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Nas orlas de um tempo lento

Você estava sentada ali no sofá, quase deitada, olhando. E desviando. Não sei bem o que você queria. Eu rodava pela casa, perdido. Dançava e conversava com todos, a cabeça alta e os olhos num fechanãofecha. Tive medo de criar raiz. A música mudava rápido. Parece que ninguém queria que nos ambientássemos, que encontrássemos conforto no conhecido. Tudo estava muito rápido. Mas você parecia isolada em um tempo lento, ali circunscrita naquele conjunto composto entre você, o sofá e o cobertor. A noite ia esfriando – calcei sapatos, pus uma blusa. [Não fui embora. Nunca pensei em ir embora.] A luz não funcionava; só um abajur de lâmpada vermelha que não deixava sossegar os olhos.

Fuji para a cozinha. A cozinha perde os homens. No calor do fogão, com a boca molhada e migalhas no chão, me esqueci. Mas você chamou. Tinha uma pergunta qualquer (algo grandioso) sobre os homens e seus anseios e os homens e suas desilusões. Mal sabia você que era eu um grande desiludido. Nem me lembro ao certo se te respondi. Lembro apenas dos seus olhos. Grandes, de pedra, fundos. Me penetrando, me decifrando, me gravando. O universo estarreceu-se, o tempo se estilhaçou. Fui convertido à sua lentidão.

E então a música muda de novo, e me querem lá do lado de fora do portão. Saio, sem dizer nada – não me pergunte por quê. Torno a me perder (rodo pela rua, amotinado) e às vezes te enxergo detrás daquela cortina de fumaça avermelhada. Você não sorri. Tenta me ler e me olha como se a indagar. Talvez você estivesse me chamando outra vez.

Te esqueço. Lá fora, de blusa, calçado, alimentado e entretido, paro de olhar para dentro, de resgatar seu semblante tácito. Algo me impede.

Quando amanhecido, retorno à casa. Você já não está. Está em algum quarto, dormindo. Deve ter levado o cobertor junto para se encolher e encontrar o calor que eu não te ofereci. Pego no sono, no sofá em que você estava, e me entrego à sua versão onírica.

Te leio enfim e me torno também filho de uma terra lenta.

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4 Respostas

  1. gostei… será q apesar de todos os devaneios estamos nos concretizando?

  2. Não sei se isso é um avanço ou um retrocesso…

  3. Eu sou otimista hehehe cada passo no caminho eu acho que é um avanço!

  4. eu fico com o avanço

    lindo, mari

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