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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Subcutâneo: das razões escritas

Quis o sangue e a incandescência do vinho. Teve o pútrido lodo, a viscosidade do desespero. Suas veias, infectas da lânguida e vil matéria, impunham-se à luz tal como a realidade impõe-se ao indivíduo. Entretanto, mais uma vez a vida suplantou a morte e a inconsciência tornou-se o presente de uma imensidão de passados pressupostos.

Olhos, se os tinha e se os conseguisse ver, eram tão cegos e negros como o silêncio das lágrimas que acompanham as tempestades no deserto e tão impenetráveis como um fio de luz de um abismo infindável. E com a lívida face e os músculos que não possuía, destruía olhares sem jamais os ter navegado, apenas com a petulância de possuir seu próprio tempo, no qual ninguém o ouvia por não querer ouvir. A passos sólidos, ostentava ruínas, enfrentando a ventania que vinha das ruas a açoitar e cruciar as trêmulas mãos na indizível recordação do esquecimento. Quanto à lucidez, para que a queria? Para vê-la imperdoavelmente vencida pela noite, fragilizada pela perturbadora embriaguez da escuridão, enfim, para ter a medíocre certeza de que desapareceria ao menor sinal das brumas e das trevas do porvir. Nada mais se tem a falar de uma existência inexistente que ignora a insaciável lembrança e nem ao menos reflete a imagem de um ser que nada é.

Fechou a porta. Não, definitivamente não. Como aquele badalar cotidiano da submissão humana à perpétua imaterialidade, o tilintar calculado das taças do vinho alheio em comemoração à desgraça, aos olhares perdidos, lhe causava náuseas, náuseas, vida. O mundo girando à sua volta e ele… apenas tentando gritar sua auto-suficiência, pó. Mas não tinha voz. Somente só e talvez um vão de luz desconhecido, que com o eco da atemporalidade do abandono e do caos mundano tornava as quatro paredes ele, ele as quatro paredes. Um passo e estaria novamente na hipócrita universalidade; não. Já havia decidido que não queria mais o espelho, total e completa inutilidade. Sim, uma última esperança de ver algo ou alguém não seria nenhum crime, não poderia ser. O vão, e suava como se o sol escaldasse o que lhe restava de um suspiro. Contudo, era a última vez que tentava, sabia disso. Há segundos sabia; há anos a tentativa.

Ajoelhe-se verme da podridão consumada: conseguiste a sombra, um princípio de imagem. Com um golpe uma mão destruir-te-ia. Eu, ele, com o olhar fixo em seus próprios olhos, sobressaltados e famintos da admiração pelo desconhecido e baixos de repugnância pelo que conheceu, não suportou a — Felicidade? Ah Felicidade, como és sublime e enganadora; ninguém está preparado para ti, exceto… . Também sou um ninguém, não quero e… quebrou o espelho.

Ainda pôde ver os pedaços de vidro entrarem em sua carne. As forças anularam-se e caía aos poucos, suave e dolorosamente. Os joelhos em matéria viva e os pulsos sendo pregados entre si, ameaçando fundir o corpo ao chão. E com a visão já inerte a este e ao agora próprio vinho, sacrificou-se em olhar mais uma vez aos cacos que pudessem refletir, revelar, lembrar.

Como se desejasse querer ser, era. Correu em direção ao balanço, pois frente ao contentamento não escutava os avisos maternos. Que prazer em sentir a liberdade bater-lhe no rosto quando o brinquedo ia para frente, aceitando o perigo que residia na ausência de onde pisar, no fio de luz daquele abismo infindável no qual penetrava de olhos fechados, a lágrimas de sangue que depois escorriam na face tenra. Sim, o sangue que nunca tivera suava pelo cadáver que brincava. Chorou, bebeu, vomitou ao chão o sangue. Mas logo o balanço voltava para trás, para o plano. Assim, diante do medo da perda, jogou-se ao abismo quando novamente à frente chegou. Ida sem volta. Seria o fim de um ciclo? Ironicamente, os prantos daquele mais novo deserto, mãe, não foram suficientes para trazê-lo de volta, ao seu lado, longe do balanço.

Caiu, caiu, caiu…e ao mar banhava-se nu, doente, esquecido. Até mesmo as ondas venciam-no ao dilacerar profundamente seu peito, com o sal a queimar as feridas, deixando escarlate a água antes cristalina. Ao redor da fluidez, sentia a escuridão sendo levada aos céus, mas jamais a que encerra a diária insensatez do homem. A maresia inebriante, o cheiro do cadáver, do vômito. Seres trajados à solidão, todos à leve melodia do negro, aproximavam-se na areia. Não possuíam olhos, inavegáveis, e, no entanto, eram a luz do farol, do cais, do porto, dos afogados. Ele, sereno, observando, esperando a água revoltar-se com o vento. Mar de cacos de vidro. Então quis.

A rua recebia seus sólidos passos com indiferença, exibindo as velhas construções habitadas pelo silêncio, hospedeiras do desamparo. Surpreendentemente as sombras marítimas lá estavam, vindo no caminho contrário ao seu, fitando-o na íris e, assim, a destruir um esboço de desejo. Entretanto, percebeu o indefinível ocorrer ao ver seus olhos perdendo-se num beco úmido. Era noite e perdido também estava, às voltas na cidade, embriagado em meio aos suntuosos arranha-céus, quando renunciou ao voluptuoso ceticismo. A catedral, afinal, era ausente de corpos. Submisso porque imaterial.

Abruptamente uma sede insaciável tomou-lhe o paladar. O que mais adequado para saciá-la senão a água benta? À bica procurou-a. Mas não encontrou água; encontrou uma face sem olhos, um reflexo, e o sangue, persistentemente ele, a pender de um crucifixo e também de suas criminosas mãos.

Num banheiro público, pútrido, buscou a água. Sob o chuveiro, sentado ao chão, encolhido a um canto acolhedor, deixava resquícios da matéria impura descer pelo ralo ainda mais impuro de outras matérias, tudo a caminho do esgoto. Os ratos atravessavam o local despreocupados, certos de que lá estavam somente seus semelhantes. Única oportunidade teve ao encontrar um espelho no local. Rastejou disposto a levantar. Mas o espelho estava quebrado e a maioria dos cacos no esgoto, nele.

Levante-se Homem da podridão perpetuada: não conseguiste negar a sombra, um princípio de imagem. Olhar na vermelhidão do desespero, do ralo. Então não quis. Uma última esperança de não ver um ser que nada era. Lúcido, fiel: ilusão cíclica.

As taças alheias, quebraram-se; as suas, comemoravam a desgraça, ato antes incompreendido. Nenhuma lágrima.

O chão, aos cacos, ao vinho.

O balanço, a balançar sem ninguém, à força da ventania.

O mar, inavegável.

Ainda sozinho… na rua, rua, casa.

E na escuridão, eterna passageira, os olhos perfazem e esquecem as lágrimas da dor, companheira errante. E os intentos agonizantes de uma lembrança ignorada tornam-se apenas independentes fragmentos de uma vida que espera o relativo fim do que jamais pôde começar.

Não, definitivamente não.

Fechou a porta.

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