• Veja também as capas anteriores!

  • Políticas do Ambidestria

    O Ambidestria todo está sob licença Creative Commons. Em caso de citação, não se esqueça de mencionar o nome do autor do post e o link direto para o post em questão. Não são permitidas alterações do texto.

    Veja mais detalhes na página de Políticas
  • Arquivo

  • Arquivo Especiais

    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
  • Acesso para autores

Raízes da Voz, de Francisco Carvalho – duas dimensões que se transmutam e se interpenetram

Devo iniciar meu post deste mês com um pedido de desculpas aos meus escassos leitores devido ao atraso da postagem. Neste momento em que escrevo são 2 da manhã do dia 5, quando é costume e compromisso meu efetuar minha contribuição sempre no dia 4. Uma breve história deve servir de justificativa para o deslize. Estamos em Julho, mês de férias; encontro-me em Fortaleza-CE, minha cidade natal, sob os mimos da família e a companhia dos amigos. Eis que dia 3 surge uma lembrança súbita, engrenada pela pouca responsabilidade que me resta: “e o ambidestria?! Deuses, tenho que postar algo amanhã!”. Cavoucando a paupérrima biblioteca que me assiste aqui nos momentos de desespero (paupérrima porque já levei a Campinas quase tudo que prestava), busquei avidamente algum livro de poesia; e não é que se me revelou, nas profundezas da estante, um exemplar modestíssimo (quase rústico) de poesia, publicado pela Editora da UFC, o qual eu ganhara há uns 4 anos e nunca lera? Decidi coloca-lo debaixo do braço e seguir com ele até a casa da minha avó, onde me esperava uma boa cocada e um bom cafuné.

Consta nas capas, contracapas e folhas afins que Francisco Carvalho, meu conterrâneo, iniciou sua atividade literária por volta de 1950; o livro que tenho em mãos, denominado Raízes da Voz, é um dos mais recentes: foi publicado em 1996. No livro há menção de uma tese sobre a poética do autor, que se chama “Três Dimensões da Poética de Francisco Carvalho”. Ora, durante a leitura cismei em buscar quais seriam as benditas facetas desse poeta “tridimensional”. Como meu contato com ele se resume a este livro, creio que meus resultados devam diferir bastante do proposto na citada tese. De qualquer forma, percebi como dois elementos dançam harmonicamente no exemplar em questão, e vou tentar expor aqui aos leitores minhas conclusões, fazendo o possível para atiçá-los à leitura do poeta.

A poesia de Carvalho gira em torno de duas aglomerações básicas de sentido, a partir das quais se desenrolam todas as outras: o Mítico, que se liga ao transcendente do imaginário dos povos, à História Antiga, e remete inevitavelmente ao que entendemos por Tradição; e o Telúrico, representado pela escolha constante de imagens naturais, orgânicas ou inorgânicas, com funções alegóricas de abrangência ampla. Essas ramificações principais podem se manifestar sob disfarces divergentes, mas que não fogem ao impulso criador original; vemos diversas vezes o Mítico aparecer de forma crua e seca, áspera e umbrosamente, como no seguinte poema:

PÁSSARO MORTO

Um pássaro morto

é um anjo decaído

expulso do paraíso.

Um pássaro morto

são as vértebras da nau

ancorada no abismo.

É como um navio

que foi de encontro

às rochas de sal.

Um pássaro morto

é um navegante

sem o seu fanal.

Aqui enxergamos claramente um dos processos compositivos de Carvalho: a metáfora de base, construída no sintagma “isto é aquilo”; isso se repete em inúmeros poemas, criando imagens que ecoam, ritmos que reverberam, modelos que se espelham. O “isto” não varia nas 4 estrofes, estando subentendido em uma delas; o “aquilo” se desenvolve, qualificado para uma especificidade que o poeta quer destacar, ou colocado numa situação que evidencia um estado próprio; por isso o “isto” tem direito a um verso apenas, enquanto o “aquilo” ganha dois. A estrofe que foge ao modelo, a terceira, é mais fraca, pois insere o “como”, fazendo da metáfora uma comparação; mas talvez seja essencial para que o poema não fique excessivamente repetitivo em seu molde, e dá um novo impulso à voz que lê.

Outra veste que cobre o Mítico é a pesada capa do Mistério, permeado pela memória baça e flutuante:

MESA ANTIGA

Na mesa antiga

de jacarandá

já não se ouve

o rumor dos cristais

O silêncio dos objetos

paira sobre a mesa.

A infância e a faiança

perderam a beleza.

Calaram-se as vozes

ungidas pelo vinho.

O vento já não desfaz

a toalha de linho.

Da mesa antiga

de jacarandá

já não se avista

o morto no copiá.

Neste poema, a “mesa” e o “vento” são os núcleos míticos principais: a primeira enquanto constituinte de um acervo de mitos pessoal, e o segundo enquanto personagem quase onipresente no livro, personificado, uma semi-deidade que escorrega de uma peça à outra e reaparece metamorfoseado. O “silêncio” e a “ausência” dão tom estático ao poema, enchendo-o de frio e impasse. O morto, aparecido (pela negação de sua existência, posto que ele não seja visto) no último verso, traz para si a textura do poema inteiro. Duas significantes imagens recorrentes em Carvalho são aqui assaltadas pelo “rien” decadentista francês.

Mostremos ainda o Mítico enquanto Maravilhoso, quase Místico, num poema de imagens rápidas e sucessivas que estonteiam o leitor num êxtase de fantástico:

LITURGIA DO AZUL

Asas desenham sílabas

de fogo no dorso dos meridianos.

Te vejo emergir do caos

nudez íngreme, rosa da escarpa.

Pombas de cinza gravitam

ao redor da ausência de Deus.

Tarde em que ardeu

o sexo de linho dos faraós.

Águias assassinadas em postigos

de areia, plumas bêbadas

seduzidas pela volúpia do mar.

Azul de árvores tombadas

e ventos nupciais. Glória da terra

e dos pântanos, dos dias

que se erguem e explodem

sobre as cabeças do súditos

dos reis e dos vassalos da morte.

Não podemos deixar de destacar a importância das aves e dos navios na poética de Carvalho. A primeira, em variações de albatroz, águia e abutre, entre outras representações, simbolizam, ao lado do vento, o nível Mítico, ligado às alturas e ao vôo. Os navios, chamados também de naves e sempre próximos dos argonautas, representam a tentativa do humano de alçar o mesmo vôo. Lado a lado, navios e aves compartilham uma mesma rota, um mesmo destino.

Saindo do Mítico, desembocamos no Telúrico. Este se mostra principalmente na escolha dos elementos que formam as metáforas (o titilo possui a palavra raízes, a própria representação da imersão na terra). Temos o touro lúbrico, o gato esguio, as lavouras, as “orquídeas do efêmero”, a tarde, entre muitos outros seres e não-seres que passeiam pelas imagens fortes do livro. O poeminha abaixo, simples mas cativante, representa bem essa característica do poeta:

NADA É PARA SEMPRE

Nuvem, pássaro, estrela

o raio, a ostra, o vento.

Nada é para sempre.

A asa que incendeia

léguas do firmamento.

Nada é para sempre.

A noite com seu séqüito

de mortos ao relento.

Nada é para sempre.

Os lobos que semeiam

seus uivos e lamentos.

Nada é para sempre.

Devemos encerrar por aqui, por força de extensão, nossa intromissão na obra. Apenas um último destaque: a belíssima última seção do livro, denominada “Livro do fazedor de gaiolas”, composto por sonetos dedicados a outros poetas, em sua maioria também cearenses. Para aqueles que desejam ingressas nesse manancial de boa poesia (modéstia bairrista à parte), as 50 e poucas páginas desse encerramento são excelentes, pois cada poema traz um pouco do estilo do escritor ao qual foi dedicado, imiscuído ao próprio de Carvalho. O livro é bem eclético em humores; tem seus momentos cômicos, outros sombrios e outros ainda pomposos, e por isso de leitura agradável e fluida; mas não descuidemos de enfatizar: é uma obra tecida e concebida como una, que traça variações provenientes das dimensões de base destacadas, cheia de inter-relações entre os poemas. Enfim, uma composição digna de maiores atenções, coisa que espero sinceramente que lhe seja dispensada.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: