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A Ironia de Oscar Wilde

Wilde? Mas o que aconteceu com Pinter? Pois é, leitor: te sacaneei. Perdoe-me, mas a peça de Harold Pinter fica, ainda, para semana que vem. Não por motivos de ordem, nem por motivos de problemas pessoais que não me permitiram ler a peça de Pinter; É simplesmente porque acho importante e interessantíssimo mostrar de onde vem a discussão levantada por Pinter ao longo de boa parte de seu trabalho, inclusive em Betrayal (Peça de Julho) e em The Homecoming (a peça mais famosa do dramaturgo).

Também aproveito o dia para anunciar que talvez o ensiao sobre Pinter seja o último sobre teatro. É que o confuso autor dessa coluna não sabe muito o que quer, e acha que talvez tenha outras coisas mais urgentes pra escrever em público no momento. Mas ainda há de pensar.

Chega de informações pessoais: fica de sobreaviso que, pro próximo mês, teremos REALMENTE Betrayal, de Pinter; por agora, The Importance of Being Earnest (há uma tradução HORROROSA com o título de A Importância de ser Ernesto – é concebível?), peça fantástica de Oscar Wilde.

…………………………………………………………

“The good ended happily, and the bad unhappily. That is what FIction means.”

Miss Prism têm uma visão bastante interessante da Ficção. A personagem de Wilde parece desconhecer o final do drama no qual está inserido. A comédia completamente ácida de Wilde, com a qual (confesso) não consegui parar de rir por nem um minuto, é um tapa com luvas de pelica no lindo rosto cheio de pancake da sociedade vitoriana. A frase que a governanta da casa de Jack parece apenas inocente tentando ser esperta, se a tomamos pela personagem. A coitada miss Prism, não contente em acreditar que a ficção significa simplesmente dar os finais adequados aos traços de caráter adequados, ainda divide o mundo entre “the good” e “the bad”! Ok, teremos, depois, algum tempo para rir da pobre senhora e para sentir pena dela, mas antes disso, vale perceber o sentido que podemos atribuir a essa frase colocando-a não mais na boca que a profere na peça, mas na ponta da pena do genial e irônico Wilde. “That is what FICTION means”. Em sua peça, se aceitássemos a terrível dicotomia do mundo entre “bonzinhos e mauzinhos”, com certeza não diríamos que os “maus” acabam bem. Se pudessemos simplesmente observar um pouco a vida, constataríamos que apenas na FICÇÃO é que se pode pensar em algo como “bons e maus”, e mais ainda em um raciocínio tão plano quanto o da nossa queridíssima Prism.

(Que grande gênio é esse, que através das palavras fúteis de uma personagem bastante desprovida de inteligência, diz algo tão genial?)

Dois homens fingidores, e que através de seus fingimentos burlam os compromissos sociais que têm com a sociedade, essas espécies de “rituais” no qual o “sacrificado” é aquele que é obrigado a conviver com pessoas extremamente desagradáveis; duas intenções de casamento que absolutamente não condizem com os desejos sociais daqueles que têm “mando” sobre a mão das moças, mas que representam mais que qualquer outra coisa a vontade delas; duas moças apaixonadas por um mesmo homem, que não é o mesmo homem e que, no fim das contas, não existe mas, ah, calma, existe sim! É, só comentar o enredo da peça daria um enorme trabalho! Vale mais a pena para vocês (e é muito mais divertido para mim) levantar as questões implícitas em algumas dessas falas geniais de Wilde.

Pinter, como veremos no próximo mês, é um ácido crítico da suposta sinceridade e da estabilidade da perfeita família burguesa. E, obviamente, do casamento. Wilde também tem algo para dizer a respeito:

“Algernon. Why is it that at a bachelor’s establishment the servants invariably drink the champagne?  I ask merely for information.

Lane. I attribute it to the superior quality of the wine, sir.  I have often observed that in married households the champagne is rarely of a first-rate brand.

Algernon. Good heavens!  Is marriage so demoralising as that?

Lane. I believe it is a very pleasant state, sir.  I have had very little experience of it myself up to the present.  I have only been married once.  That was in consequence of a misunderstanding between myself and a young person.

Algernon. [Languidly.]  I don’t know that I am much interested in your family life, Lane.

Lane. No, sir; it is not a very interesting subject.  I never think of it myself.”

(Antes de comentar, por favor, me deixem rir mais um pouco! Pronto, agora, acho que estou pronto). É genial. Esse é o momento no qual você e sua esposa, no teatro, seguram a vontade de olhar um para o outro, procurando nos olhos do cônjuge a vergonha que nos seus caberia. O questionamento. “Is marriage so demoralising as that?” E qual é ponto fulcral da ação da peça? Intenções de casamento! Casamentos forjados sobre identidades falsas, frutos da paixão de duas mulheres por uma única mentira que se manifesta em dois homens (a falsa identidade de Ernest Worthing). E obviamente Wilde permitirá que os casamentos se realizem, que todos os problemas se resolvam através de uma feliz coincidência de identidades familiares (que nos lembra o humor de Moliére em O Avarento, por exemplo) e que o personagem final conclua, após o desvelamento daquilo que permite seu casamento: “I’ve now realised for the first time in my life the vital Importance of Being Earnest.” Lembremo-nos da frase de Miss Prism!

Outra coisa fundamental (para a análise da peça e para a vida de qualquer pessoa que pretenda evitar alguns inconvenientes mundanos) é o conceito, apresentado por Algernon (um bon vivant que realmente vive em função de fruir da vida o melhor e dispensar o que o chateia) de Bunburying.

Algernon. (…) I was quite right in saying you were a Bunburyist.  You are one of the most advanced Bunburyists I know.

Jack. What on earth do you mean?

Algernon. You have invented a very useful younger brother called Ernest, in order that you may be able to come up to town as often as you like.  I have invented an invaluable permanent invalid called Bunbury, in order that I may be able to go down into the country whenever I choose.  Bunbury is perfectly invaluable.  If it wasn’t for Bunbury’s extraordinary bad health, for instance, I wouldn’t be able to dine with you at Willis’s to-night, for I have been really engaged to Aunt Augusta for more than a week.”

Estar sem grana, ter trabalhos da faculdade para fazer, ter marcado com um amigo de infância há mais tempo, ter festa junina da empresa do pai… does it ring a bell? Acho que as palavras de Wilde dispensam as minhas explicações demoradas do conceito.

Só mais um exemplozinho da ironia de Wilde… Acho que posso me dar a esse luxo, não?

“Cecily. Do you suggest, Miss Fairfax, that I entrapped Ernest into an engagement?  How dare you?  This is no time for wearing the shallow mask of manners.  When I see a spade I call it a spade.

Gwendolen. [Satirically.]  I am glad to say that I have never seen a spade.  It is obvious that our social spheres have been widely different.”

Esse homem é um gênio, um Gênio! É impossível não se deliciar com uma comédia dessas, com esse nível de ironia; é impossível conceber a pergunta IMBECIL realizada por um jornalista X quando entrevista atores de teatro: “O senhor julga a comédia um gênero menor?”. Uma frase dessas, por sinal, caberia bem na boca de um jornalista bastante estúpido numa comédia de Wilde. E falando nisso acho bom parar o ensaio por aqui. Wilde parece ter me dado um aviso através da peça, e além disso, tenho um amigo de infância pra visitar agora, e uma visita marcada há tanto tempo não pode ser adiada!

Algernon. Literary criticism is not your forte, my dear fellow.  Don’t try it.  You should leave that to people who haven’t been at a University.  They do it so well in the daily papers.  What you really are is a Bunburyist.  I was quite right in saying you were a Bunburyist.  You are one of the most advanced Bunburyists I know.”

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