• Veja também as capas anteriores!

  • Políticas do Ambidestria

    O Ambidestria todo está sob licença Creative Commons. Em caso de citação, não se esqueça de mencionar o nome do autor do post e o link direto para o post em questão. Não são permitidas alterações do texto.

    Veja mais detalhes na página de Políticas
  • Arquivo

  • Arquivo Especiais

    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
  • Acesso para autores

Boneca de Cera

– Mãe; mamãe!

 

Luzia gritava aos quatro cantos sua chegada. A escola nem sempre rendia surpresas a essas pequenas e inocentes mentes, e por isso a tal mãe resolveu acudir aos chamados.

 

– O que foi querida? Não se lembra que mamãe não gosta que grite enquanto dorme?

 

– Me lembro sim mamãe, mas é que achei uma boneca de cera no parquinho da escola. Olha, ela não é linda? Tão branquinha, de pele tão macia…

 

A mãe, voluntariamente horrorizada, arrancou a boneca da mão da menina, gritou pela governanta e deu ordens para que o lixo fosse o próximo destino da ação.

 

– Mas mãe, ela é minha! Só minha, você não entende? Devolve agora ou conto pro papai!

 

– Meu bem, papai concordará comigo. Você já tem muitas bonecas, não precisa de restos de outra criança que pode muito bem ter algum verme. Mamãe não precisa explicar, não é?! A escolinha já ensina tudo o que você precisa saber. Então você sabe que não deveria ter trazido esse lixo para casa. Esse treco que tem olhos gigantescos e parece que fica encarando a gente, credo! Deus me livre!

 

A menina, enfurecida, subiu as escadas correndo, mas não deixou de olhar com seus olhos gigantes a mãe que na sala ficava.

 

– Ela vai ver só!

 

Luzia foi-se embrenhando pelos corredores da casa até achar o quarto da governanta. Aquela porta era velha demais e grande demais para aquela casa. Como nunca havia percebido? Mas queria perceber agora. Queria encontrar. Encontrar o segredo. Encontrar a submissão.

E assim abriu cuidadosa e curiosamente o portal, o que não evitou que um leve ruído ecoasse pelas paredes da casa. Ruído que elevou o suspense daquele quarto, o qual logo se apresentou ao olhar crescente da menina. Paredes sujas. Janelas fechadas. Uma cama vazia. Um baú esquecido. E velas. Muitas. Milhares de velas. Cheiro de lembrança. Cera queimada. Era necessário, sabia.

Luzia olhava abismada ao derretimento das vidas-velas, e suas retinas brilhavam como nunca. Queimavam como nunca. No entanto, algo estranho pairava no ambiente. Sim, era a boneca descartada que se unia à matéria derretida e deformada. Como aquela serviçal, apenas serviçal, poderia ter feito semelhante barbárie? A culpa seria dela. Com toda a certeza seria. Era uma boneca, uma simples boneca, nada mais. Para quê? Por quê? E o cheiro de fim aumentava, penetrava em sua pele, envolvia sua respiração, tomava-lhe os movimentos, cintilava em seus olhos. Prazer.

Desesperada, a menina saiu do recanto da governanta, desceu a escadaria, e, por fim, deu de cara com a futilidade expressiva da mãe.

 

– Que foi querida? Parece que viu um fantasma. Ainda aquela boneca?

 

– Não mamãe! Claro que não! É que você é tão branquinha, sua pele parece ser tão macia… Deixa eu tocar seu rosto mamãe?

 

E os olhos da menina brilhavam continuamente. Sugavam a mãe. Fundiam-na nas chamas frias. No toque abrasivo.

Na manhã seguinte não se ouviu gritos, não se viu vida. A governanta não serviu o café, não cumpriu ordens. As velas, que há muito tinham misteriosamente desaparecido de seu quarto, não foram acesas. A boneca, guardada com carinho, não foi encontrada.

Mas a justiça dos homens não é falha. E toda as capas de todos os jornais mostraram a serviçal que teria se vingado de sua patroa no calor infernal.

Luzia, sozinha no quarto, repetia continuamente ao arregalar os olhos:

 

– Ela viu… As duas viram…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: