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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Marítima

Ela sabia o segredo das marés e amava afogar seus amores. Os sufocados, os naufragados, os submersos eram sua paixão. Suas mortes eram sua história. A chamavam Mara, Maria, Marília, Marina e Mariana. Seu nome era profundo. Sua casa era o fundo do oceano pacífico. Seu divertimento era beijar marinheiros até o sufoco. Ela afogava pra limpar a vida e não deixar sombra. No fundo do mar o rosto era esquecido. O nome não era falado. De cima dos corais, ela era só mais uma que não teve seu final feliz.

Tinha direito sobre a morte na água. Toda criança engasgada, todo barco quebrado, toda estrela caída lhe pertenciam. Era seu reino. Mais que isso, seu reinado. Acordava já no fim da tarde, quando acabava a luz. Fazia mais sentido seu conto na escuridão. Seus olhos eram cor de água. Mas não eram bonitos. Sua pele era perfeita, e não era bonita. Seu sorriso era deslumbrante. E não era bonita. Não era bonita porque essa palavra não foi feita para ela. O que quer que isso queira dizer, não dizia seu nome. E sem seu nome não era ela mesma. O nome a construía. O nome a desaguava.

Ali onde o rio caía no mar ela passava a maior parte da noite. Contava as horas até o dia seguinte. Se entregava aos passantes, aos peixes e às aves. Enquanto eles ocupavam seu tempo ela os olhava fixamente. Dentro deles, procurava aquilo que a faria feliz. Mariana nunca encontrou. Maria tinha esperanças. Mara nunca admitiu que procurava. Marília sempre se convenceu de que se bastava. Marina preferia não pensar nisso. Quando começava a clarear ela voltava. Suja. Usada. Despedaçada. Fora alimento de animais. Fora sexo de pessoas. Fora boca pros que precisavam e corpo pros que queriam. Não tinha dono. Todos se esfregavam na imensidão do mar.

No meio de todo o mar, todos de despiam, se tocavam, se limpavam. Faziam todos seus sonhos, suas perversidades, seus delírios displicentes inadequados à costa. – Maldita costa que a continha, e retinha. Impedia seu caminho… Ela a destruía aos poucos. Aos poucos, tudo desabava e virava areia pra separá-la do mundo. – ela os carregava todos. Aceitava-os todos. Acalentava. Permitia. Incentivava. Todos. Quando amanhecia e suas águas estavam frias, Marina chorava. Mariana se odiava. Maria não se olhava. Mara se limpava. Marília gritava.

As ondas são seus gritos. O grito daquelas que não tiveram sua história. O berro daquelas que se abandonaram e se perderam pelos outros. O mar nunca ficou revolto. O mar se revoltou contra tudo o que a impediu de ser feliz. E começou a afogar suas histórias. Afogar seus passados. Afogar suas perdas, pra não ter que lembrar do que não teve. Matar seus amores, pra que, dentro dela, eles fosses eternamente lembrados para serem esquecidos. O barulho das ondas só sabe repetir ‘Me esqueçam’.

E assim, Maria se mata. E pra matar aquilo que ama, se mata Mariana. Mara dispara e se atira no azul de Marília, que a abraça e sufoca, repetindo pra si mesma que não precisa de ar. Não precisa respirar. Depois de tantas dores maiores, o ar não pode ser tão forte. Marina respira… respira… por um último final, que seja feliz… respira… respira… e se afoga. O sofrimento delas, nos dizem as conchas.

\'Me esqueçam!\'

* Não que tenha sido originalmente inspirado em, mas eu nunca teria escrito isso sem Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues. existe prosa-poética, não? deve existir algo semelhante para o drama…

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3 Respostas

  1. Gostei muuuuuuuuuuito mesmo!
    Embora eu não goste de praia e de mar, gosto muito dos textos que falam deles e das imagens que se criam com eles.

    Parabéns, Kike! =*

  2. nossa, gostei, principalmente do final! gostei do tema e adorei isso dos vários nomes!

    não sabia q agora vc tava colocando coisas suas aqui! legal!!

    bjão
    té mais!

  3. Por alguns momentos todos os Mares se pareceram e se perderam. Durante uma fagulha de momento cheguei a entender o que era o mar. Ai Henry, quem dera se tudo fosse escrito assim, com tanta ternura e tristeza, tão profundamente e de um jeito tão simples! Certamente, ou quem sabe?, as pessoas passassem a ver as coisas de um jeito mais próprio, próprio delas e próprio das coisas, ver o mar mais azul, o sangue mais vermelho e a vida mais mórbida e sensual.
    Que Nelson Rodrigues nos salve e guarde. Amém

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