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Narradores de Javé e a escrita (1ª parte)

 

 

                           

 

Hoje falarei sobre um filme que tem sua história não apenas mostrada pela câmera, mas contada num bar por um de seus personagens, Zaqueu, como se fosse mais um causo de sua cidadezinha natal. E como veio a calhar essa história para esta coluna! Se eu pensava em fazer uma coluna que valorizasse e tivesse, cada vez mais, a presença das histórias contadas – nossa origem e da Literatura! – de que filme a não ser Narradores de Javé eu poder ia falar? Grande filme nacional e que consegue mostrar um pouco do que considero o verdadeiro brasileiro – do pouco que é possível representar desse ser até agora tão pouco representado, tão cheio de facetas e indefinível -, que é quase sempre suprimido do imaginário de praticamente todas as nossas crianças. No filme aparece bastante o aspecto do brasileiro contador de histórias, com o qual muitos de nós nos identificamos de pronto, especialmente porque, apesar de ele estar sumindo – assim como a própria figura do narrador pelo mundo, segundo Benjamin, em “O narrador” -, já fomos um dia parecidos com esse contador: tanto se pensarmos numa idéia geral de brasileiro, que antes era mais contador de história e hoje está mais fascinado pelo chiclete do cérebro, a televisão, quanto se pensarmos individualmente na nossa fase mais fantasiosa e, muitas vezes cheia de mentiras, a infância.

 

Na história contada por Zequeu, a cidade de Javé corre o risco de ser coberta pelas águas de uma represa. Para manter a última esperança e tentar salvar a cidade, o próprio Zequeu junto de outros moradores foram falar com os engenheiros da represa. Estes disseram que só salvariam a cidadezinha da inundação se fosse provada, cientificamente, uma real importância histórica dela, a qual faria valer a pena tombá-la como patrimônio. Com a ciência, o que é falado não vale de nada! Como se o fato de a palavra ser representante de um sentimento, de uma posição, angústia, necessidade, história, não bastasse; como se tudo isso fosse nada. Já que o que é científico geralmente precisa do respaldo da escrita, surge, assim, a idéia de escrever pela primeira vez a história de Javé, que até ali estava apenas na boca do povo… Porém, estamos em Javé, onde poucos lêem e apenas uma pessoa escreve: Antonio Biá.

A escrita, então, para eles nasce com uma certa finalidade, como se fosse uma arma para o combate com opressor e para poder se falar a língua dele. O que significa não ler nem escrever numa sociedade como a nossa, “letrada”? Ficar a deriva?! O que leva o analfabeto ao primeiro impulso de letramento? Sua relação com seu opressor – mesmo quando o oprimido, iludido, culpa o “mundo cão” hoje sabemos que as precárias condições de estudo têm sim culpados e elas não estão assim por causa da tragédia natural e inerente à vida. O primeiro motivo que o leva a se alfabetizar geralmente é sua busca por poder e sobrevivência, portanto, não é a partir de alguma reflexão sobre a escrita ou o conhecimento, nem é fazendo a comparação: “isso ou aquilo, a partir do momento que as idéias se fixarem num papel, mudará”. Nos Diálogos de Platão, por exemplo, um de seus personagens questiona se o surgimento da escrita trouxe mudanças na nossa relação com a Memória e defende que nós não a trabalharemos mais tanto como na cultura oral.  Se escrevo numa coluna intitulada “Papel do Passado”, com certeza creio que esse trabalho com a Memória não é irrelevante.

Mas peraí, além de nós, humanos, inicialmente aprendermos a escrita basicamente por esse motivo, como arma, ainda pretendemos usar o mesmo modelo de arma do opressor para justamente vencê-lo? Sim. Será que não perderemos nada do que é mais “nosso”, mesmo que seja chamado de mais “primitivo” pelos letrados, se começarmos a adaptar nossas histórias faladas à escrita? Ou simplesmente transporemos nossa história do oral para o escrito? Será que não valeria mais a pena ir até aos engenheiros e matá-los com facão?

Entre tantos questionamentos, o principal paradigma é que com a nova cultura da escrita vêm novos costumes e valores. Então, por exemplo, as pessoas de Javé começaram a brigar entre si por motivos que antes não brigavam, pois eram assuntos que não tinham valor tão alto, eram tratados de forma mais cotidiana, natural e menos pretensiosa: começar a buscar ter “A Verdadeira História”, científica, elucida bem essa mudança – e qualquer semelhança com o mundo individualista/capitalista de hoje, em que até nas academias só se briga/concorre por temas, verdades superficiais e bolsas de estudo, não é mera coincidência.

 Talvez a escrita não seja tão normal e essencial em si mesma o quanto o senso comum tem nos dito nem esteja nos levando necessariamente para um caminho melhor. (CONTINUA…)
 
 
 
 

 

 

 

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2 Respostas

  1. eu gostei muito de narradores de javé mais pq eu tirei uma nota boa com o trabalho q eu fiz tirei 10

  2. vcs poderiam melhor isso inguem merece ler issoo

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