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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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O Castelo das Lâmpadas

Nudi se vestia com muito cuidado. Ajeitava cada babado do vestido, cada dobra do manto. Acendeu mais duas velas do candelabro de bronze do lado da penteadeira. Prendeu os cabelos longos e negros no alto da cabeça e fez uma grande trança apertada. Colocou suas luvas finas, brancas, com rendas e ornamentos de madrepérola nos pulsos. Vestiu suas meias-calça brancas rendadas sobre aquelas coxas lindas, perfeitas, grossas, macias e cheirosas. Calçou um pequenino sapato de verniz vermelho, olhou para o espelho, fez uma pose e deu um sorriso.

Os violinos começaram a tocar mais alto no salão no andar térreo. Nudi olhava pela janela e via a chuva cair cor de sangue. 

No salão, o Major conversava com uma senhora com um vestido de festa cinza e preto, de gola alta. Pálida como mais não poderia ser. Seus lábios coloridos de um batom escuro e sombras nos olhos tão escuras que faziam-nos parecer dois buracos sem fundo. Em segundo plano, os casais dançavam uma dança combinada, sempre com os mesmos passos, sem olharem diretamente nos rostos uns dos outros.

Castiçais aos montes foram colocados em todos os lugares do salão, castiçais grandes, com cinco velas, pequenos com uma ou duas, velas enormes e grossas sem castiçal algum, cera derretida escorrendo pelos cantos até a pista espelhada do centro. Pelo reflexo da pista via-se o baile todo de ponta cabeça, as luzes das velas eram redobradas pelos espelhos e, por debaixo das saias das mulheres, refletidas camadas e camadas de tecido e debaixo deles… mais nada. A luz bruxuleante das incontáveis velas desenhavam desenhos na abóbada do salão que imaginações diferentes dariam milhares de figuras, monstros, tartarugas, abóboras, cobras e carruagens.

A visão dos quadros milenares das paredes apareciam e desapareciam de acordo com o vento que beijava as chamas das velas. Homens com casacos enormes, mulheres com metros e metros de tecido costurado à óleo. Tapeçarias, arabescos e gárgulas que ganhavam movimento nas sombras, uma hora estavam perto dos vinhos e, quando a luz voltava, já não estavam mais lá.

 Certo dia, certo tempo atrás, em uma clara tarde de inverno, Major, vestido de farda negra, foi visitar o castelo para tomar café com as mulheres da casa. A sala onde estavam, era cingida de enormes e imponentes pilares, e as paredes seguravam as espadas dos antigos senhores do castelo. Nudi sentou-se à mesa e perguntou o nome do Major. Ele lhe respondeu secamente que seu nome era Major. Ela riu um riso de ironia que ninguém quis perceber e, divertida, passou a língua na colherzinha do café. Ele então lhe perguntou seu nome como resposta friamente educada à pergunta da moça. Fille Gâtée, ela respondeu. Major saiu por um momento de sua indiferença e olhou a Nudi Gâtée por alguns instantes. Nudi não riu. Major não entendeu o nome da moça, baixou a cabeça e tomou mais um gole do café amargo sem fazer careta nem porque estava quente demais, nem porque estava amargo demais.

A senhora de olhos negros gostava do Major, ou disse que gostava. A Senhora de Olhos Negros era a mãe de Nudi e disse que seu pai havia morrido quando tentou construir uma ponte para atravessar o lago dos vagalumes. O Lago dos Vagalumes era fundo, viscoso. Via-se da margem do lago as pernas, virilhas, bocas abertas, seios, línguas soltas, órgãos genitais e uma gosma envolvendo todos esses pedaços nojentos sem o resto do corpo, pernas sem tronco, bocas sem rostos. E fedia. Dizem que fedia, mas não era fedido não. Tinha um cheiro denso e quente, mas não era fedido não. De olhar muito aquelas pernas, aquelas línguas e virilhas, deixava todos com suadouro e tremor, e ficavam febris por vários dias tomando banho de acento com chá gelado… Porque chamavam de Lago dos Vagalumes eu não sei. O Pai de Nudi morreu quando fazia a ponte, caiu lá dentro e gritou, gritou muito, gritava com a voz grossa, rouca.
 “Devia ter doído muito”, dizia a Senhora de Olhos Negros saudasosa.

Nudi ouvia o som dos violinos do quarto. Abriu a janela e a música ficou mais alta. As gotas de sangue pingaram em seu tapete de urso branco que se tingiu de vermelho. Nudi dançava pelo quarto, rodava, rodava, ria alto, seus sapatinhos vermelhos tinham vontade própria, dançavam, rodeavam, afundavam nos pêlos do urso com leveza.

A campainha do quarto tocou. Chamavam-na no térreo. Nudi desceu as escadas do castelo apressada, com um castiçal de vidro verde nas mãos. Passou pelos corredores sem fim, escuros e cheios de rostos tristes, mortos à incontáveis anos, estátuas quebradas, móveis carcomidos, vidrarias quebradas e um gatinho empalhado com olho de vidro. Apressou o passo.

Chegou no salão e colocou seu castiçal em um canto qualquer. A música tocava hipnótica, inebriante, mas os casais dançavam lentamente, sem olharem em seus pares, guardavam distância e não se encostavam. Nudi olhou para um rapaz com um terno verde musgo no outro lado do salão e o viu estralar os dedos no ritmo da música. Ninguém estrala os dedos em público! Nudi se aproximou dele, tirou as luvas, provocante, encarou-o. Ele a viu fazer isso, aproximou-se dela e deu-lhe um beijo molhado nas mãos nuas, segurou-as com força e levou a moça para o meio do salão. Ele girava, segurava Nudi perto do peito, as mãos dela suavam e o suor das mãos se misturavam. A barra do vestido de Nudi envolvia as pernas das calças do rapaz enquanto giravam. Eram o casal mais empolgado, mas as outras pessoas da festa só os admiravam quando não podiam ser percebidas fazendo isso.

O jovem casal sentia-se sozinho no salão e dançavam muito e freneticamente. Giravam, se afastavam e se abraçavam de volta com força, as saias de Nudi pareciam ocupar toda a pista, abriam-se como asas e fechavam-se nas pernas levemente, como se fossem feitas com os fios de uma teia de aranha.

Uma música acabou, e mais outra e outra, e o casal não saía da pista. Houve então um intervalo para tomar refrescos e aproveitar o buffet. Todos saíram do salão e foram para outro aposento.

O rapaz puxou Nudi para fora. E ninguém mais viu Nudi esta noite, nem o rapaz tampouco.

A Senhora de Olhos Negros deu uma risada sem graça quando disseram que Nudi desaparecera. “Amanhã ela aparece”, dizia a Senhora divertida.

O dia amanheceu e Nudi não voltou. A Senhora ficou preocupada, mandou todos do castelo procurarem pela filha querida. Procuraram até o anoitecer quando a escuridão privou todos das formas mais simples, que só podiam ser encontradas pelo tato. As luzes foram então acesas, todos sairam à noite para procurá-la com suas lamparinas de gás ou velas. Da Torre de Vigia, lá longe, só se viam bolas de luzes incertas, como uma nuvem de pequenas fadas brilhantes no meio do bosque ou nas pradarias ou nas plantações.

Nudi foi encontrada deitada sobre a grama verde com o vestido molhado pelo vermelho da chuva. O vestido lhe cobria até os calcanhares, mas mostrando o peito do pé nu, preso pelo elástico do sapatinho vermelho mal colocado. O cabelo negro estava solto e espalhado pela grama como uma cauda negra de pavão sobre sua cabeça. Suas mãozinhas brancas fechadas agarrando um punhado de grama.

A Senhora de Olhos Negros chorou muito e disse pra si mesma enquanto abraçava a cabeça inerte e ensanguentada da filha: “Oh, minha pobrezinha, deve ter sofrido muito!”.

Major ordenou uma busca pelos bosques e campos do castelo, mas ninguém avistou o rapaz, ninguém mais ouviu falar nele. Ninguém também podia dar um retrato fiel de seu rosto, pois durante a dança, ninguém olhava fixamente para o rosto do rapaz.

As buscas foram encerradas e foi resolvido que o rapaz morrera atolado e sem fôlego no Lago dos Vagalumes. Nudi foi enterrada com seus sapatinhos de verniz vermelhos e vestido branco, mas sem luvas.

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Uma resposta

  1. Tá, e me sinto bem estúpido fazendo isso e eu já te disse, mas é que eu acho puta injusto não existir um comentário sobre o conto que, pra mim, é de longe melhor que os outros seus que eu li aqui (eu adorei os outros, ams O Castelo das Lâmpadas é o melhor de longe!!) e enfim… espeor que eu não pareça uma besta.
    Não vou fazer uma análise crítica não, tá Alda? A gente senta e conversa nesses aspectos qualquer hora sobre Quiroga, Cortázar, Poe, Tchekov, Piglia e todos os outros contistas/teóricos. Mas só duas observaçõezinhas:

    “Nudi se vestia com muito cuidado.”

    Essa frase é tão deliciosa! Porque dá vontade de ohlar cada um dos mínimos detalhes da roupa da… NUDI (ADOREI o nome na frase, perfeitíssimo!)

    Em segundo: tem tanta luz, violinos e cores e giros e dança e um perfeito CASTELO mesmo no conto que eu fiquei babaca com a sua capacidade de me enfiar num lugar e experienciar o lugar (berbos ericquianos =P).

    Adorei.
    Adorei.

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