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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Vai a mesa, fica o maço.

EM primeiro lugar, gostaria de pedir desculpas ao leitor por uma nova mudança nessa coluna. Continuaremos com nossa platéia do canto, olhando para peças de teatro. Mas a estrutura mudará um pouco.

No início,  haverá um link direto para um resumo do . Em segundo lugar, a breve análise já conhecida. Assim funcionará agora a coluna. A mudança mostra que o ambidestria cumpre muito bemum de seus objetivos, que é o de aprimorar o estilo dos autores a partir das críticas que são feitas. Não haverá mais indicação da próxima peça.  Não falarei hoje de Betrayal, de Pinter.  Peço desculpas pela mudança, mas asseguro que vem para que a coluna melhore. Agradeço aqui, especialmente, à Jacqueline e ao Leonardo pelas críticas.

Aproveito essa introdução, por fim, para deixar registrado aqui que o título desse post é uma homenagem explícita a meu grande amigo Gabriel M. E a peça escolhida para a resenha de hoje é com certeza uma de suas diletas: Bodas de Sangue, de Federico García Lorca.

 

……………………………………………………………………………….

Uma peça fantástica sobre o amor, o desejo, a traição, a poesia e o luto.  Aqui vai o resumo (em espanhol):

“El argumento principal de la obra es el futuro matrimonio que unirá al novio con la novia. Pero la tragedia está presente e impedirá que este matrimonio llegue a consumarse. La novia, que guardaba su amor por Leonardo en el olvido, vuelve a despertar cuando ve a su antiguo novio el día de su boda.

La obra plantea el conflicto entre dos familias. Por un lado, la de los Félix, que es la parentela del novio y la madre, quien ha perdido a su marido y a uno de sus hijos por culpa de la otra familia en litigio. La familia de Leonardo también abocada a la catástrofe porque este aún está enamorado de la novia, una joven con la que estuvo saliendo durante tres años y que aun estando él casado y con un hijo, no ha podido olvidar.

Finalmente el novio y la novia se casan pero al poco, la novia y Leonardo se escapan juntos para hacer realidad su sueño de estar juntos. El novio los persigue por el bosque hasta que los encuentra y entonces, en una lucha entre Leonardo y el novio, ambos mueren.

La novia, que siente que ya no tiene motivo para vivir, visita a la madre, no para pedirle perdón sino para que le quite la vida a ella también. La madre, por su parte, no es capaz ni de tocarla. Aunque desearía poder atender la petición de la hija, no tiene fuerzas para hacer nada, al perder lo único que le quedaba: su hijo.”

(Fonte :http://es.wikipedia.org/wiki/Bodas_de_sangre#Argumento )

Toda a simbologia de Lorca, seu universo particular, a Luz, O Cavalo, a Navalha, o Sangue, a Morte, o que cada uma dessas coisas representa na peça. A energia teatral,a  sensualidade espanhola, está toda ali. A casa pintade de Amarelo. A luz azul, as cores, a lua que entra no cenário, vozes… A peça de Lorca se utiliza de cor, de luz, de recursos que nos fazem perceber por que é que o teatro não apenas se tonra uma arte única e diferenciada, mas que nos permite ver que o teatro é, sim, literatura!

Mas comentar algumas nuanças é sempre necessário, e apesar de toda a sensualidade e do amor como o tema central da peça, não nos ateremos a ele. É para outra personagem que queor chamar a atenção aqui, para essa persoangem que, para mim, é tão central, é tão importante para o contexto espanhol que Lorca viveu: A mãe.

Notamos que nenhum dos personagens tem um nome próprio: a mãe, o noivo, a noiva, Leon… Ei, sim, um deles tem nome! LEONARDO. Aquele que é o pivô da traição, aquele que é o desejo encarnado, que gera toda a energia da peça… Cada aparição de Leonardo no palco é uma explosão de energia teatral.

“CRIADA:

Não encontrou ninguém?

LEONARDO:

Passei por eles a Cavalo.

CRIADA:

Vai acabar matando o animal de tanta correria.

LEONARDO:

Se morrer, morreu!”

Não, Leonardo não trocará seu reino por um cavalo, mas trocará todos os cavalos do mundo pela Noiva. Se morrer, morreu! Assim com os cavalos, assim com o próprio Leonardo. Se essa navalha, “uma coisa pequena”, que dá “cabo de um homem, que é um touro” vier para matá-lo, que venha, mas ele morrerá junto à amada. Os homens, dispostos aos sacrifícios, à exposição à pistola e à navalha nessa Espanha tão sensual, nessa andaluzia onde a Lua e a Morte conversam, onde os cavalos correm pelos amantes e onde estouraria, no ano do assassinato do poeta, uma terrível guerra civil, deixam para trás as noivas?

E o que acontece com as mães quando as vidas de seus filhos são ceifadas pelo amor, pela política, pela guerra?

“MÃE:

Nem que eu vivesse cem anos, não falaria de outra coisa. Primeiro seu pai, que cheirava a cravo; e só o tive por três ano, tão curtos. E é justo? Depois seu irmão. E é possível que que uma coisa tão pequena como uma pistola ou uma navalha possa dar cabo de um homem, que é um touro? Não vou me calar nunca. Os meses passam e o desespero me perfura os olhos e pica até nas pontas do cabelo.”

Não é difícil entender por que García Lorca, o maior poeta espanhol do período, foi assassinado. Como tolerar um poeta desses dentro de um regime fascista? Como permitir que as viúbvas da guerra, que as mães dos soldados mortos, fossem ao teatro ver essas bodas de sangue, e se vissem a li ecoadas, seja pelas mãos dos Félix, de Franco, dos anarquistas e socialistas… A morte, essa mendiga cruel carregando a sua navalha, deixando seus estragos por todo lugar.

“It can’t even get the things done
that are part of its trade:
dig a grave,
make a coffin,
clean up after itself.
Preoccupied with killing,
it does the job awkwardly,
without system or skill.
As though each of us were its first kill.

Ela olha. Olha e diz:

“Vai ser aqui, e logo. Estou cansada.

Caixões abertos, com seus brancos fios,

esperam estendidos pela alcova

corpos pesados, de colo ferido.

Não desperte um só pássaro, e que a brise,

recolhendo em seu manto esses gemidos,

fuja com eles pelas negras copas,

ou os enterre no musgo macio.”

Mas ao levar seja quem for, essa mendiga velha deixa para trás o trabalho restante, que terá de ser executado por alguém. E quem é esse alguém, nos tempos mais cruéis? A mãe, contrariando as leis da natureza, a mãe, chorando ao enterrar cada um de seus filhos.

Vingança? Não, a vingança é o assunto do qual os homens se ocupam, é o motivo pelo qual morrem, é aquilo que é mais odiado pelas mães. Os homens não entendem esse ódio, só entendem o desejo, a necessidade da vingança. Mas quando a responsável pela morte dos dois, a noiva, pede que a mãe do noivo a mate, pedepara chorar com ela, e clama por sua honra, a mãe responde:

“Mas que me importa a sua honra? Que me importa a sua morte? Que me importa nada de nada? Benditos sejam os trigais, porque meus filhos estão debaixo deles; bendita seja a chuva, porque molha a cara dos mortos. Bendito seja Deus, que nos estendo juntos para descansar.”

Mas a morte se recolhe, deixando para trás tudo aquilo que é material, nessa maravilhosa peça, que sim, é também sobre o amor, mas que queremos ver aqui, fundamentalmente, como uma peça sobre o luto e o sofrimento do luto materno. A morte se recolhe, o instrumento da morte se recolhe:

“MÃE:

e some dentro da mão

mas como penetra fria

pelas carnes assombradas!

E pára ali, bem no abrigo

onde treme emaranhada

A obscura raiz do grito!”

……………………………………………………

*Os trechos citados em português são da tradução de Antonio Mercado da peça Bodas de Sangue, de Federico García Lorca. A citação em inglês foi extraída da tradução disponível no site do prêmio Nobel de Literatura do poema “On Death, Without Exaggeration”, de Wyslawa Szymborska.

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