Pinter declara, em um de seus escritos, que as situações nas quais coloca seus personagens poderiam acontecer em qualquer lugar. Isso nos lembra o subtítulo de É… de Millôr Fernandes: “Baseado num fato verídico que apenas ainda não aconteceu”.  A questão é que quando nos deparamos com Betaryal, a situação é outra: aquilo já aconteceu, milhares e milhares de vezes. Mulheres traíram maridos com seus melhores amigos desde o momento em que a humanidade se formou. E se há ameaça nesse silêncio, há também algo a mais. Não é apenas um silêncio deliberado, um ignorar da fala do outro, passando-lhe uma mensagem perfeitamente compreensível: em Betrayal, há um “não saber falar”, uma incompetência em seguir o protocolo de certas conversas.

 

“Pause

JERRY:

Ned’s five, isn’t he?

EMMA: You remember.

JERRY: Well, I would remember that.

Pause

EMMA: Yes.

Pause

You’re all right, though?

JERRY: Oh… yes, sure.

Pause

EMMA: Ever think of me?

JERRY: I don’t need to think of you.”[2]

 

O silêncio aí está para além da ameaça. Uma conversa com uma ex amante. A menção de um filho que poderia ter sido de Jerry, mas que não é. Ele estava na América quando o filho foi concebido. Deus, um filho que poderia ser seu, de sua amante! Com certeza Jerry se lembra disso muito bem.

É óbvio que também há ameaça nos silêncios. Mas aqui, em Betrayal, há ameaça, há indignação, há constrangimento, há inabilidade para a situação… O que Pinter faz em Betrayal, sua peça que nunca poderia admitir sequer uma cogitação de vinculação ao teatro do absurdo, é elevar aquele que se tornara seu recurso estilístico marcante a um status mais elevado. Ao produzir uma peça que não é uma de suas famosas “comédias de ameaça”, ele força o leitor a repensar todo o seu trabalho anterior. Discute, como quase sempre em suas peças, a família. Mas a família, na primeira cena, já está despedaçada.

Meu desejo de falar sobre essa peça, em especial, consistia em destacar esse papel fundamental desses silêncios. Isso dito, poderia falar horas. Mas como sempre, é nas leituras que encontramos as respostas às nossas vontades de verborragia:

 

ROBERT: Oh… not much more to say on that subject, really, is there?

EMMA: What do you consider the subject to be?

ROBERT: Betrayal.”[3]

 

 

*As citações desse aritog que não foram retiradas das peças de Pinter são do trabalho acadêmico Harold Pinter: O Provocante Teatro Britânico de Vanguarda no pós-guerra, de minha autoria.


[1] PINTER, Harold, “The Homecoming”, in “Harold Pinter Complete Works: Three”, Grove Press, 1978, p. 23.

[2] PINTER, Harold, “Betrayal”, in “Harold Pinter Complete Works: Four”, Grove Press, 1981, pp. 162 – 163.

[3] PINTER, Harold, “Betrayal”, in “Harold Pinter Complete Works: Four”, Grove Press, 1981, p.216

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Uma resposta

  1. Como eu faço pra conseguir o texto Betrayal de Harold Pinter, se possivel ja traduzido.

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