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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Idealizações

Às vezes acredito que não faço parte de qualquer grupo. Não sei se foi por um isolamento próprio ou por uma exclusão. Isto realmente nunca me importou muito. A única coisa que me incomoda é sentir falta de alguém, um alguém que não conheço e mal sei se existe. Temos mania de imaginar e idealizar as coisas que não existem. Por isso sentimos tanta falta do que não temos: idealizações. Quando conseguimos uma realização não sabemos o que fazer com ela, ou temos medo de que ela não dure por muito tempo. Talvez por tanta idealização as pessoas não se deixam ser felizes.
Vivemos o tempo todo com pensamentos alheios nos perseguindo, impondo nossas mentes que temos de ser pessoas boas, amáveis, sorrir e falar “Bom dia!” até para estranhos. Mas ninguém se pergunta o porquê de tudo isto. Muitas pessoas me dizem que não gostam de trabalhar e outras que amam seus trabalhos. Simplesmente, por que ninguém se pergunta: “Quem disse que eu tenho que fazer isso para ser feliz? Não há outras coisas que me deixariam feliz?” ? Porém é difícil pensar com tantas vozes falando nas suas cabeças. Aliás, faz tempo que o mundo deixou de ter uma visão individual, particular. Particular? Será que realmente existe privacidade, um mundo de cada um? Não temos mais o direito de pensar sozinhos. Por quê? Porque se todos sabem o que fazer para ter uma vida “perfeita”, para que pensar? Para que vou ficar procurando problemas se tenho a receita para ser feliz?
Mês passado eu fiz uma pesquisa sobre isto. Saí nas ruas perguntando às pessoas quais eram seus sonhos. Com a maioria absoluta das pessoas ocorreu o seguinte:
“Bom dia! Eu sou estudante de Jornalismo e estou fazendo uma pesquisa, você poderia me dar um breve momento da sua atenção?”.
“Sim, senhor. Mas tem que ser rápido porque eu não tenho muito tempo”.
“Certo…”, eu dizia esboçando um simpático sorriso amarelo, “Você tem algum sonho para sua vida?”.
“Eu queria ter um emprego estável, encontrar um grande amor, me casar e comprar uma boa casa para minha esposa (ou marido), meus filhos e eu”, todos respondiam automaticamente. Alguns ainda arriscavam sonhar mais um pouco: ”Se sobrar algum dinheiro eu gostaria de comprar uma casa na praia”.
“Sim, sim…”, eu sorria impacientemente procurando alguém que respondesse algo diferente, “Mas qual o SEU sonho?”, eu insistia, dando uma ênfase sonora evidente à palavra “seu”.
“O que o senhor quer dizer com SEU? O que lhe disse é o meu sonho, isso mesmo”.
“Nenhuma viagem em especial? Curso de graduação? Mestrado? Doutorado? Ser biólogo marinho em Fernando de Noronha? Pára-quedismo? Tocar numa banda? Ser arqueólogo no Egito? Atuar em uma peça de teatro? Escrever um livro? Aprender uma língua nova? Conhecer seu ídolo?”, eu tentava qualquer coisa para persuadir alguém e extrair qualquer informação diferente dos meus entrevistados.
“Não, nada”, respondiam com um ar indolente.
“Você não tem vontade de fazer nada diferente, sair da rotina? Dar uma emoção nova à sua vida medíocre?”, neste momento as pessoas costumavam me dar as costas sem nem ao menos me dar tempo de dizer “Obrigado pela atenção, tenha um bom dia…”
Pude concluir que estamos nos tornando máquinas, seres pré-programados para funcionar como a maioria quer. Estas pré-programações são normalmente conhecidas por outro nome: idealizações. Todos conhecemos o padrão de vida ideal, o corpo ideal, a profissão ideal, a cidade ideal. Num mundo onde tantas pessoas procuram ser diferentes, elas acabam alimentando as semelhanças entre si.
Hoje, vejo que muitas pessoas da minha idade estão se tornando cada vez mais angustiadas, mais depressivas. E por quê? Porque muitos estão começando a ver o mundo de uma forma diferente, perceber que existem outros meios de ser feliz. Nem todos acreditam mais na “família perfeita”, até porque atualmente convivemos com uma grande decadência dos valores familiares e morais. Muitos de nós crescemos vendo ou presenciando casais se divorciando ou, ao menos, brigando constantemente. Pessoas entram em depressão por viver numa contínua rotina de trabalho para ganhar uma miséria de salário. Adolescentes procuram desesperadamente seguir um padrão de beleza; qual o resultado? Anorexia, bulimia, ingestão de anabolizantes. Na imprensa há uma luta constante contra o consumo de drogas, mas tratam disto ainda como um clichê, afinal todos sabemos que as drogas fazem mal. Não está na hora de alguém procurar combater a origem do consumo? Acredito em duas origens: a primeira, o consumo ter se tornado algo “cool” entre as pessoas; a segunda, como forma de escapismo, para fugir de uma realidade opressora. Quem consegue observar o que está acontecendo decepciona-se com o lugar onde vive e com as pessoas que estão ao seu redor. Parece que não se pode mais confiar em ninguém. Pela frente riem e por trás esfaqueiam. Para quê? Narcisismo. Precisam rebaixar os outros para se sentirem mais fortes, poderosos. Hoje, há uma luta desenfreada pelo poder. O mais forte dita os padrões, diz o que é verdade e o que é mentira. Não sei mais com quem vivo e não sei até onde os humanos são capazes de ir para atingir uma meta. Não confio nem na minha sombra. Pessimista, eu? Talvez. Acham errado ser pessimista, mas eu não acho. Há imperialistas escondidos por todos os lados. Enquanto o mundo insistir em esconder sua verdadeira face, não tenho que ser otimista. Enquanto todos vivem oprimidos dentro de si, eu sou livre. Faço o que gosto e o que quero porque não devo satisfações da minha vida para ninguém. Falem o que quiserem de mim, eu sigo a minha verdade, não a deles. Se me excluem, não me importo. Eu sei que isto ia acontecer uma hora ou outra.
Tenho consciência plena de tudo o que acontece, mas prefiro não tomar parte. Não gostam de ouvir opiniões diferentes das suas ou, simplesmente, são indiferentes. Tenho a minha verdade e carrego-a comigo para a vida. Se prefiro ser sozinho, sei o que estou fazendo. E percebo que algumas pessoas fazem o mesmo que faço, tornam-se ilhas.
Às vezes ouço me chamarem de louco. Estas pessoas não me compreendem. Procuro não ser superficial como elas; se tenho vontade de rir, rio; se quiser gritar, grito; desde que ninguém sofra conseqüências com os meus atos, faço o que me der vontade. Quero usar minha vida para tentar entender o ser humano. Sei que vou me ferir cada vez mais, pois todas as idealizações cairão por terra. Sei que nem sempre o herói é herói, e que o bandido pode ser bom. Não existem pessoas perfeitas. E mesmo existindo por todos os lados o conceito da alma gêmea, seu marketing não me conquistou. Sinto falta de alguém? Sim, e muito. Mas acredito que o que procuro não existe. Não gosto de pessoas perfeitas, gosto de pessoas reais. Esta é uma dificuldade da vida: buscar uma pessoa real num mundo no qual todas as pessoas querem ser perfeitas. Assumir os defeitos e aceitá-los é necessário para ser feliz, esconder-se de si mesmo é fugir da realidade, é idealizar-se. Como dizia Álvaro de Campos: “Arre, estou farto de semideuses / Onde é que há gente no mundo?¹”. Faço das palavras dele, as minhas.

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1 – CAMPOS, Álvaro. In Fernando Pessoa – obra poética. 7ª ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977.

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2 Respostas

  1. Achei bonito, embora não concorde com algumas coisas.
    Um choro terminando num suspiro.
    E bem significativo o fato de não ter tido nenhum comentário, não?
    Peço desculpas pela ‘invasão’? Acho que não precisa, a internet não é pra isso?
    Meu nome é Stella, muito prazer, faço sociais no IFCH. Tinham já me recomendado este site, mas eu nunca tinha lido suas ‘colunas’ (são ‘colunas’?)

  2. “Arre, estou farto de semideuses / Onde é que há gente no mundo?¹” sempre usei como mantra!
    Belo texto.

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