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Um persa perfeito

Na década de 70, o Brasil viu o poema “Rosa de Hiroxima”, de Vinícius de Morais, ser belamente transformado em música pelo grupo Secos e Molhados. Mais tarde, no fim dos anos 90, a banda Legião Urbana tomou versos inteiros de um soneto de Camões para compor “Monte Castelo”. Exemplos de poemas convertidos em canções não faltam mundo afora. Pois há no Irã desde 1999 uma banda underground de rock chamada O-Hum que gravou todas as suas faixas inspiradas nos poemas de um grande poeta persa do século XIV, Hafiz-e Shirazi, chamado simplesmente como Hafiz ou Hafez.

Para quem vive no lado ocidental do planeta, em que só ouvimos falar do Irã quando Bush tem mais uma de suas crises histéricas de inimigos invisíveis, o fato de haver lá uma banda alternativa de um estilo como o rock pode ser tão surpreendente quando o próprio leitmotiv de Hafez em sua obra: a embriaguez de vinho como estado supremo do sentimento de amor.

“Amada, o vinho é de boa vindima: bebe-o sem demora, goza da hora propícia. Mais tarde, dizes tu… Mas quem pode contar com outra Primavera?”

A leitura dos gazéis e do rubaiyat de Hafez nos remete ao Arcadismo, com suas cenas em lugares amenos, a fixação por uma mulher amada e a insistência numa espécie de carpe diem, de preferência bebendo vinho. As situações, entretanto, são tipicamente persas:

“Não me censures o haver trocado a mesquita pela taberna: o sermão era longo e o tempo fugia”

Alguns trechos lembram também, em contrapartida, aspectos do Romantismo, por seu lirismo exacerbado ao referir-se à amada:

“Amar-te – eis o destino escrito em minha fronte. O pó do limiar de tua porta é o meu paraíso; teu radioso semblante, a minha alegria; teu prazer, o meu repouso.”

Engana-se quem pensa de imediato que o poeta era contra o islamismo ou que por ele não se interessasse: Hafez não seu nome de nascença, mas sim é uma palavra em Persa que indica aquele que é perfeito, porque leu e compreendeu perfeitamente as palavras do Corão, a ponto de citá-las de cor. Um homem que conseguisse esse feitio obtinha o título “Hafez”. Esse poeta, entretanto, tendia mais para a interpretação mística da palavra divina e criticava a rigidez das regras do islamismo ortodoxo, no qual inclusive o vinho era proibido. Depois de começar trabalhando como padeiro, passou por situações de protegido e perseguido por diferentes governantes de sua região – passou por dois exílios, um quando foi expulso e outro por desejo próprio.

A maior parte da obra de Hafez foi escrita sob a forma de gazéis. Um gazel é uma tradicional estrutura poética persa composta por cinco ou mais estrofes, cada uma formada por um par de versos de igual medida, sendo que o segundo verso de cada estrofe rima com os dois versos da primeira estrofe (o esquema de rimas é, portanto: AA BA CA DA …). Hafez deixou ainda uma considerável herança literária em seu rubaiyat, ou seja, um conjunto de rubais. Cada rubai é composto por quatro versos de rimas no esquema AAAA ou AABA. O mais famoso rubaiyat é o de Omar Khayyam, outro famoso poeta persa, traduzido pela primeira vez para o Inglês por Edward Fitzgerald, em 1859, em The Rubaiyat of Omar Khayyam.

Quem primeiro introduziu Hafez no mundo ocidental foi Goethe, que se inspirou nos gazéis do poeta persa pra criar os seus próprios na obra West-östlicher Divan, de 1819. No Brasil, Aurélio Buarque de Holanda foi responsável por apresentar Hafez, através das traduções “Os Gazéis de Hafiz” e “Vinho, vida e amor – Os Rubaiyat de Hafiz e Saadi”, obtidas a partir das versões francesas feitas por Charles Devilliers. Essas traduções, contudo, não se apresentam no formato original de gazéis e rubais; sequer está metrificado ou com o esquema correto de rimas, portanto, muito distante do belo efeito que deve ser proporcionado na língua original.

Hafiz utilizava constantemente as figuras da Rosa, simbolizando sua amada, dona de beleza inigualável e invejada pelas outras flores, e do Rouxinol, refereciando a própria figura do poeta que canta seu sofrimento. Seu túmulo, em Shiraz, no Irã, está repleto de rosas e do canto de rouxinóis, sob a sombra fresca de um cipreste, eternizando o espírito do perfeito poeta persa.

Referências

HAFIZ. Os Gazéis; traduzido por Aurélio Buarque de Holanda, Livraria José Oympio Editora, Rio de Janeiro, 1944.

HAFIZ & SAADI. Vinho, vida e amor; traduzido por Aurélio Buarque de Holanda, Livraria José Oympio Editora, Rio de Janeiro, 1946.

http://de.wikipedia.org/wiki/Hafes

http://en.wikipedia.org/wiki/Hafez

http://www.hafizonlove.com/

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