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A linguagem do “comum grandioso”: Poesia Mínima, de Helena Kolody

 

O livro-tema da postagem deste mês é de difícil apreciação e julgamento. Publicado em 1986, não traz uma poesia fácil – talvez por ser fácil demais. Se o encaramos como poesia, com todo o valor e a responsabilidade que a palavra imprime, o livro torna-se um objeto hermético e misterioso, possivelmente inteligentíssimo; mas se suspeitarmos da carga literária que supostamente está ali contida, podemos dizer que seu conteúdo é banal e insosso, desprovido de atrativos. Como bem expõe a contracapa do livro, “Helena Kolody continua mestre na arte através da qual ‘o carbono acorda diamante’”. A poesia de Kolody é, sem dúvida, feitas de cadeias carbônicas – falta-nos a segurança para distinguir se ela é um refinado diamante ou um mero grafite quebradiço.

O arcabouço formal do livro é facilmente identificável: trata-se de uma coletânea de poemas curtíssimos, marcados pela minimização da linguagem, manifestada em versos brancos e livres. O caráter da elocução poética varia entre dois modelos básicos: o da afirmação categórica e ampla, de teor metafísico e absoluto, construída a partir de elementos simples, sob uma enunciação ingênua e quase doméstica; e o da simples enunciação descontextualizada, uma espécie de registro da constatação. A contenção levada ao extremo gera, por vezes, um belo e interessante efeito de multiplicidade sintáxica na poesia de Kolody, faceta que exploraremos em breve; todavia, há momentos em que não gera nada de imediato, o que ameaça o artifício de tornar-se vazio e raso. Uma percepção interessante se encontra na relação entre os poemas e seus títulos: cada título contém em si mesmo a “essência” da expressão poética, como um resumo direto dos versos; outra maneira de encarar o mesmo fenômeno é dizer (e cremos que esta é mais apropriada) que os títulos representam um conceito maior e abstrato, ao passo que os poemas funcionam como um desenvolvimento brevíssimo desses conceitos, ou um exemplo concreto de sua manifestação.

 A aproximação da poética de Kolody com o Haikai é notável. De fato, a poetisa foi a primeira autora brasileira a publicar poemas do gênero japonês. O insight imediato flutua sobre ambas as escritas, e há poemas do livro que se utilizam de elementos naturais (tais como o corisco, o trovão, as nuvens) à maneira nipônica em sua elaboração. O seguinte poema ilustra como isso se desenvolve:

 

INSPIRAÇÃO

 

Pássaro arisco

pousou de leve…

 

Fugiu!

 

O elemento pássaro, funcionando como metáfora óbvia da inspiração, não deixa de evocar o pássaro-animal. O imediatismo da ação e a percepção rápida das coisas, a associação possível entre a experiência sensorial e o conceito subjetivo, tecidas em paralelo (título-poema), tudo isso nos revela a influência da estética japonesa em Kolody. Mas certamente incomoda o leitor a facilidade com a qual se pode construir um desses exemplares que, independentemente de estarem apoiados numa tradição específica, pouco nos comunica. Numa era de excesso, o minimalismo pouco denso de Kolody se dissolve diante da mente frenética contemporânea acostumada ao bombardeio informacional. Sua parada súbita não revela o denso, mas sim o comum.

Desenvolvamos agora a idéia anteriormente pincelada da “multiplicidade sintáxica” presente em Kolody. Para isso, transcrevamos dois poemas:

 

PINGO DE CHUVA

 

O que penso

o que digo,

o que sou . . .

pingo de chuva no mar.

 

 

LINGUAGEM

 

Linguagem crifrada,

guarda o código genético

os signos da vida.

 

A vida conjuga os seres

e transmite sua mensagem.

 

Uma leitura rápida do primeiro poema nos leva a seguinte conclusão: que o quarto verso é uma resposta aos três primeiros, ou pode ser ligado a ele pelo verbo ser (O que penso é um pingo de chuva no mar; o que sou é um pingo de chuva no mar; etc). Mas isso não está no poema. É apenas o costume e a facilidade de aproximação que existe entre os versos (de fato, podemos comparar nossa pequenez no mundo à de uma gota no mar), o vício da linguagem e do pensamento cotidiano, que criam essa conclusão. Quando olhamos para o quarto verso separadamente dos outros três, podemos encará-lo como uma ação: e a partir daí desenha-se um cenário e uma possibilidade de mudança nesse cenário (fazia sol na beira do mar e começou a chover). O eu-lírico questionava-se sobre questões vagas e houve uma mudança na natureza, que lhe comunicou algo, e que só assume significação quando aproximada do questionamento mesmo proferido anteriormente. “Porque a poetisa usou pingo de chuva em vez de gota d’água?”. Essa “suspeita” diante da naturalidade sintáxica entre os versos do poema (que os três primeiros sejam sujeitos, o quarto seja um predicado, e que eles estejam intermediados por um “ser” subentendido) torna a leitura mais atraente e frutífera.

Da mesma forma, o segundo poema pode ser reconstruído se observado com agudez. A frase comum seria: A linguagem cifrada guarda o código genético que são os signos da vida. Mas a frase poética permite outras visões: não seria linguagem cifrada um vocativo, e guarda não estaria no imperativo, como uma ordem ou um pedido? A presença da vírgula cria essa possibilidade, e a separação em verso a torna mais profunda. Da mesma forma, quem guarda quem? Será que o código genético guarda os signos da vida, ou será que a linguagem cifrada guarda ambos, que são a mesma coisa expressa duas vezes em paralelo? Não poderia ser também ainda linguagem cifrada um aposto qualificador de código genético, na seguinte formulação: O código genético é uma linguagem cifrada que guarda os signos da vida? Esse efeito merece destaque, e valoriza consideravelmente a por vezes insossa poesia de Kolody. É possível que a resposta caia num relativismo extremo, presente no seguinte poema:

 

SIGNIFICADO

 

No poema

e nas nuvens

cada qual descobre

o que deseja ver.

 

Encerramos o comentário por aqui, que fica mínimo em função e respeito ao mínimo que essa poesia apresenta.

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Uma resposta

  1. acho que um bom ensaio é aquele que te ajuda a ler melhor (como vc achava q deveria ler mas não conseguiu) ou ler de um outro jeito, acho q vc conseguiu isso com esse…

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