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    Especial FLIP 2008
    Com Carolina Lara e Jacqueline Lafloufa
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A coisa

A coisa estava escondida em uma viela escura esperando sua vítima passar por ali. Estava um tanto acuada, o tipo de gente que ela tinha que pegar estava sempre alerta e era difícil surpreender e, quando não conseguia, era realmente um tormento ouvir as explicações e motivações deles antes de devorá-los.

A viela estava molhada da chuva, fedendo urina e lixo apodrecendo, talvez um pouco de gosmas das prostitutas que se serviam nos muros de pedra. Lá no fundo uma garrafa caiu fazendo um tremendo estardalhaço. Alguns ratos correram e, um em especial, gritou ao ser esmagado por um coturno, a coisa avistou um bêbado sendo carregado pela sua garrafa vindo em sua direção. Olhou-o com uma curiosidade canina e desconfiada. O bêbado diminuiu o passo, parou, encarou a coisa como se tivesse visto um homem vestido de palhaço na fila do banco.

Olhou para a coisa e para a garrafa, para a coisa, para a garrafa. Encarou bem de perto aqueles buracos onde se escondiam os olhos lá no fundo, uma luz no final de um longo cano de PVC. Afastou-se e continuou andando.

–Essa é a puta mais feia que eu já vi na vida!– E tomou outro grande gole da garrafa oleosa.

A coisa riu. Mostrou aqueles dentes pequenos, pontudos e podres, e seu riso parecia um violino desafinado. Tinha a pele esburacada de buracos fundos. Ela apodrecia e os bichos preenchiam suas feridas, e andavam dentro dela e faziam-na funcionar.

Ao longe os passos de um sapato de verniz. Era ele. Ela podia sentir o cheiro. Inclinou-se um pouco para a rua e viu aquela luzinha na testa dele.

Aproximava-se e ela já podia ouvir o barulho do casaco roçando-se, a parte de dentro com a parte de fora, com a calça.

O letreiro quebrado soltou uma faísca iluminando a viela e os buracos sem fundo da cara da coisa. O homem viu. Parou.

Ela se aproximou. Olhou-o com uma fome sobrenatural, sexual, com uma sede.

Ele olhou assustado.

–Quer meu dinheiro?

Ele tirou a carteira e a jogou em uma poça logo na frente da coisa.

A chuva caía silenciosamente.

A coisa não tirou os olhos da testa do homem, lambia os beiços descarnados e mostrava os dentes.

Ele olhava a carteira e olhava para a coisa.

Começou a chorar, pôs a mão no chapéu e segurou-o na cabeça como se ele pudesse voar a qualquer momento.

A coisa parou de salivar, andou até ele depressa.

Ele ajoelhou-se e começou a suplicar pela vida. Ela chegou perto e tirou as mãos dele de cima do chapéu e enfiou o dedo na testa dele. A pequenina estrela brilhante diluiu-se com a água e escorreu pela ponta do nariz junto com a chuva e as lágrimas. Ele olhava para a coisa e chorava mais convulsivamente.

–Você deve ser a vingança divina pela minha sabedoria não? Eu consegui descobrir o que Aristóteles realmente queria dizer, eu entendi como posso mudar o mundo usando os ensinamentos de Marx, aprendi a como mudar as coisas e como é a política e… Você foi pago pela oposição?

Levantou-se – Ah! É isso, você foi pago para me matar para não prejudicar o senador!

A coisa estava muito irritada e faminta, apontou de novo para a testa do homem. Ele, sem entender, acariciou a testa e não sentiu nada de diferente.– O que você quer? Quer saber se eu sou judeu? Sim, eu sou judeu convertido! Você odeia judeus?

Afastou-se um pouco da coisa. — Olha, eu não estava na Segunda Guerra Mundial e ninguém da minha família também não. Virei judeu depois que eu entrei para a faculdade e me condoí do holocausto.

A coisa rosnou alto, pôs a mão na barriga esquelética, agaixou-se. O homem se viu livre para correr e o fez imediatamente.

A coisa se arrastou até o muro da viela e vomitou uma coisa preta e coalhada.

Levantou arquejada, sentindo uma dor insuportável no estômago. Ela carregava em si toda a fome do mundo, toda a doença, a nojeira, … e ainda tinha vomitado o resto do sangue que ainda havia em seu estômago. Até achar alguém que valha a pena comer… alguém que já esteja no ponto.

Esquivou-se pelas latas de lixo da viela e arrastou-se pelo chão imundo.

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3 Respostas

  1. PUTAQUEOPARIU.

    Foi uma das melhores coisas que eu li nas últimas semanas. MESMO.

    Aldinha, você devia ser louvada. É o meu predileto. daqui até pra sempre.

  2. Amo essa coisa nojenta.

  3. ai q medo!
    e q nojo!
    e como eu fiquei curiosa o texto todo!
    meuu muito legal!
    um pouquinho confuso soh(pouquinho mesmo)
    mas o kurt vonnegut tb eh intao tah tudo certo!
    te amooooo
    podia por mais texto neh!

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