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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Como você quiser entender

A primeira vez que nos falamos foi por causa de uma ficha de cachorro-quente na fila da festa junina da escola do meu irmão mais novo. Lembro que emprestei para ela algumas moedas para que ela não precisasse gastar sua nota de 50.

Desde então as coisas têm tomado emprestado cheiros e cores diferentes das que eu costumava usar. Ela era tão esquisita, com aquele rosto de grave e sublime, muito bem-acabado, como se todos os rostos fossem um rascunho para o dela. Não era bonita, como pode parecer, tinha um rosto simples, uma cor morena avermelhada de sol, olhos muito escuros emoldurados por cilhos curtos e bastos. Me sorriu quando lhe estiquei a mão com as moedas suadas. Me senti encantada, quase emocionada, abaixei os olhos com vergonha.

Logo eu, com vergonha!

Depois de três semanas começaram as aulas do colégio interno. E lá estava ela, no primeiro ano. Eu já estava no terceiro ano com todas as honrarias: várias suspensões, advertências, bilhetinhos infindáveis para os “responsáveis pela aluna: …”. Confesso que nunca achei graça tirar notas vermelhas. Tirar notas baixas não me fazia nem mais má nem mais maneira.

Ela não chamava muita atenção, mas eu notava cada mania, o jeito de amarrar o cabelo, as cores dos tênis: ela tinha três All Stars diferentes (um vermelho, um preto e um amarelo), um tênis de basquete e um de futsal para as aulas de educação física. Sempre com a saia do uniforme mais larga do que deveria e camisetes grandes demais.

E o sorriso! Mas era tão grande, enchia o rosto inteiro e contaminava os olhos pretos de uma vivacidade esquisita, com um brilho de quem vai chorar.

Arrumei um jeito de ficar perto dela. Descobri que fazia aulas de dança à tarde e comecei na mesma turma que ela. Ficava perto dela para que a professora nos mandasse fazer os exercícios juntas, acabamos virando amigas nas aulas de dança, e convenci minhas amigas más e populares de que ela era fantástica e seria uma ótima aprendiz de nossas influências maléficas. Ah! O nome que dávamos-nos era “Máfia” e o que nos davam era “Meninas”.

Fiz questão de manter as Meninas longe dela e mantê-la perto de mim. Senti, no entanto, depois de muito tempo, que não entendia nada dela, não me falava de garotos, de quem gostava ou não gostava, quais seus filmes preferidos, se ela gostava ou não de Queen ou Eagles. Eu não entendia! Na hora do almoço ela contava casos engraçados e jamais criticava a comida da bandeja, ria muito durante a piada e nunca se entendia o que ela dizia, mas eu ria assim mesmo, porque a risada dela me fazia rir, do que se tratava a piada eu não poderia dizer.

Fora das aulas ficávamos juntas e eu conheci as pessoas que ela conhecia. Meus amigos me pediam para apresentá-la e eu sempre dava uma desculpa.

Sabe, depois de um tempo, fui achando ela mais e mais bonita, acreditei que fosse a garota mais bonita e a mais interessante, e por isso jamais deixaria meus amigos revoltados sem causa chegarem perto dela. Achei que ela era minha. Mesmo assim ela me fugia, eu não sabia nada, e descrevê-la seria de muito mal-gosto. Como poderia chamá-la de engraçada se um palhaço de circo já havia sido chamado de engraçado, ou encantadora quando minha mãe chamava meu canarinho de encantador o tempo todo, ou mesmo usar a palavra “macia” para caracterizar a sua pele quando essa palavra era tão irritantemente repetida em comerciais de amaciantes de roupas? Eu não podia.

O aniversário dela estava chegando e eu não sabia o que dar de presente. Escutava cada frase com atenção procurando alguma pista para saber qual o presente perfeito. Acabei dando-lhe de presente um caleidoscópio enorme e uma agenda que eu mesma fiz, com folhas de sulfite amareladas com nanquim, café e chás, com uma capa de coro curtido e com um botão de bronze para fechar com uma tira de coro vermelho.

Ela gostou, ou me pareceu que gostou, pois vi um rosto encantado seguido de um sorriso enorme quando lhe dei o presente.

Duas semanas depois do aniversário dela sua mãe morreu. Fora e dentro do colégio, acompanhei-a durante todo o tempo, que me custou muitíssimo a passar. Eu ofereci meu ombro e ela não chorou, não precisou de minhas pernas de apoio nem uma única vez. O que eu poderia dar a ela? Chamei-a para ver um filme comigo depois de passadas três semanas do velório.

—Por que você não quer ir? —Disse chateada.

—Porque eu não quero. —Passou a perna por cima do cano da bicicleta, ajeitou a saia e sentou no banco.

—Por que você não quer?

—Não tenho vontade, é o melhor motivo! — Deu uma risada e se pôs séria. — Se eu te dissesse um motivo, eu não estaria te dizendo minha vontade, mas sim uma circunstância. — Pausa. — Queria que você não abusasse do meu apreço para me coagir a dizer e fazer coisas que eu não quero. — Suspirou e concluiu. — Só não tenho vontade, mas se você quiser ignorar isso e precisar muito ir ao cinema, posso fazer companhia pra você.

— Não precisa, só queria te fazer espairecer. Mas se não quer… — Eu disse atarantada e envergonhada.

Ela me olhou e sorriu um sorriso triste. — Obrigada.

E ela foi embora com sua bicicleta vermelha e cinza sem cestinha.

Seu luto não durou o mês inteiro, em pouco tempo ela ria, contava piadas e dançava como sempre. Seu sorriso era o mesmo, mas nos seus olhos, o brilho molhado me assustava. Achei-a muito distante de mim, com qualidades que eu não tinha e não entendia. Acabei me afastando.

Ela notou e me chamou para conversar atrás do colégio. Eu fui com muito receio.

Ela virou-se para mim com seu rosto sério e fitou-me, não consegui sustentar o olhar e baixei os olhos. Ela sorriu.

— Vou te contar uma história.

— É uma história com final feliz? — Disse eu num gracejo.

— Eu ainda não sei o fim, ou mesmo posso ter esquecido. — Ela dizia tudo sorrindo, mas acho que nunca vi um rosto tão triste, seu sorriso vacilava com contrações involuntárias nos músculos da bochecha, que davam ao seu sorriso uma tristeza mais cristalina e vívida que qualquer careta ou soluço.

— Minha mãe — continuou — era uma mulher estranha. Não gostava das minhas manias, das minhas qualidades, muito menos dos meus defeitos. — Estacou, e surgiu um silêncio incômodo. Voltou a falar como saída de um transe. — Ela odiava que eu tocasse violão, dizia que era coisa de maloqueiro, de hippie. Apagava as bitas de cigarros nas pontas dos meus dedos. — Olhava para as pontas dos dedos. — Assim eu parava de tocar por um tempo. — Pausa. — Interessante como o corpo se cura rápido! —Disse como que para si mesma.

— Sabe, — numa súbita afobação — aprendi a tocar as músicas dos Bee Gees que ela adorava, para ver se ela me deixava estudar violão. — Olhou pra mim com os olhos d’água.

— Eu sinto falta dela, mas não quero ela de volta. — Sorriu mais uma vez, virou as costas e foi embora.

E assim eu ainda passei muito tempo pensando sobre o que ela tinha me dito, mas agora eu era uma coisa separada dos nomes, eu não me resumia ao meu nome, nem às Meninas, nem a ela.

Passávamos horas juntas sem dizer palavra, às vezes olhávamos uma pra outra e ríamos. Entendíamos nossas frases apenas em expressões, sorrisos e olhares.

Ela me deixava com a minha mania de desenhar caricaturas de todo mundo, e eu a deixava tocar o violão dela no pátio, de noite, quando ninguém podia ouvir.

Subir no telhado era nosso segredo preferido. Acordávamos antes de todos e víamos o nascer do sol. Certo dia ela quis subir no pára-raios e escorregou lá de cima. Acabou queimando a palma da mão e deixando-a em carne viva. Não gritou, não chorou, apenas mordeu o lábio e deu um gemido baixinho. Perguntei se tinha machucado muito, ela respondeu com um sorriso.

Escondeu as mãos de todos e fazia os curativos sozinha.

Algum tempo depois eu consegui mudar para o quarto dela, apenas convencendo algumas calouras de que eu podia fazer isso. Quando ela me viu arrumando a cama do lado da dela, me perguntou de como tinha acontecido a coincidência, eu apenas sorri e dei de ombros.

Logo na manhã seguinte, a diretora do colégio nos chamou para conversar. Disse que falavam sobre nós duas, de que éramos próximas demais e que agora até dormíamos juntas. Disse que nossos responsáveis já estavam a par do problema e teriam que assinar um documento para autorizar a mudança dos quartos. Não poderíamos mais dormir no mesmo quarto.

Ela não disse nada quando saímos da sala da diretora e não disse nada quando fomos chamadas de volta pra lá no dia seguinte. Meus pais e uma tia dela estavam lá. Falaram de nós na terceira pessoa e discutiram sobre nós sem nos perguntar a opinião uma única vez. A tia dela decidiu tirá-la do colégio e que disse que buscaria as coisas dela no dia seguinte.

De noite, não falamos nada, e por muito tempo eu ouvi a respiração dela, adivinhei que ela estava acordada. Chorei, muito e em silêncio. Ela não disse nada, só levantou da cama dela e deitou na minha, me abraçou muito forte pelas costas e eu senti meu ombro esquentar com as lágrimas dela. Virei-me de frente para ela depois de muito tempo.

— Se eu te disser uma coisa você não vai me entender mal?

— Entendo como você quiser que eu entenda.

— Mas é que andam falando, eu não queria que você achasse que eu… — Hesitei. — Mas eu te amo muito.

Ela riu com suas bochechas molhadas. — Você não precisa me dizer mais nada. Isso não tem como ser mal entendido.

Dormimos.

Na manhã do dia seguinte eu peguei um desenho que eu tinha feito do rosto dela e escondi nas coisas dela. Ela nunca tinha visto este desenho.

Ela arrumou suas coisas foi pegar o violão para guardar. Olhou um pouco para ele e me sorriu. — Vou tocar essa música pra você.

Era uma música doce, leve, e a letra dizia palavras felizes. No entanto a música era melancólica e, ouvindo ela tocando pela primeira e última vez, percebi o quanto sentiria falta dela.

Ela foi embora antes do almoço. Colocou as malas no carro, abriu uma mochila e pegou a agenda que eu tinha dado de presente, tirou uma folha de dentro e me entregou. Abriu a folha e me mostrou um auto-retrato que eu tinha feito.

— Essa fica comigo. — Abriu a agenda e pegou outra folha dobrada. — Essa fica com você. — Chegou mais perto de mim e me disse, bem baixinho, no ouvido. — Eu odeio cachorro-quente. — Sorriu, acenou para as outras estudantes que tinham vindo se despedir e foi embora.

Fiquei muito tempo parada olhando para a rua. Abri a folha que ela tinha me dado e lá encontrei o retrato que eu tinha feito dela.

Guardei a folha bem guardada e me prometi não olhá-la mais, a não ser que eu me esquecesse do rosto dela. Mas, eu terminei o colégio, fiz faculdade, viajei, e nunca precisei olhar o desenho, me lembrava ainda do toque dos dedos queimados na ponta dos meus dedos, me lembrava da música e do rosto dela enquanto dormia. Me lembrava de quase tudo sobre ela, o animal mais bonito que eu vi em toda a minha vida.

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4 Respostas

  1. Lindo!

    uma beleza enorme nas coisas mais simples e uma beleza enorme na coisa mais importante…

  2. sensacional, alda. simples e sensacional.

  3. Aldinha…já te disse o que acho deste texto: é meu preferido.

  4. OK… depois deste escrito, eu te represento comercialmente.

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