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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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gosto amargo. em direção ao não

gosto amargo.

Eu acordei com uma dor nas costas como se antes de dormir eu tivesse mergulhado e, no sono, tivesse batido em pedra dura. Mas não havia terra no meu sonho, havia muito fogo, e na vigília havia uma rosa a me esperar.

Realidade estranha, realidade-parede, é essa. Eu me debato com as músicas achando que elas fazem menos sentido que o tempo. Desconfiando do tempo e o tempo desconfiando de mim mesmo. Isso tudo porque eu nunca sei se dou o passo certo. Poderia ser agora, ou poderia ser depois, mas está sendo agora. E eu tenho medo do que está sendo agora, do que está sendo irremediavelmente agora, do que não pode mais começar. Do que não é mais virgem. Porque aí está o medo ao tempo, será agora ou depois? Quando é que eu darei esse presente ao tempo? Que é sempre um presente a mim mesmo.

Eu sei que é sempre o medo, é sempre o medo que me faz evitar dar o passo adiante no abismo, é a angústia que me faz evitar. E não a confiança na minha incapacidade, porque isso seria coragem também, e não o meio-termo do medo. O passo que pára o pé em pleno ar, e por isso cansa, e deixa o corpo todo tenso, e dá dor nas costas.

É. A minha cabeça vem diretamente dos meus pés. Dos meus pescadores. De calcanhar que se transforma em osso da panturrilha e depois o poderoso fêmur a bacia larga com o sexo a base da coluna o osso dos rins o plexo solar as costelas o coração o pescoço que enforca o maxilar duro os lábios a boca o nariz os pomos os olhos tristes a testa e os cabelos. As constelações vão subindo como numa coreografia divina. E eu não sinto mais dor. Eu me renovo. A cada dia. Antes de acordar. Porque antes de dormir eu sou fênix. Voando de encontro à minha destruição. Ao acordar eu sou cínico.

Olhe nos meus olhos. Eles são cínicos? Olhe no meu fêmur. Ele te diz alguma coisa? Um pouco mais acima. Eu estou tentando te acordar, seu tonto, porque você está dormindo e estou sozinho acordado e eu não quero mais ficar sozinho. Então acorde! Agora! Não é tão difícil, meu bem, meu amor, com um pouco mais de carinho agora, seja lá qual o seu último nome foi, vê como eu posso ser bonzinho também, mas daí você tem que suportar a minha falta de jeito também. Porque é cortar uma raiz pela ponta demais também. E não me acorde nos meus sonhos também. Porque eu quero ficar sozinho agora.

Não, não, não, que desânimo! Que beco-sem-saída! Eu quero voltar e deitar na cama. Mas eu não me deixo mais agora, é preciso enfrentar com coragem agora. Nada mais de fugir. Nada mais de se refugiar em sonhos agora. Nada mais de rituais satânicos pela minha própria mediocridade. Agora eu entendo o que ela disse. Nós vamos e voltamos. Na mão que tira e põe a mão no fogo. Oh! Que fogo bom é esse! Que fogo violeta. Prometa não ter mais medo dele. Porque o mundo não te contém. Então não prometa mais nada.

Ande mais um passo no incompreensível. Na história que ainda não foi escrita. Sem esperar companhia, amor, sonho ou piedade. Mas sabendo que existem, a companhia, o amor, o sonho e a piedade. E se eles existem no mundo eles virão para você. E eles farão um encontro.

Ó meu amado, tu és minha peça de encontro, tu és minha interrogação. Deus me abençoe que não te faça um sonho, que não te faça uma solução, que mantenha um pouco cortado. Então tuas asas podem sangrar na ferida do meu braço. Então eu posso ir no encontro

em direção ao não.

Eu estou esperando no sonho. Eu estou esperando agora. Essa é a minha sinceridade. Areia espalhada na praia. Areia jogada nos teus olhos. Proposta de dor. Proposta dolorosa. Eu não abro concessões. É o caminho mais fino. Fino como a doçura dos perdidos, como o choro das crianças perdidas. É, meu amigo, não é fácil acordar desse sonho. Tu tens visto como eu me desdobro e abro, como eu me machuco e sonho, como eu me olho de todos os lados, e nem sempre em busca do prazer, porque, além de tudo, eu desconfio de mim mesmo. E tem umas coisas que eu tô olhando e não me corte pela raiz. Me deixe cair em sonho.

É você que viu aquele general, você que viu aquele senhor. Há uma corrente. Não há uma corrente. Que nos une todos. Há amor. Ninguém está sozinho. Ai que dor! Mas, ai meu deus! Ai que Dor! Não és um pássaro, és um sonho, eu não me importo me importando muito. Ligando tudo à minha corrente, então eu sou o homem dos sonhos, e se tudo me mata é porque eu estou ligado a tudo e tudo se desprende de mim, como um breve encontro. Lá se vai a pétala pelos ares. Lá se vai o sonho. Um gosto me invadiu as papilas. Era um gosto de infância. Nada nesse mundo que não me pertença.

Um pouco. Pesado. De encontro. Ao conto. Eu abro um buraco no chão! E me enfio nele! Sem medo de quem possa vir a pisar em mim, seja ele pesante ou fidalgo. Eu vou de encontro ao sonho. Deus queira que me faça um único homem, que me faça um único, que me faça homem. Deus queira que me proteja, que me mate na noite do sacrifício, que eu tenha o sonho, a honra. Que tudo vá se diluindo tão lentamente que eu não veja cores (para não me enganar?) para não virar flores. E não me é permitido ver tudo agora. Ou tudo me mata. Ou eu mato tudo. Então, nesse confronto, sou eu que vou morrer. É bom que seja assim. Eu honro. Estou em pé à beira do desafio. À beira da última pedra inerte, sem força e vida, roxa, esperando pelo meu próprio passo. Não haverá platéia, não haverá sonho, haverá, apenas, espera, e, logo, nem isso. Eu dou o passo. E vou caindo, caindo, caindo. Então é tão doce. O vento que bate no cabelo e então como me acaricia. E eu vou caindo. E então eu vejo. Há uma legião de homens. Lá embaixo. E eles constroem cidades. E eles constroem sonhos. E eles têm sonhos à noite. E então eles morrem. E não há mais história. Não há mais glória. Nem mesmo silêncio. Tudo não se move e é só esquecimento. Eu estou caindo em direção a eles e nenhum deles me vê, já que olham para o chão. E é tão triste passar a vida toda sem olhar o céu. E ir entortando, ano após ano a própria coluna, num movimento inútil de fechar-se sobre si mesmo. Eu estou caindo e com a minha coluna quebrando eu estou me abrindo para o mundo, e não só para os homens, mas para as dimensões da terra, das montanhas, dos sonhos e da morte. E, como borboleta que espera, eu não posso deixar de cair. Aqui vou eu.

 

Quantos céus já passaram. Quantas terras. Eu continuo caindo. Em direção ao não.

 

 

 

 

 

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