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Anulação & Outros Reparos, de Bruno Tolentino

Minha postagem deste mês irá homenagear um poeta brasileiro da mais alta estirpe. Estamos falando de Bruno Tolentino, falecido em 27 de junho do ano passado. Há uma ressalva estrutural a ser feita nesse ponto: minha proposta inicial era de comentar, a partir de uma perspectiva de apresentação, obras de poetas novíssimos, publicadas a partir da década de 80. Não me é possível limitar-me mais a esse escopo. Poesia contemporânea brasileira continua sendo o assunto que rege esta seção; todavia, pretendo afrouxar as fronteiras temporais, e ampliar mais o conceito de contemporâneo. A obra que comentaremos, por exemplo, é datada de 1963: nada menos que a estréia desse magistral poeta. A edição que tenho em mãos, todavia, é a “edição definitiva”, revisada pelo poeta e republicada em 1998, com alguns poemas inéditos. Comentaremos brevemente o estilo de Bruno nessa época, com as transcrições costumeiras e as rápidas interpretações às quais estamos habituados.

O livro chama-se Anulação & Outros Reparos. Como bem notou João Cabral de Melo Neto, “Anulação & Outros Reparos não era um livro de um principiante em busca de sua voz, mas obra de poeta já realizado”. E cremos que não poderia haver observação mais aguda: Bruno parece passear, logo pela sua primeira obra, pela tradição das formas da poesia ocidental com leveza e desenvoltura, seguindo um rigor formal sólido e duro, por vezes, e entrando por outras no prosaísmo de nossos melhores modernistas de 30. O poema de abertura é elaborado em terza rima (o mesmo estilo empregado por Dante na Divina Comédia), e o verso inicial nos remete imediatamente a Rilke, com a seguinte referência aos anjos:

 

Senhor, Senhor, o Teu anjo terrível

é sempre assim? Não tens um refratário

à hora do massacre – um mais sensível (…)

 

Poema pungente este de abertura, e nem por isso menos poeticamente lúcido: tão sentido e doloroso quanto o melhor Fagundes Varela, ao falar do filho morto, e tão sóbrio e preciso quanto o mais altivo Olavo Bilac.

Vemos o livro dividir-se, a partir desse ponto, em 3 partes: primeira parte, interlúdio e última parte constituem a obra. Há ainda uma seção à parte, denominada CODA, que inclui três reparos tardios e o “último reparo”, com um único poema onde Tolentino, mais velho e maduro, revisa sua obra, criticando ferrenhamente a si mesmo.

A primeira parte é composta de poemas de caráter diverso, incluindo sonetos, uma “sextina livre”, poemas de metro variado (porém nunca completamente livre) que nos lembram a dicção de Drummond, um poema em francês e poemas traduzidos. Quero aqui transcrever o poema Copo, que tem um tom sereno e pausado, apoiado pela alternância entre versos de 9, 4 e 2 sílabas, que gera uma música tranqüila e envolvente:

 

Copo

 

Não é o mesmo cristal de copo,

não é o mesmo.

Que outros o tomem, eu nunca toco,

            eu vejo.

 

Olhos abertos, sentido atento,

            nenhuma fuga.

Clarividência roendo o tempo

            e lúcida.

 

Dois olhos secos são muito pouco

            e a vida muita.

Não é o mesmo cristal dos outros:

            tudo muda.

 

Não é o mesmo: eles se perdem

            e eu me perco.

Mas vou mais fundo. Todos esquecem.

            eu não bebo.

 

O teor de renúncia e sabedoria atingem em cheio o leitor graças ao estilo pausado. As palavras sucintas ganham pesam próprio, tornando seu significado mais luminoso e comunicativo. Os versos curtos, em especial, exercem essa função: dizer, por exemplo, “tudo muda”, pode não nos causar nenhuma surpresa. Nós sabemos intuitivamente de certos infortúnios da vida. Mas dentro da estrofe, preparada pela expectativa lenta que vem sendo criada, pelo cenário de diferenciação do eu-lírico como um ser que paira acima das banalidades do mundo, ela funciona e volta a nos impressionar. O tempo presente também causa uma impressão e proximidade e simultaneidade. O poema é o que deve ser: uma maquina de recursos formais e elementos estéticos funcionando em conjunto para causar uma determinada sensação no leitor. E nos causa.

O interlúdio é chamado de “A elegia obsessiva”. São dois ciclos de 16 sonetos belíssimos, que variam da tópica romântica à contemplativa, da erótica à filosófica. Creio que seja o mais alto momento do livro (mas devo confessar que sou movido por preferências literárias pessoais), e que sua leitura merece uma atenção redobrada, preferencialmente em voz alta, para que nos causem o arroubo desejado pela alta elocução e as imagens grandiosas. Aqueles mais avessos ao parnasianimos poderiam argumentar que ao fim da leitura se sentiriam entediados, não suportando mais as formas fixas. Eles se enganam. Tolentino prevê essa reação natural ao decassílabo e cria soluções próprias para a forma dos sonetos, compondo por vezes sonetos modernos com métrica variável, ou sonetos rasgados ao meio de 5 sílabas. O conteúdo dos poemas é interligado, e se relaciona de maneira musical, como uma sinfonia que repete temas, evolui-os, traça fugas e conclui numa grande apoteose, ou num morrendo sublime. Escolher um poema dessa seção para apresentar aos meus fiéis leitores é uma tarefa dolorosa: preferiria entregar-vos o livro inteiro em mãos. Para instiga-los a leitura, todavia, vou transcrever o sexto poema do segundo movimento.

 

VI

 

Parece-me tocar coisa nenhuma

ao tocar tua pele… Ou me parece

que és puramente a colisão da bruma

na asa do colibri quando ele desce

 

                        às tuas longas confusões de espuma…

                        Mas não, és a libélula, e acontece

                        que o lago, sendo eu, desaparece

                        porque pairando nele o teu perfume

                       

                        afoga o resto, engolfa, abole o lago…

                        Não sou coisa nenhuma nesse amplexo

                        de leveza e asas, nesse vago

 

                        delicado conchavo de reflexos,

                        se quando és toda minha é que me apago

                        tentando dar o laço, atar o nexo…

 

            Vamos terminar nosso post por aqui. Apenas destacaremos outro ponto interessantíssimo do livro: o Último Reparo. Já falamos dele: é um longo poema (cuja forma Tolentino chama de “romã”) que critica ferozmente toda a poesia anterior do livro, escrito por um poeta distanciado de si mesmo pelo passar dos anos, e que revê seus primeiros escritos. Somos forçados a discordar do poeta, pois vemos que desde então seus poemas já eram de altíssima qualidade; não descartamos, todavia, o próprio poema auto-jocoso, que passa, da metade para o final, a considerações gerais sobre a poesia, sua função, sua inutilidade bela e efêmera. Ótima maneira de fechar o livro, tirando o leitor do inevitável “abobalhamento” provocado pelo toque de divino em seus versos, e o prevenindo que, ao fim das contas, não passa de poesia.

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