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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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Primeira tentativa de close reading

Uma história radicalmente condensada da vida pós-industrial

Quando foram apresentados, ele fez uma piada, esperando ser apreciado. Ela riu extremamente forte, esperando ser apreciada. Depois, cada um voltou para casa sozinho em seu carro, olhando direto para a frente, com a mesma contração no rosto.
O homem que apresentou os dois não gostava muito de nenhum deles, embora agisse como se gostasse, ansioso como estava para conservar boas relações a todo momento. Nunca se sabe, afinal, não é mesmo não é mesmo não é mesmo.
(David Foster Wallace, tradução de José Rubens Siqueira)

“Uma história radicalmente condensada da vida pós-industrial”. O primeiro conto serve de abertura ao livro, inclusive num sentido mais formal; do mesmo modo como a abertura operística traz uma súmula dos temas que serão recorrentes ao longo de toda obra, os motivos sobre os quais ela se constituirá, esse miniconto esboça os elementos mínimos básicos que se repetirão e combinarão de diferentes maneiras nos demais: a busca insana por felicidade e aceitação, as cargas de falsidade e ilusão que permeiam as relações sociais, os interesses imbricados na manutenção desses relacionamentos e a solidão conseqüente da insinceridade, ou reserva feita aos verdadeiros sentimentos e opiniões de modo a se agradar a outros, e assim ser considerado agradável (“esperando ser apreciado”). E já traz em si uma síntese do espírito de todo o livro, à guisa de subtítulo para todo o conjunto: Breves entrevistas com homens hediondos – uma história radicalmente condensada da vida pós-industrial.
A trama é extremamente simples (representa agilmente o momento em que um casal se conhece, cada um agindo de forma a agradar o outro, e mostra os sentimentos – ou não-sentimentos – e intenções um segundo homem, que finge apreciá-los), mas arquitetada de forma extremamente irônica, utilizando principalmente o recurso da repetição. Abre-se assim: “Quando foram apresentados, ele fez uma piada, esperando ser apreciado.” Já se demonstra aí uma atitude desprovida de sinceridade; o gesto da piada nada possui de natural, mas carrega em si a intenção de criar-se uma empatia. O trecho seguinte é uma variação do anterior: “Ela riu extremamente forte, esperando ser apreciada.” O contraponto ele/ela nas duas orações já nos informa do tipo de relação/apreciação almejada: a conquista amorosa. Em apenas duas sentenças, já conhecemos um bocado dos personagens: sabemos que são um homem e uma mulher; nutrem grande expectativa de se conhecerem e se agradarem; estão acostumados a uma burocracia da conquista, um ritual, um mascaramento necessário à criação de “boas relações”, como se afirma a seguir. O riso, aqui, não tem sua insinceridade marcada apenas pela indicação de uma intenção segunda por trás do ato, mas é também qualificado como algo forçado, mecânico (como o fenômeno do Sorriso Profissional, sobre o qual o autor discorre em A supposedly fun thing I’ll never do again), ao receber a qualificação de “extremamente forte”; a marca do extremo sugere que a intenção do gesto – e, portanto, a perda de sua espontaneidade – torna-se evidente, embora isso não pareça ter importância, ou seja por si mesmo aprovado, como demonstra o trecho seguinte: “Depois, cada um voltou para casa sozinho em seu carro, olhando direto para a frente, com a mesma contração no rosto.” Solteiros ou solitários em alguma das acepções e possibilidades do conceito, Ele e Ela voltam para as respectivas casas. Aí, podemos tomar dois caminhos básicos de leitura: num primeiro, a afirmação de que voltaram sozinhos dá um indício de que a apresentação não fora bem-sucedida; noutro, pode-se assumir o oposto, a promessa ou esperança a partir daquele primeiro encontro. Na reprodução de expressões mecânicas – “olhando direto para a frente” – e idênticas – “com a mesma contração no rosto” –, demonstra-se o quanto são semelhantes, e o quanto incorporam – e, assim, o quanto de artificial, insincero e industrial (como indica o título) haverá (ou haveria) num futuro relacionamento, situação que se demonstra ponto-chave da narrativa.
O segundo e último parágrafo trata de uma terceira pessoa envolvida no acontecimento (ou não-acontecimento). A enunciação que traz não dá um fecho à situação descrita e a contextualiza. Há um movimento, não em direção a um momento futuro que traria o desfecho da apresentação/encontro, mas, rumo o passado, indica sua “causa’, motivação, e dá o tom que norteará o restante do livro. A sentença de abertura, “O homem que apresentou os dois não gostava muito de nenhum deles”, já indica que a apresentação de “ele” e “ela” não se deu por motivos de amizade ou de boa vontade. A indicação de que o homem “não gostava muito de nenhum deles” sugere que ele, apesar de não apreciá-los, de não nutrirem de fato alguma camaradagem, manter com eles algum tipo de convívio. A frase seguinte arremata: “embora agisse como se gostasse, ansioso como estava para conservar boas relações a todo momento”. Temos aí alguns traços mínimos de caracterização o homem: omite suas opiniões para “apreciar e ser apreciado”, para “conservar boas relações”, expressão que denota seu anseio, sua orientação de vida. Por boas relações podemos depreender, por um lado, uma tendência ao alpinismo social, a postar-se ao lado de pessoas-chave, V.I.P., ou ligadas a algum instrumento de poder político ou econômico para subir com elas; porém, a julgar pelos outros contos do livro, trata-se mesmo de relações em que se é benquisto, ou espera-se ser, embora as verdadeiras opiniões/sentimentos nunca sejam demonstradas, o que descamba em relacionamentos também falsos, superficiais, fundamentados no “agisse como se gostasse”, de que decorrerão as patologias e dramas por que os demais personagens do livro passarão.
É interessante notar que o microconto composto por períodos a princípio curtos e cada vez mais longos, para findar numa sentença curta novamente: “Nunca se sabe, afinal, não é mesmo não é mesmo não é mesmo.” A cautela de se manter as “boas relações” vem da possibilidade de renderem “bons frutos” no futuro, e justifica o jogo de máscaras obsessivo da vida pós-industrial. A breve repetição, sem o uso de vírgulas ou do ponto de interrogação que seriam esperados, é um indício também da reinvenção formal que marca a obra.

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Uma resposta

  1. Muito interessante seu close reading! Ele retrata fielmente o que ocorre no “mundo dos encontros modernos”, e faz um perfeito paralelo de significação e conteúdo implícito entre o conto e a realidade! A partir da análise que você fez, é possível conhecer bem o desenrolar do livro, e favorece a decisão pela leitura, ou não leitura dele pelos leitores de seus close reading. Eu, particularmente achei bem interessante a proposta, e leria o livro! Essas temáticas sobre comportamento social são bem interessantes!
    Para uma primeira tentativa de close reading, você obteve bastante êxito! Está realmente muito bom! Parabéns!

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